Flip 2018: o que é visitar uma cidade dominada pela literatura

Uma das nossas colaboradoras foi à 16ª edição Flip – Festa Literária Internacional de Paraty – e nos conta o que é estar lá

Flip
divulgação

A 16ª edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que ocorreu de 25 a 29 de julho, trouxe como homenageada a escritora Hilda Hilst. A autora é polêmica ao tratar de temas como a sexualidade e a espiritualidade; também tinha fama de mal compreendida, por sua linguagem abstrata, em fluxo de pensamento. Na festa, a Casa Hilda Hilst disponibilizava bottoms, adesivos e marcadores com os dizeres “Leia Hilda”. Havia muitos de seus livros à venda e ganhava-se uma bolsa especial ao comprá-los. Na abertura do evento, Fernanda Montenegro leu um poema dela. Um filme baseado em sua obra também foi exibido gratuitamente no Cinema da Praça, reinaugurado este ano: trata-se de Unicórnio, de Eduardo Nunes, com Patrícia Pillar no elenco. É um longa sensível, bastante poético, de poucos diálogos, porém marcantes, e linda fotografia. Enfim, a autora estava bem representada na festa e é importante que se divulgue sua obra, nem tão conhecida.

As atividades aconteciam concomitantemente em diversos lugares a partir do centro histórico. Um mapa (bastante necessário, diga-se de passagem) e um cronograma das mesas principais eram disponibilizados gratuitamente. As mesas principais eram pagas, porém era possível assisti-las pelo telão do lado de fora. Para as outras mesas, as senhas eram distribuídas uma hora antes. No entanto, as filas para ver as principais personalidades, como Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Zélia Duncan, Gregório Duvivier, Monja Cohen, Zeca Camargo, dentre outros, ficavam enormes desde cedo, e logo o número de vagas se esgotava. Era preciso perder o dia para ficar na fila ou optar por assistir às palestras menos concorridas, apesar de a festa estar bastante cheia como um todo.

Dentre as atividades, além das palestras sobre temas diversos, desde Hilda Hilst até não-ficção, passando pelo feminismo, Internet (com a presença de booktubers, por exemplo) e atualidades, havia performances, batalhas de poesia (SLAM), saraus, etc. Além dos livros para venda, alguns em promoções, mas a maioria nos preços originais das editoras, alguns eram distribuídos gratuitamente. Na tenda da Secretaria da Leitura e do Conhecimento, por exemplo, bastava tirar uma foto, curtir a página e postar a hashtag para ganhar um livro sobre arte contemporânea. Também era possível ganhar livros ou ingressos para mesas declamando poemas no palco, de autoria própria ou alheia. A patrocinadora EDP (Energias de Portugal), responsável pela reconstrução do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, preparou uma apresentação interativa, onde era possível ver vídeos sobre os países onde se fala a língua portuguesa, os principais escritores e movimentos literários no Brasil, as origens de certas expressões idiomáticas; além disso, ao final, participava-se de um jogo de ortografia, onde se ganhava um livro ao acertar todas as palavras propostas. Também havia uma gravação da leitura de um poema de Olavo Bilac homenageando a língua portuguesa, com o objetivo de ser exibida posteriormente no museu.

Enfim, havia bastante variedade de atividades, espaço para todos os gêneros, temas e tipos de autores. Conforme comentado no jornal O Globo, esse ano a mistura foi bastante grande, portanto não houve claramente a divisão Flip / off Flip. Foi possível adquirir livros, assistir a palestras e até participar, caso se desejasse. No entanto, as filas eram muito grandes, o que exigia o sacrifício de ficar em pé em cima daquele chão de pedras irregulares, o que era bastante cansativo. Havia muitas opções de restaurantes e bares para almoçar, jantar ou fazer lanches, que ficavam, porém, sempre lotados em horário de almoço. O ideal, para se aproveitar ao máximo o evento, seria procurar palestras alternativas, como as de autores independentes e booktubers, bem menos disputadas, e fazer as refeições também em horários alternativos. Além disso, vale a pena aproveitar a estadia para conhecer a cidade, prestigiar o artesanato local, fazer passeios de barco ou de charrete e, principalmente, a pé, entrar nas igrejas, dar um pulo na praia, etc. Paraty tem seu charme, em especial nessa época do ano, em que o clima é muito gostoso e a literatura domina a atmosfera local.

Nicole Ayres Author

É graduada em Letras port/francês pela Uerj. Apaixonada pelas palavras, desde que aprendeu a ler e a escrever, não parou mais. Amante da vida e das artes. De espírito quixotesco, ainda vai aproveitar a experiência de suas aventuras literárias para explorar o mundo. Mantém os pés no chão e a cabeça nas nuvens.