Política da memória em “K – Relato de uma busca”, de Bernardo Kucinski

K – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, aborda a busca desesperada de um pai por sua filha que sofreu as violências do regime militar
 K – Relato de uma busca Bernardo Kucinski
Bernardo Kucinski, autor de K – Relato de uma busca

São diversos os enfoques e pressupostos teóricos-metodológicos que estudam a memória. Atualmente, em nosso cenário nacional cumpre aprofundarmos a memória de eventos políticos e estudos que tratam do trauma psicológico produzido pela violência política. Afinal, além de tosco e irritante, os pedidos de intervenção militar são sintomáticos da falta de uma séria reavaliação do período da ditadura militar (1964-1985), que faz o Brasil permanecer em uma democracia imperfeita e também torna instigantes os aspectos psicopolíticos da memória coletiva dos cidadãos brasileiros desse horrendo período.

Os aspectos políticos da memória são importantes, pois esses pedidos por golpe militar advém de muitas pessoas que pertencem às classes populares, “de modo que urge o esclarecimento, visto que a democracia representativa precisa caminhar para a incorporação do poder destituinte efetivo da pressão popular”[i].

Para esse esclarecimento é essencial o testemunho presente em narrativas literárias. Também, é claro, que estas narrativas sejam estudadas (pelo menos apresentadas) na escola com uma fecunda mediação com a história. Será que isso acontece ou pode estar em vias de acontecer? Caro leitor, quantos textos literários leu no Ensino Médio a respeito do período da Ditadura Militar?

Em um post aqui mesmo do site, é apresentado “9 romances que retratam e denunciam a brutalidade do período ditatorial“, que super recomendo. Hoje quero apresentar alguns aspectos do romance K – Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski.
Trata-se do romance de estreia do autor, publicado em 2011, quando tinha 74 anos. Como afirma em uma entrevista, surgiu pelo fato de estar “enfadado do jornalismo, do governo, da academia, da política, da ciência econômica, de que tanto gostava, e um pouco sem ter o que fazer, depois de ser aposentado da universidade pela compulsória”[ii].

Bernardo Kucinski era jornalista da revista Veja e, após apresentar uma séria de reportagens sobre a tortura no país, precisou fugir para a Inglaterra, onde ficou com sua esposa entre 1971 e 1974. Justamente nesse ano de 1974, sua irmã Ana Rosa Kucinski desapareceu, vítima da intensa repressão política que se consolidou a partir de julho de 1970, quando o ministro do Exército, Orlando Geisel, definiu que o Exército assumiria o comando das atividades de segurança e criou os Destacamentos de Operações de Informações‑Centros de Operações de Defesa Interna (DOI‑CODI).Assim, a partir dessa tragédia familiar, é explorada a tragédia nacional, tendo como protagonista a busca de um pai, apresentado apenas como K.

História e ficção em  K – Relato de uma busca

História e ficção entrecruzam-se, desde as primeiras linhas do livro, catalogado como ficção brasileira. Por sua vez, o próprio pai é um judeu polonês que imigrou para o Brasil para fugir da perseguição política sofrida, posto que em sua juventude havia sido preso por envolvimento com atividades políticas. Composto por 29 capítulos, o romance aborda a busca desesperada desse pai por sua filha, que, quanto mais se dedica em saber notícias da filha mais se depara com versões destoantes, de forma que acumulam-se as angústias, tornando a cada capítulo a narrativa mais cruel e dolorosa.

A construção do espaço na narrativa em é muito interessante, posto que sabemos apenas superficialmente onde os personagens estão – em São Paulo, por exemplo –, a desinformação referente aos lugares propriamente ditos percorrem toda a obra. Ao meu ver, isso contribui para que não seja apenas uma tragédia familiar privada, mas sim uma dinâmica contextual que afetava toda uma nação, como fica exposto no momento em que K. vai a uma reunião na igreja:

 No trigésimo dia do sumiço da filha, K. leu no Estado de S. Paulo uma notícia que se referia, embora de modo discreto, a desaparecidos políticos. O arcebispo havia convocado uma reunião com “familiares de desaparecidos políticos”. Estava escrito assim mesmo: “familiares de desaparecidos políticos”. K. nunca entrara num templo católico, tal o estranhamento nele provocado pela penumbra silenciosa das igrejas e pelas imagens de santos, que vislumbrava por entre vãos de porta. Tinha pelo catolicismo repulsa atávica, à qual somava desprezo pelas práticas religiosas todas, inclusive as do seu próprio povo. Na verdade, não era das pessoas e suas crenças que ele não gostava, era dos sacerdotes, fossem padres, rabinos ou bispos; ele os tinha como hipócritas. Mas, naquela tarde, nada disso importava. Uma autoridade importante, um arcebispo, ia falar sobre as estranhas desaparições. Ao entrar no salão central da Cúria Metropolitana, K. sentiu o quanto o sumiço da filha já o havia mudado. Foi com simpatia que contemplou a imagem barroca da Virgem Maria situada no saguão, e outras de santos que desconhecia, postadas nos cantos. Quando chegou, a reunião já começara. Havia sessenta pessoas ou mais nas cadeiras bem mais numerosas dispostas no salão. Quatro senhores sisudos que pareciam advogados coordenavam o encontro, sentados em forma de meia-lua de frente para o público; uma freira escrevia num grande caderno[iii].

A filha de K., chamada de A., de 32 anos, era professora no Departamento de Química da USP. Até o seu desaparecimento, K. estava completamente alheio aos problemas políticos do país; era um simples dono de uma loja e um estudioso da literatura iídiche. Com a busca pela filha, descobre que um abismo os separavam, pois não sabia que ela era militante e, inclusive, desconhecia o casamento dela com Wilson Martins. Ambos desaparecidos, “era como  se  em  torno  dela  e  do  marido  tivessem  erguido uma muralha  de  segredo  impenetrável”[iv].

A busca por verdade e justiça

Toda a busca de K. é o paradigma da luta por verdade e justiça que os familiares de mortos e desaparecidos políticos têm protagonizado e que, infelizmente, ainda se deparam com diversas dificuldades mesmo em nossa frágil democracia. Desde o início de 1971, a face secreta da repressão política se utilizou de casas de tortura em diversos estados, como a “Casa da Morte”, em Petrópolis, e de cemitérios públicos, como o cemitério Dom Bosco, em Perus, na cidade de São Paulo, para enterrar ativistas e guerrilheiros assassinados com identidades falsas. Um sintético trabalho que trata sobre isso intitula-se “Os familiares de mortos e desaparecidos políticos e a luta por ‘verdade e justiça’ no Brasil”, de Janaína de Almeida Teles, que se encontra no excelente livro “O que resta da ditadura: a exceção brasileira”, organizado por Edson Teles e Vladimir Safatle.

No romance, o protagonista é absorvido por um sentimento de culpa, como se fosse responsável pelo desaparecimento da filha. Isso ocorre sobretudo por tentarem transformar a filha em culpada pelo seu próprio desaparecimento, pelo fato de ela ser comunista. Muitas pessoas às quais K. recorreu diziam “mas ela não era comunista?”, como se fosse culpada por qualquer delito em razão de sua posição ideológica.

Considero o capítulo A terapia como um dos mais emocionantes. Focaliza o testemunho da personagem Jesuína Gonzaga, de vinte e dois anos, que consulta no INSS uma psicóloga por estar sofrendo com pesadelos e ouvindo vozes. Isso porque Jesuína trabalhava em uma casa em que se torturava e matava os presos políticos. Exponho abaixo apenas um curto trecho para aguçar a curiosidade do leitor:

A terapeuta, abismada, sente suas mãos trêmulas, finge que faz anotações na ficha, mas nem isso consegue. Toma um pouco de água, servindo-se de uma jarra no console ao lado, oferece água à Jesuína, que aceita. Precisa pensar. Amedronta-se com o que está ouvindo, mas ao mesmo tempo quer saber mais. Rostos de antigos colegas e amigos passam pela sua mente em redemoinho. Sente que Jesuína detém um segredo pesado.
[…]
Jesuína permanece calada, os ombros ainda mais curvados.
“Jesuína, fale um pouco dessa casa, fale o que te vier na cabeça, o que você se lembrar, ponha para fora, isso vai te fazer bem.”
“Era uma casa como qualquer outra, mas grande, numa ribanceira, bem lá em cima do morro, em Petrópolis. Era uma rua comum, casas todas grandes, de gente rica, e com quintais também grandes; essa tinha muro alto em toda a volta, e dos lados eram terrenos com mato, não dava para ver nada que acontecia lá dentro. Quando os carros chegavam, o portão abria, automático, os carros entravam com o preso e logo levavam ele para baixo, onde estavam as celas. Eram só duas celas. Eu ficava quase sempre na parte de cima, que dá para a rua. Lá no andar de baixo, além das celas, também tinha uma parte fechada, onde interrogavam os presos, era coisa ruim os gritos, até hoje escuto os gritos, tem muito grito nos meus pesadelos. Mais embaixo ainda, no fundo do quintal, quase no final da ribanceira, tinha uma coisa, uma espécie de depósito ou de garagem. A sala fechada onde interrogavam os presos eu às vezes tinha que limpar, mas lá embaixo no depósito nunca me mandaram…”
[…]
“Você sabe o que eles faziam com os presos?”
Jesuína aparenta que não escuta. A terapeuta repete a pergunta de modo mais enfático.
“O que eles faziam lá embaixo com os presos, Jesuína?”
“Os presos era levados para lá, sempre um só de cada vez, e nunca mais eu via eles. Lá em cima eu via pela janela eles serem levados para dentro da tal garagem, nunca vi nenhum deles sair. Nunca vi nenhum preso sair. Nunca.”
“Mas o que tinha lá dentro daquela garagem, Jesuína?”
Jesuína leva as duas mãos à cabeça, parecendo tapar os ouvidos, demora-se nessa posição, muda e cabisbaixa; depois puxa sua cadeira para bem perto da terapeuta e sussurra, no modo de quem compartilha um segredo: […]

Todo o romance, enfim, é um importante testemunho, já que o esquecimento seria uma catástrofe coletiva. Trata-se, sem dúvida, de uma consciência ética preservar a memória coletiva da repressão. A imaginação é chamada como arma que deve vir em auxílio do simbólico para enfrentar esse horrendo e traumático período de nossa história como nação. Bernando Kucinski, como outros escritores, elaborou um texto-chave para a compreensão dos mecanismos memoriais introjetados, expulsados ou apenas silenciados pela consciência nacional brasileira sobre as violências do regime militar.

***

[i] Vladimir Safatle trata desse aspecto em recente coluna na Folha de São Paulo, intitulada “Temendo o povo”. Nela, o autor reflete como atualmente as reivindicações populares entraram em uma clara dinâmica anti-institucional: “Esta dinâmica anti-institucional pode tanto ir em direção às fantasias paranoicas de um regime forte e ditatorial quanto a um fortalecimento de movimentos de transferência do poder decisório a instâncias imanentes à vontade popular. A história nos mostra que as classes populares, quando assumem uma dinâmica anti-institucional, podem ir tanto para um extremo quanto para o outro”.
[ii] Entrevista publicada pelo Jornal Rascunho, podendo ser lida aqui: http://rascunho.com.br/a-libertacao-de-kucinski/.
[iii] KUCINSKI, Bernardo. K. – Relato de uma busca. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 17.
[iv] KUCINSKI, 2014, p. 61.

Rafael Lucas Santos da Silva Author

Possui Graduação em Letras Português/Espanhol e Respectivas Literaturas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE.