A essência de Kerouac

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Autor de On The Road, Kerouac foi capaz de transmitir em palavras a verdadeira sensação do que é viver, daquilo que realmente importa para alguém nesta vida e se dispôs a provar do inesperado sem hesitar.

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Escritor que por muito tempo tentou reprimir sua forte vontade pela liberdade incomum, jogando-se ao mundo sem nenhum plano, apenas atendo-se em registrar tudo aquilo que lhe inspirasse em um de seus cadernos, Kerouac foi capaz de transmitir em palavras a verdadeira sensação do que é viver, daquilo que realmente importa para alguém nesta vida e se dispôs a provar do inesperado sem hesitar. Sempre tentando uma escrita acessível a todos os leitores, parece que o seu real desejo a cada novo livro era que sua felicidade alcançada em cada uma de suas viagens, em cada nova pessoa a qual conhecia e a cada nova experiência que passava fosse transmitida da forma mais pura possível. Essa busca mesmo que inconsciente de Kerouac em se libertar conectava-se perfeitamente com o ideal dos jovens hippies, que logo consumiram aquela literatura de tal forma que acabaram tornando um de seus mais aclamados livros, On the Road, a bíblia hippie.

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Kerouac em frente ao cinema

A forma espontânea de Kerouac escrever tornou-se algo inovador, que se desprendia de qualquer modelo literário imposto até então. Não poderia se esperar menos do que uma nova perspectiva de leitura. O estilo beat de escrever não somente dava ao leitor os aspectos do enredo, a situação das personagens, tempo e espaço presentes, mas também proporcionava uma visão mais profunda sobre os sentimentos dos envolvidos na obra. Quando Sal Paradise descreve suas expectativas fazendo todo um questionamento sobre a vida que havia levado até aquele presente momento e como tudo estava mudando aos poucos, o leitor também se questiona sobre sua própria vida. Esquece-se por alguns minutos do livro, sendo transportado para seus medos, seus objetivos, suas indagações e sonhos, não havendo mais barreira entre narrador e leitor.

Assim como as pessoas que viveram o movimento hippie tiveram a primazia de se conectarem a um mundo mais “real”, as personagens do livro também se entregaram a essa nova visão de universo. Em seus pensamentos, todos os dias eram importantes, devendo ser aproveitados em cada minuto de forma plena, dando todo o amor possível a tudo que havia na Terra. Não contavam com o fim de semana para se divertirem, a vida para eles não era medida em semanas ou em horas como hoje nós insistimos em fazer. Realmente, a vida pulsava muito mais forte, com muito mais sentido para eles, afinal não importava onde esta ou aquela estrada iria dar, mas sim o caminho que se faria até chegar.

 

Kerouac hoje

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Kerouac em leitura pública

Essa é a essência pura que Kerouac conseguiu extrair com On the Road, que até hoje encanta tantas pessoas. Nem todos conhecem a grandiosidade das obras do autor, alguns mal ouviram falar do movimento hippie ou mesmo desconhecem qualquer herança vinda dos anos ‘50/60. Quantas dessas pessoas estão continuamente isoladas umas das outras por conta de seus empregos, de suas rotinas e por inseguranças pessoais?

Da mesma forma que Kerouac para se sentir livre resolveu cruzar estados, passar por cidades e conhecer outras pessoas, nós podemos (e devemos) nos inspirar nele. Claro que nem todo mundo pode jogar tudo para o alto e viajar sem destino, mas podemos apreciar cada novo dia, cada mudança climática, cada pessoa que passa por nós e não olhamos nos olhos, dar um abraço mais demorado em quem amamos e escutar aquele que apenas precisa de um ombro amigo. Pequenas atitudes que nos tornam mais humanos e nos ajudam na busca incessante pela felicidade.