Muito além de uma fábula infantil: “Haroun e o Mar de Histórias”, de Salman Rushdie

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Através de uma fábula, Salman Rushdie explora a perda da liberdade de expressão

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Crianças iranianas com cartazes contra Salman Rushdie. Ao centro, pode-se ler “nós estamos prontos para matar Rushdy”

Expoente britânico do realismo mágico, Rushdie ficou conhecido por criar histórias que mesclam situações cotidianas com elementos da fantasia indiana (a família dele é de Bombaim). Mas essa não é a única razão de sua fama. Ele foi um dos autores mais perseguidos pelo Islã na década de 1990, por conta do romance Versos Satânicos (1988), no qual condena o Islamismo por perseguir cristãos e hindus. No ano seguinte à publicação, o aiatolá Ruhollah Khomeini emitiu uma fatwa contra o escritor – uma espécie de pronunciamento, em que se dá uma sentença. Por fomentar o abandono da fé islâmica, seu crime deveria ser punido com a morte.

O autor passa a viver no anonimato. Usa codinomes, é escoltado pela polícia todos os dias, muda de casa frequentemente. Mas isso não o impede de lançar um novo livro, aparentemente despretensioso. Em 1990, Haroun e o Mar de Histórias chega às lojas. Trazendo uma fantasia leve, o romance foi classificado à época como literatura juvenil; uma obra para apaziguar os ânimos. Mas era mais do que isso. Em entrevistas posteriores à publicação, o autor explicou que o livro foi uma solução para explicar para seu filho o que é liberdade de expressão, e porque ele se via privado dela.

O romance traz a história de Rashid, contador de histórias profissional e poço inesgotável de ideias. Ele é contratado para entreter as pessoas de cidades distantes e é famoso por nunca repetir um caso. Em casa, acredita ser o orgulho da esposa, Soraya, e do único filho, Haroun. A família parece viver feliz e unida, até que a mulher foge com um vizinho. No bilhete de despedida, ela diz que Rashid não vive a realidade e que seu amante “não tem imaginação absolutamente nenhuma, e isso está muito bem”.

Pai e filho, agora sozinhos, tentam se superar do choque. Uma grande apresentação, programada para dali a poucos dias, parece ser o necessário para animar os dois. Mas o impensável acontece: já no palco, o grande contador de histórias abre a boca e… Não sai nada. Sua mente está vazia.

Determinado a ajudar o pai a recuperar seu dom, Haroun coloca-se a procurar de onde vêm as histórias – ele acredita que, encontrando a fonte, pode fazer com que elas voltem à cabeça de Rashid. O menino descobre que toda narrativa mora no Mar de Histórias e parte em uma aventura para encontrar as palavras perdidas.

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Salman Rushdie

Com um texto fluído, simples e recheado de elementos fantásticos, Salman Rushdie cria uma jornada com criaturas falantes e reinos misteriosos. O protagonista logo se vê envolvido em uma batalha, a guerra entre as regiões Gup e Tchup – e aqui está a grande metáfora da fábula, pois o autor trata de uma luta pelo direito de expressão. Tchup é escura e fria. Seus habitantes odeiam conversas e tentam envenenar o oceano para acabar com elas de vez. Tchup é a repressão. Já Gup é um lugar “cheio de burburinho e tagarelice” e quem mora lá ama e defende o Mar de Histórias. É a liberdade de expressão.

Vale dizer que o escritor usa sua narrativa não só para discutir esses conceitos, como também para repensar a própria situação. Ele é Rashid, impedido de falar, mas também é Haroun, quando se vê no meio do que ele chama de “guerra entre o Amor e a Morte” e começa a ponderar sobre como o que parecia ser uma grande aventura virou algo tão perigoso.

No entanto, apesar das ameaças, Haroun enfrentará seu destino disposto e resignado a aprender:

A coisa não é assim tão simples”, pensou consigo, pois a dança do Guerreiro da Sombra mostrou-lhe que o silêncio também tinha sua graça e beleza […] e que a Ação podia ser tão nobre como as Palavras.

Ele tenta compreender o que o assusta, em vez de simplesmente fugir, e segue firme no propósito de salvar seu pai, disposto a ir até o fim, encarar a guerra e chegar ao Mar de Histórias.

Em 2007, Salman Rushdie foi condecorado pela rainha Elizabeth II com a honraria de “Cavaleiro Celibatário” – que, apesar do que o nome sugere, não é ligada ao celibato. Trata-se de uma honra concedida a homens de dignidade excepcional. A condecoração causou novos protestos no mundo islâmico, o que trouxe renovada atenção aos títulos Versos Satânicos e Haroun e o Mar de Histórias. Em 2012, o escritor lançou um livro de memórias sob o pseudônimo de Joseph Anton, no qual conta sobre sua vida clandestina. Treze anos depois da sentença de morte que recebeu, Rushdie foi considerado um alvo não imediato pelo governo britânico, passando a levar uma vida quase normal. No entanto, a fatwa contra ele permanece ativa.