Príncipes esmagados e fantasmas no escuro: O Castelo de Otranto, primeiro romance gótico

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Em 1764, o excêntrico conde inglês, Horace Walpole, publicava o que seria o primeiro romance da Literatura Gótica. Conheça O Castelo de Otranto

Horace Walpole
Horace Walpole (1717 – 97), por Rosalba Carriera.

A primeira cena d’O Castelo de Otranto já professa o seu sucesso: no dia do casamento do único filho do autoritário príncipe Manfredo, um gigantesco elmo cai no pátio do castelo, esmagando o noivo. O absurdo da situação mal parece ter saído da pena de um aristocrático senhor de 47 anos, no auge do século XVIII, que fizera parte do Parlamento, sendo o filho de um ex-primeiro-ministro, e muito menos do pomposo Onuphrio Muralto, “cônego da Igreja de São Nicolas em Otranto”, nome fictício com o qual foi assinada a primeira versão. É apenas disfarçado, no entanto, que Horace Walpole consegue publicar o que classificou como uma tentativa de unir os gêneros de romance antigo e moderno: o antigo, no qual imperava a fantasia e a imaginação; e o moderno, no qual se buscava reproduzir a natureza com realismo. Em meio ao ambiente sombrio de uma Idade Média idealizada, os personagens de Walpole reagem às situações inusitadas com a estranheza de pessoas reais. Apesar de não haver qualquer densidade psicológica na recatada Matilde, na sonhadora Isabel ou na benevolente Hipólita, em Manfredo se vê a loucura acumular-se gradativamente, de modo que sua própria imprevisibilidade se torna um elemento de terror na trama, recheada de visões fantasmagóricas e reviravoltas dramáticas. Certo de que falharia, Walpole viu seu romance causar um estrondo na audiência inglesa, geralmente contida e racional, tal como o elmo, extraordinário e inesperado, sob o pátio do castelo de Otranto.

A premissa da história é simples, mas isso não a torna nem de longe menos complexa: há uma antiga profecia que diz que o castelo de Otranto e as possessões de Otranto viriam a faltar à presente família que as possuía, logo que o verdadeiro dono se tornasse muito “volumoso” para ali morar. O casamento de Conrado, o doentio filho de Manfredo, é organizado às pressas pelas ânsias do pai em escapar de tal enigmática maldição. Com os eventos extraordinários que o impedem, no entanto, a trama se intensifica: tomado pela loucura, Manfredo faz um prisioneiro entre o povo que observava a sua tragédia, prendendo-o sob o elmo, e determina-se a casar com a noiva do filho, Isabel. Daí em diante há ação o tempo todo; fugas, desentendimentos e paternidades questionadas; mortes, visões inexplicáveis e paixões ancestrais; lamentos, brados e até piadas. Há espaço para tudo nas linhas de Walpole, e ele tem um cuidado cirúrgico ao distribuir as emoções de cada acontecimento, descontraindo numa pausa cômica com os criados, criando expectativa para a continuidade dos mistérios, alterando os núcleos de personagens de forma a manter o leitor sempre ansioso, desconfortável, na sua própria normalidade, com o bizarro dos infortúnios de Otranto. Se há uma formalidade esquisita no estilo de Walpole, não é de estranhar: admirador de Shakespeare, ele chega a citá-lo exaustivamente no prefácio que faz à segunda edição da obra, na qual revelou-se como autor verdadeiro e defendeu-se das críticas ao humor com que pontuava diversas cenas. Foi nessa edição, também, que o autor adicionou o subtítulo “A Gothic Story” (“Uma História Gótica”) à obra, nomeando toda uma geração de escritos baseados no seu estilo.

Illustration from 'The Castle of Otranto', by Horace Walpole, 1765 (engraving)
Ilustração de “O Castelo de Otranto”, por Horace Walpole, 1765 (gravura).

O Castelo de Otranto é, portanto, considerado o primeiro livro do que ficou conhecido como literatura gótica. O termo “gótico” vem da Idade Média, referindo-se aos Godos, povo germânico considerado bárbaro. Foi usado, contudo, como uma maneira pejorativa de classificar a arquitetura da época, que rompia com o estilo românico em voga. Ao resgatar a palavra para o seu romance medieval, Walpole criou um novo conceito para o termo; as temáticas proféticas, fantasmagóricas e macabras voltariam a surgir sob diferentes penas ao longo das décadas seguintes, atingindo o seu ápice em grandes obras do Romantismo como Frankenstein, Drácula, O Médico e o Monstro, nos escritos de Byron e nos contos de Allan Poe.

Horace Walpole também era um tanto excêntrico; fascinado pela Idade Média, ele mantinha um castelo de arquitetura neogótica chamado Strawberry Hill, onde colecionava antigas obras de arte e mantinha a própria imprensa. Em conflito com o pensamento da época, em que a ciência oprimia as velhas crenças espirituais, reuniu timidamente na grande obra de sua vida as agonias de uma geração atormentada pela razão e ansiosa pelo além fantasioso, dando combustível para o Romantismo europeu quando ele ainda não se consolidara.