A Nostalgia da Infância na Poesia

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Quatro poetas falam sobre a nostalgia da infância

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A infância é um tema recorrente na literatura. Período marcante da fase de desenvolvimento humano, costuma ser retratada de maneira idealizada e nostálgica. Um dos exemplos mais conhecidos é o poema de Casimiro de Abreu, Meus Oito Anos.

 

Oh! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

 

Em circunstâncias normais, a infância é um período aprazível, de muitas brincadeiras e poucas responsabilidades. Por isso, quando se torna adulto, com as inevitáveis ilusões, o desejo de voltar no tempo e ao estado de felicidade inconsciente gera melancolia. É o que acontece em Aniversário, de Fernando Pessoa, ou melhor, de seu heterônimo Álvaro de Campos. Nesse poema, o eu-lírico relembra as antigas comemorações de seu aniversário. Ele costumava ser o centro das atenções, havia festa, alegria, reunião familiar. Hoje, repleto de perdas, encontra-se solitário e triste; só lhe restam as recordações como breve consolo a um presente esvaziado.

 

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

Carlos Drummond de Andrade adota um tom menos pessimista em Infância. Retorna a um dia rotineiro na vida familiar: o pai ia trabalhar, a mãe ficava em casa costurando e cuidando do filho menor, ele lia no jardim. Encantado com a história de Robinson Crusoé, o eu-lírico infantil não percebia que suas vivências eram ainda mais ricas, já que ele, ao contrário do náufrago aventureiro, possuía um lar onde era amado.

 

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusoé,
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
C
afé bom. 

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo! 

Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda. 

E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

 

João Cabral de Melo Neto, por meio de seu estilo hermético, conciso e seco, em um poema também intitulado Infância, remonta um quadro com a mistura de elementos de brincadeiras infantis.

 

Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem. 

Seriam hélices
aviões locomotivas
timidamente precocidade
balões-cativos si-bemol? 

Mas meus dez anos indiferentes
rodaram mais uma vez
nos mesmos intermináveis carrosséis.

 

Os eu-líricos de Pessoa, Drummond e João Cabral, apesar da diferença de tom (respectivamente: melancólico, lírico e seco), comentam uma infância em que não se tinha consciência da própria existência; viviam sem maiores preocupações, movidos pela imaginação e curiosidade. Fernando Pessoa contrasta drasticamente seu presente solitário e amargurado aos aniversários festivos da infância, Drummond hoje sabe que sua história é mais bonita que as aventuras que o fascinavam quando menino, João Cabral transforma tudo em um processo cíclico, como se os antigos questionamentos ainda o intrigassem. Na maturidade, já conscientes de si mesmos, eles retomam vivências do passado, por acaso, intuição, emoções represadas, traumas ou suscitados pela leitura de textos alheios. São, enfim, recriações poéticas de uma época de formação, que nos define, nos acalenta e nos dá saudade.