“Não existe o fazer literário sem a sedução da linguagem”, entrevista com Alex Sens

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Sens constrói uma prosa poética disposta a diminuir a velocidade do tempo, fazendo com que o leitor contemple cada detalhe da atmosfera imersa e caótica de sua trama de perfil psicológico.

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Alex Sens, autor de “O Toque Frágil dos Mutilados”

Alex Sens é escritor, nascido em Florianópolis, Santa Catarina, e radicado em Minas Geais. Em 2012 foi laureado com o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro, onde ganhou uma bolsa no valor de quarenta e dois mil reais, para finalizar o seu primeiro romance, O Toque Frágil dos Mutilados, publicado pela editora Autêntica.

Em sua grande estreia na literatura, nos deparamos com personagens densos, que, pouco a pouco, dirigem o leitor para dentro de seus abismos interiores. Sens constrói uma prosa poética disposta a diminuir a velocidade do tempo, fazendo com que o leitor contemple cada detalhe da atmosfera imersa e caótica de sua trama de perfil psicológico. De fato, os recursos estilísticos utilizados pelo escritor mostram-se distintos da grande maioria de seus contemporâneos. É notória a influência que a literatura inglesa do início do século 20 perscruta sobre o seu romance.

O livro deflagra com o espectro da tragédia, que rumina sobre os trilhos existenciais de um núcleo familiar, durante uma temporada em uma casa de veraneio, no litoral sulista. Ao confrontar-se com os seus segredos e reminiscências, tais integrantes desta família são expostos, cada um, às inevitáveis incongruências e complexidades que circundam suas vidas.

Em entrevista exclusiva ao Homo Literatus, Alex Sens fala sobre o seu processo criativo, o prêmio literário, suas influências e o papel das novas tecnologias na divulgação do trabalho dos escritores.

 

Homo Literatus: Como surge a primeira tônica de O Frágil Toque dos Mutilados?

Alex Sens: A primeira tônica do romance surge de uma necessidade de escrever sobre a família. Como a maioria dos escritores, tanto clássicos quanto contemporâneos, tenho um fascínio, não só criativo, mas também curioso, pelo drama. É uma forma literária necessária em muitos gêneros artísticos porque com ela desvendamos e ao mesmo tempo ocultamos tudo o que é bonito e terrível da vida humana. No caso de O Frágil Toque dos Mutilados, trata-se de um reencontro entre três irmãos e como o tempo das coisas não ditas e as angústias veladas podem ser decisivos na corrosão dos alicerces de uma estrutura familiar.

H.L.: Seu primeiro romance ganhou o Prêmio Minas Gerais de Literatura. Pode contar a experiência de estrear chancelado por um grande prêmio literário? E, além disso, como foi escrever tendo que cumprir o prazo da bolsa adquirida através do prêmio?

A.S.: Todos sabemos do ainda complicado e capitalista caminho para entrar numa editora: é preciso ter nome ou apelo comercial. Os prêmios vêm como um rasgo de luz no meio desse breu estreito em que o mercado editorial permanece. É possível publicar um texto em qualquer formato hoje em dia da forma mais rápida e simples? Sim, é possível, mas fazer parte de um bom grupo editorial, com boa distribuição do seu trabalho e que dê suporte a ele ainda é raro quando você é um autor estreante. Estrear com um prêmio foi certeiro para mim: tive motivação para escrever, pude conhecer a Marianna Teixeira Soares, generosa e competente agente literária do Rio de Janeiro que fechou meu contrato com o generoso Grupo Editorial Autêntica. Sem o prêmio, talvez essa entrevista não estivesse acontecendo e eu não teria conhecido tantas pessoas maravilhosas que fazem parte da minha vida desde então; nem teria tido (tão cedo) as leituras da querida Márcia Tiburi, que assina a apresentação do livro, e do Jaime Prado Gouvêa, que escreveu a orelha. No início, escrever com prazo foi um pouco assustador, mas me deu um senso profundo e sólido de organização. A liberdade criativa é sempre mais saudável, dá frutos mais doces, mas acho que, de certa forma, eu gosto de escrever sob pressão, senão procrastino. Só a consciência do prêmio, o dinheiro envolvido e a minha própria ansiedade já me ajudaram bastante a me organizar e trabalhar com afinco, às vezes seis, oito horas por dia. O prazo por si só foi o fogo que fez arder tudo isso.

H.L.: Temas como borderline, alcoolismo, homossexualidade e suicídio são apresentados em O Toque Frágil dos Mutilados, através dos conflitos existenciais que vão emergindo entre um núcleo familiar, que se reúne em uma casa de veraneio. Pode contar um pouco sobre a escolha das temáticas? Houve algum tipo de pesquisa durante o seu processo criativo? Como Magnólia, uma das personagens-centrais de seu livro, passa a existir na mente do escritor?

A.S.: Tratando-se de uma família e tentando explorar ao máximo os vícios e as fraquezas e a psicologia humana, eu tinha de andar nesse caminho perigoso, quase “pisando em ovos”, como se diz daqueles que convivem com pessoas que possuem o transtorno de personalidade abordado no livro. Assisti a um filme cuja protagonista pode ser uma borderline e os traços psicológicos dela sempre me fascinaram, por serem tão complexos. Gosto de desafios na literatura, porque sem eles, ela fica rasa; sem o embate com o desconhecido, a arte não se move, está morta. Eu queria um livro que pulsasse. Então temos o transtorno da Magnólia, o alcoolismo através de Orlando, seu irmão, criando um pouco mais de caos uma vez que ela é enóloga; e a homossexualidade e suicídio como extensões de personagens secundários — porque me identifico com os temas e sou fascinado por eles, pessoal e criativamente. Essas temáticas, quando unidas, se atritam, então as possibilidades criativas são maiores e requerem mais de mim, não foi à toa que inseri no romance dois garotos muito novos descobrindo atração e afeto um pelo outro. Fiz pesquisas sobre enologia, borderline, alcoolismo e vegetarianismo com amigos e profissionais, livros e matérias de revistas por quase quatro anos, e ainda assim não acho que foi o bastante. Eu poderia ter escrito um livro maior, mais completo, mas ele teria mil páginas. Então veio a ideia de fragmentar a história, criar uma saga familiar de três livros, e aumentar os dramas com o gradual envelhecimento dos personagens. A principal, Magnólia, surgiu como um experimento. Eu queria entender melhor uma pessoa com o transtorno, então tinha de criar uma, assim como pretendo escrever em breve sobre um autista, para entender, para tocar esse desconhecido que a arte torna conhecido, ou pelo menos mais palpável, mais próximo. Além disso, personagens sem problemas emocionais ou mentais são entediantes, e Magnólia é quase uma homenagem às personagens que fazem a verdadeira literatura sangrar.

H.L.: O personagem Herbert, o marido de Magnólia, é um intelectual que está tentando escrever um ensaio sobre o romance As Ondas, de Virginia Woolf. Alguns nomes das personagens de “O Frágil Toque dos Mutilados” e a própria introspecção da narrativa remetem muito à obra da escritora inglesa citada, quando não ao cinema de Ingmar Bergman. Gostaria de saber sobre as suas influências literárias. Sei que o escritor possui uma forte ligação com as obras de Woolf.

A.S.: Tenho uma relação intracardíaca, ou anímica, se preferir, com Virginia Woolf. Sua história de vida, sua doença, sua prosa poética, a força que ela colocou no modernismo inglês e mundial com sua escrita, a luta pelos direitos das mulheres e a postura feminista, seu fim trágico, tudo isso sempre me fascinou, desde o instante em que li seus contos e depois seus romances. O Frágil é todo narrado numa costa litorânea, porque como Woolf, sou apaixonado pela água, pelo mar, me identifico com essa paisagem meio melancólica, perigosa e misteriosa. Sobre Bergman, não conheço toda a obra do diretor, mas já fui chamado numa entrevista de “jovem Bergman”, o que me deixou envergonhado e ao mesmo tempo honrado, porque sou um admirador contumaz do cinema e vejo meu romance como um filme. Quando escrevo, eu sempre vejo um filme, com trilha sonora, fotografia, posicionamento das câmeras, figurino, tudo, o que torna esse trabalho muito mais prazeroso pelo poder imagético que ele proporciona. Se eu não consigo ver a ficção, ela não existe. É preciso ver além da palavra para que ela tenha um corpo e que com esse corpo ela me seduza. Não existe o fazer literário sem a sedução da linguagem.

H.L.: Temos vivido uma época em que os escritores têm mostrado serviço para além da própria escrita. Blogs, redes sociais e vídeos no youtube têm se tornado uma constante em suas rotinas, além dos convites em festivais literários, oficinas e programas de TV. O que você acha de tudo isso? Até que ponto as novas tecnologias podem influenciar de forma positiva e negativa na carreira de um escritor?

A.S.: Certamente, essa época de desmembramento do trabalho literário nas mídias a fim de uma maior propaganda, de um alcance melhor, é mais presente num país que pouco lê. Os leitores têm crescido no Brasil, isso é inquestionável e inegável, mas ainda é preciso um trabalho intenso e extenso de enfatizar os benefícios da leitura, de fazer com que os mais novos se interessem e que cresçam como leitores contumazes. Os festivais literários, os programas culturais de TV e toda espécie de fomento à leitura e à própria arte também existem em países desenvolvidos da América do Norte e Europa, isso também é certo, mas lá o esforço não precisa ser hercúleo, a leitura já é uma tradição, os prêmios não são fertilizantes de egos, mas reconhecimentos de um trabalho que merece toda a atenção e todo o valor. Sempre. Acredito que as plataformas midiáticas, sejam elas quais forem, servem tanto para o bem quanto para o mal. Há quem se aproveite do espaço conquistado para criticar com bom senso, para atrair novos leitores e continuar colocando óleo nas engrenagens do mercado editorial, o que é maravilhoso. Mas há outra parte a que falta desconfiômetro, ou a qual sobra uma espécie de pretensão que é falha, fazendo da leitura um hábito elitizado. Pode ser que seja, dependendo do prisma pelo qual se vê o público, seus hábitos e gostos, mas a leitura precisa de democratização, e não pode ser usada como instrumento de separação de massas, ou de briga de egos. Para o escritor, as tecnologias e o retorno dos leitores, da crítica, enfim, de quem o mantém “na vitrine”, sempre serão úteis, mas também renováveis, no sentido de que uma coisa dita ou escrita nunca será permanente, há sempre um novo olhar, uma nova interpretação, portanto válida.

H.L.: A escritora Clarice Lispector costumava dizer em entrevistas que se considerava uma amadora, justamente para manter sua liberdade no ato de criar. Porém, segundo uma crítica feita pelo jornalista José Castello, no texto de estreia de sua coluna no suplemento Pernambuco, muitos escritores têm se submetido a escrever de uma forma mais palatável e correta. O que ficou subentendido ali é de que existe uma certa preocupação de muitos ficcionistas, sobretudo dos que estão começando, em não correr riscos que possam problematizá-los durante uma possível aprovação de original. Outro ponto destacado no texto do Castello é o papel do escritor brasileiro hoje dentro do mercado. Parece que vem existindo nos últimos anos um certo senso de espetacularização e performance para quem passa a fazer parte do mainstream literário. Gostaria de saber o que você pensa a respeito e se existe algum tipo de preocupação com o público durante o seu processo de produção.

A.S.: Pessoalmente, não gosto da exposição, da exploração da imagem no meio literário, “tudo pela venda!”, tudo por um autor que se faz mais personagem que pessoa. Essas coisas desgastam o próprio valor literário. Quer ser escritor? Faça a parte que lhe cabe: escrever. Não é preciso pintar os olhos, fazer performances, estampar capas de revistas e jornais como um produtor desenfreado de escândalos. Basta escrever. Gosto muito desse registro de Clarice. Quando a escrita é profissional, ela segue um determinado padrão, o autor fica preso a ele por medo de perder um público, por temor de que a editora A ou B não o aceite, e acaba se moldando conforme o mercado, conforme a demanda. Quem escreve por demanda se prostitui, e nada contra a prostituição — talvez a prostituição literária seja um catalisador para a produção, para a criação. Mas é perigoso perder a liberdade, porque a escrita vira um molde, a literatura, uma máquina, o escritor, um autômato que corresponde somente às expectativas, sem inovação, sem risco. Quando comecei a escrever, eu me preocupava muito com o que os outros pensavam. Recentemente perdi esse defeito. É essencial que aquele que cria esteja satisfeito com sua criação, mas quando ela é do mundo, ela é do mundo, não mais sua. Você pode ser o seu autor, mas a forma como ela é absorvida, interpretada e sentida não é problema seu. Se eu disser que não tenho preocupação alguma com o público, estarei mentindo. A única coisa que quero é tocá-lo de alguma forma. Quero tocar o leitor, seja dando um pouco de alegria, causando um pouco de raiva, uma centelha de esperança. Se a minha escrita causar alguma emoção, qualquer emoção, sinto que atingi a satisfação que busco depois do prazer único, primeiro e imensurável que é a escrita per se.

H.L.: Quando descobriu que queria ser um escritor?

A.S.: Entre os doze e treze anos de idade. Nessa época eu lia muito e queria também criar minhas próprias histórias. Na sétima série escrevi meu primeiro romance, um suspense sobre um garoto psicopata, que foi lido na escola para outras classes. O ato da escrita me deixava (e ainda deixa, claro) num transe absurdo. Antes de escrever eu já gostava de criar em outros formatos: atuando em peças, fazendo filmes caseiros, desenhando. O trabalho com a palavra veio depois de muita leitura porque eu finalmente havia percebido e decidido que tudo o que eu queria ler e que não saía da minha cabeça, podia ser escrito e assim minha ansiedade diminuiria um pouco. Ou não.

H.L.: O que a literatura representa em sua vida?

A.S.: O amor pulsante e eterno como o que sinto por algumas pessoas. A literatura é uma companheira para a vida toda, não só uma representação de um ofício, um meio para um fim, uma ocupação, mas um espaço quase humano, tão próximo e definitivo quanto aqueles que amo.

H.L.: Um ambiente ideal para escrever?

A.S.: Nem muito escuro nem muito claro. Silencioso, com uma cadeira confortável, arejado e que tenha dicionários por perto, dicionários de todos os tipos. Se tiver uma vista para o mar ou para as montanhas, melhor ainda.

H.L.: Algum projeto novo em vista?

A.L.: Estou esboçando a continuação de O Frágil Toque dos Mutilados, um romance maior e mais denso, também dividido em três partes e que se passa sete anos após os fatos do primeiro. Ainda é um embrião e muita coisa precisa ser definida. Paralelamente, escrevo um pequeno livro de contos longos que pretendo publicar ainda em 2016.