O ateu e o sábio: o conto esquecido de Voltaire

O que nos ensina Voltaire? Ele defendia que a liberdade e a tolerância fariam um mundo melhor

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A figura do francês Voltaire nos remete ao grandioso escritor, ensaísta e filósofo vivificado nos pensamentos iluministas. O próprio Iluminismo está caracterizado pelo liberalismo econômico, político e religioso. Contudo, o papel de Voltaire tornou-se mais que primordial aos fatos seguintes da história. Suas convicções serviram de base para a Revolução Francesa e para a Independência dos Estados Unidos e, até hoje, sua firme ideologia de liberdade de expressão e igualdade política são sinônimos de luta contra qualquer repressão à manifestação de pensamento, seja ela em qualquer esfera da sociedade. Tamanha foi sua notoriedade que o século XVIII passou a ser chamado também de ‘Século de Voltaire’.

François Marie Aroue, o conhecido Voltaire, fazia forte apelo à usura do clero da época e à arbitrariedade dos reis. Repreendia qualquer pessoa ou instituição que justificasse a proibição da livre exposição de ideias e confrontava abertamente os detentores do poder medieval. Por acreditar no despotismo esclarecido, ou seja, no uso dos ideais iluministas para a governança, serviu de conselheiro a alguns principados, sendo o mais conhecido o do rei Frederico II, da Prússia.

Contudo, Voltaire não era ateu. Era deísta assumido. Defendia a existência de Deus e da sua necessidade como criador do freio moral humano. Não acreditava em milagres, mas reconhecia as providências gerais, como a luz do sol que todos contemplam e a natureza que nos serve de provimento.

É fundamental considerar que essas acepções foram e ainda são debatidas por inúmeros filósofos e que a verdade absoluta também é negada por Voltaire. Entretanto, para a época, e em outras dezenas de situações atuais, seu conjunto filosófico é extremamente válido.

 

O esquecimento do conto

Toda a sua filosofia foi dissertada em mais de cinquenta obras e incontáveis textos. Dos mais conhecidos, citamos: Cândido, ou O Otimismo; Cartas Filosóficas; Dicionário Filosófico e Édipo. Aos 81 anos, três antes de sua morte, publicou o conto ‘O Ateu e o Sábio’, na tentativa de esclarecer que não era nenhum beato, mesmo debatendo tanto os assuntos religiosos.

O desafio nessa obra é o de avaliar nas relações dos personagens os aspectos morais da sociedade de crenças enquanto a fé vai se tornando essencial para o próprio convívio.

A História de Jenni, como também é conhecido o conto “O Ateu e o Sábio”, é a concretude de uma religião racional e da tolerância entre elas.

Mas quem é que conhece esta produção? Ela é tão esquecida nos tempos modernos que para a encontrarmos atualmente é necessário buscar em acervos digitais. Uma última tiragem foi feita no Brasil pela Editora Escala em 2006 na coleção ‘Grandes Obras do Pensamento Universal’, carregando o número 49. O preço do livro era representativo: R$10,00 quando ainda distribuído e R$3,00 em promoções.  É desnecessário apresentar o valor em sebos.

Talvez a reposta para o desconhecimento seja a de que de toda a incrível produção de Voltaire, essa seja a mais ‘simplória’ no assunto da filosofia da religião e que não se encaixa no banco de obras que se tornariam best-sellers no mercado editorial moderno. Já na época da publicação, surtiu grande efeito com seu conteúdo. De toda forma, façamos uma análise do que é apresentando no texto de “O Ateu e o Sábio”.

 

“O ateu e o sábio” 

Resumidamente, a história é o relato do jovem Jenni, sua declinação de fé até sua volta à convicção divina; de seu pai, o sábio Freind, que debaterá na maior parte da narração com Birton, um ateu convicto influenciador dos devaneios de Jenni; e das aventuras vividas por eles. Ainda como personagens secundários e de imensa importância está o milorde Peterborou, o Bacharel, a Sra. Clive-Hart e a Srta. Primerose.

Num primeiro instante, o narrador-personagem expõe o desejo que alguém tem de conhecer a história de Jenni. Este era um jovem de nem vinte anos, atraente e amável.

O primeiro conflito, então, se desenrola quando Jenni vai lutar em Mont-Jouy e é feito prisioneiro. Do que se passou nesse período de cárcere, saberemos pelo relato de uma catalã chamada Las Nalgas.

Voltaire, de modo simplista, joga suas primeiras impressões sobre a fé. Enquanto isso, Jenni nega-se a seguir a carreira eclesiástica e tem seu primeiro envolvimento amoroso concupiscente. Boca Bermeja, sua amante, é a mulher do padre dom Caracucarador. Essas são as primeiras evidências da fragmentação da moral do jovem e também da própria Igreja.

O padre dom, quando descobre a relação, condena Jenni à fogueira. Por sorte, estando o rapaz prostrado na praça para a execução, a cidade de Barcelona é tomada pelas tropas de Peterborou e o acusado é solto.

Aqui Voltaire encarna no respeitável Freind para nos ensinar da tolerância. Quando dom Jerónimo Bueno Caracucarador se vê acuado pelas tropas inglesas, justifica a condenação de Jenni ao fato de ter achado que ele fosse judeu. O sábio explica porque a condenação fora injusta e como é sórdido condenar alguém por classe, casta ou religião. Não há raças superiores e inferiores, esclarece. E se qualquer que seja venha a cometer crimes, as penas devem ser proporcionais aos delitos.

Essas reflexões nos remetem aos noticiários atuais repletos de informes sobre guerras em nome de Deus (Guerra Santa) e formas fanáticas de fé inibindo outras. Há ainda a interferência religiosa nas decisões do Estado e os atos constantes de discriminação.

Freind também é o modelo ideal de progenitor religioso. Quando vê o filho fazendo o que não lhe agrada, o protege com amor como forma de repreensão. O narrador explica a preocupação que o pai tem com o filho em todas as passagens da história em que Jenni põe-se em risco por atitudes mal pensadas:

“Deveriam ter visto esse pai, que conheceram tão grave e tão imperturbável, voar até o antro da Inquisição mais depressa que nossos cavalos de raça correm até Newmarket. Cinquenta soldados, que o seguiam sem fôlego, estavam sempre a duzentos passos dele. Finalmente chega e entra na caverna.

Que momento! Que prantos e que alegria!”.

Mais à frente, vislumbramos o debate com o Bacharel, um formando da Universidade de Salamanca. O Bacharel representa os alienados pelas doutrinas religiosas que permitem que argumentos pré-estabelecidos sejam dados como absolutos. Freind ensina que o religioso deve usar da razão para aprender de seus dogmas e costumes (o Evangelho Cristão é o exemplo citado na história). As justificativas para qualquer decisão (religiosa ou não) devem advir de um raciocínio próprio anterior.

Então o Bacharel reconhece a sabedoria de Freind:

“Esse inglês, que eu de início achava que fosse antropófago, deve ser um excelente homem, pois é teólogo e não proferiu injúrias contra mim”.

Do intervalo até o segundo grande diálogo do livro, hão de ocorrer mais peripécias de Jenni, bem como outros ensinamentos de Freind: da guerra, da paixão, da covardia, do crime, da amizade, etc.

Desse modo, vem o diálogo com Birton. Trata-se do questionamento perpétuo sobre a existência de Deus e da participação dele em nossas vidas. O que há de se observar nesse debate, além dos argumentos pró ou contra a essência de Deus, é como se dá a discussão em si: a calmaria, a boa retórica, a argumentação pautada em fatos e o respeito mútuo. É mesmo de se querer comparar com os debates religiosos modernos, principalmente quando em polos tão extremos. Existe gentileza entre crentes e não crentes? De que forma podemos nos aprimorar no sentido de discutirmos questões sem atacar os oradores?

Pois Freind é o modelo ideal nas discussões. Sabia desenvolver tão bem suas falas que mesmo aqueles que não as tinham como verdades, o admiravam.

“Eu gostaria, meu caro amigo, que tivesse visto o efeito que produziram as palavras de Freind sobre todos os ingleses e todos os americanos”.         



Já no desfecho, Birton e Jenni se convertem às ideologias de Freind. Não pela força e insistência aplicada, mas pelo cuidado e a argumentação estritamente disposta. No fundo, a permanência dos debates e dos questionamentos valem mais do que as conversões advindas disso. Por isso, Evelyn Hall, analisando Voltaire, criou a assertiva: “Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de continuá-lo dizendo”.

 

Considerações finais

Voltaire foi brilhante e seus preceitos ainda respingam sobre nossa sociedade. Independentemente da crença que se tem ou dos segmentos de convicção, “O Ateu e o Sábio” deixa um aprendizado maior do que se espera para a indagação religiosa: ela demonstra o quanto somos humanos e o quanto devemos agir como tal.

Mesmo sendo a obra de pouca importância para o mercado editorial, opondo-se à cultura dos best-sellers, ela é daquelas leituras essenciais na vida. Em formato simples e introdutório para trabalhos mais aprofundados acerca da filosofia e poesia de Voltaire, o livro é recomendado àqueles que querem se envolver e embarcar com Cândido e Cartas Filosóficas.

É que esta obra mostra como deve se portar um religioso e quais os valores ideais de um: alguém repleto de tolerância e escasso de fanatismo. Voltaire também faz citações de outros iluministas da época, tais como Espinoza, Locke e Hobbes.

Além do conteúdo teórico, o leitor se encantará com as tantas aventuras dispostas no conto: disputas de território, debates no parlamento, acertos de conta com a monarquia, uma curiosa viagem da Europa à América, o encontro com tribos nativas, apuros em ritos canibalescos e romances clássicos. Quanto ao tempo de leitura, dizemos que é rápido, e quanto ao custo-benefício: imensurável.

Se a obra é tão profunda, é porque Voltaire havia vivido o suficiente para tomar partido numa questão tão polêmica. De qualquer forma, ele não partiu antes de deixar seu recado: liberdade e tolerância para um mundo melhor!

Ana Carolina Memóriahttp://www.noahehadassa.blogspot.com
Estudante de Direito pela UNIR e amante de Ciência Política. Lê para escrever, escreve para viver, vive por ler. Prefere Bernard Manin, Rudholph Von Iherin, Stanley Kubrick e Graciliano Ramos. Contista no blog Noah e Hadassa (https://noahehadassa.blogspot.com). E não, minha memória não é tão boa assim.
Ana Carolina Memóriahttp://www.noahehadassa.blogspot.com
Estudante de Direito pela UNIR e amante de Ciência Política. Lê para escrever, escreve para viver, vive por ler. Prefere Bernard Manin, Rudholph Von Iherin, Stanley Kubrick e Graciliano Ramos. Contista no blog Noah e Hadassa (https://noahehadassa.blogspot.com). E não, minha memória não é tão boa assim.
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