O conflito religioso em “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes

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Em O Pagador de Promessas, Alfredo Dias Gomes faz uma crítica contundente à realidade social brasileira. Através de seus personagens, o escritor ilustra cada segmento de nossa sociedade: a igreja, a política, a imprensa, o comércio. Aqui, porém, a ideia é falar sobre o conflito central desta história: a questão religiosa.

No texto teatral de Dias Gomes, o enfrentamento religioso ocorre entre Zé –do- Burro e Padre Olavo. O primeiro representa o homem de fé, devoto; o segundo representa a igreja católica, a religião oficializada. O conflito de fé entre os dois resume-se no fato de Zé do- Burro não corresponder às expectativas do que a igreja espera de seus fiéis.

Para um entendimento mais demarcador da questão, é preciso que tenhamos um conhecimento de nossa formação como país. Voltando aos primórdios de nossa história, veremos que tanto Zé –do- Burro quanto Padre Olavo apresentam-se como “produtos” de uma colonização portuguesa que sofre influências de outras culturas (Sérgio Buarque de Holanda).

A partir do momento que os portugueses colonizam o Brasil, o catolicismo torna-se a religião oficial. A religião católica ganhará mais força com os padres jesuítas (portugueses e espanhóis) que vêm catequizar os índios e a população. Ao mesmo tempo, começamos sofrer a influência dos cultos africanos advindos dos negros escravizados em solos brasileiros. Ao passo que a religião católica preocupa-se em catequizar a população, os negros fazem o movimento de autopreservação de sua religiosidade: praticam às escondidas sua fé, como maneira de conquistar a liberdade e também como forma de conservar sua cultura.

É preciso lembrar que o discurso católico, na maioria das vezes, era de difícil compreensão, logo muitas pessoas da sociedade não encontravam identificação com esse culto. Essas pessoas acabavam buscando formas de vivenciar sua fé de maneira mais popular e participante, recorrendo, muitas vezes, à prática do candomblé.

Essa tendência, com o passar dos anos, vai ganhando maiores proporções, principalmente em lugares de grande concentração de população negra. No texto de Dias Gomes, esse lugar chama-se Bahia. Isso fica bem ilustrado no seguinte diálogo entre Zé- do- Burro e Padre Olavo:

 Zé- Foi então que comadre Miúda me lembrou: porque eu não ia no candomblé de Maria Iansan?
Padre- Candomblé?
Zé- Sim, é um candomblé que tem duas léguas adiante da minha roça. Eu sei que seu vigário vai ralhar comigo. Eu também nunca fui muito de frequentar terreiro de candomblé. Mas o pobre Nicolau estava morrendo… Contei para a Mãe-de-Santo o meu caso. Ela disse que era mesmo com Iansan, dona dos raios e das trovoadas… Por ela eu devia fazer uma obrigação, quer dizer: uma promessa. E eu me lembrei então que Iansan é Santa Bárbara e prometi que se Nicolau ficasse bom eu carregava uma cruz de madeira de minha roça até a igreja dela, no dia de sua festa, uma cruz pesada como a de Cristo.
Padre- Tão pesada como a de Cristo. O senhor prometeu isso a …
Zé- Santa Bárbara.
Padre- A Iansan!
(páginas 37/38)

Em sua fé inocente de caráter sentimental, o personagem faz promessa a Santa Bárbara em um terreiro, pois na capela da roça não havia uma imagem da santa. Essa fé, ligada à simbologia da imagem, é outra característica histórica de nossa formação. Em nosso país ocorreu uma necessidade de aproximação entre o divino e o povo . No capítulo O Homem Cordial do livro Raízes do Brasil lemos:

Surge um sentimento religioso mais humano e singelo. Cada casa quer ter sua própria capela, onde os moradores se ajoelham ante o padroeiro protetor. Cristo. Nossa Senhora e os santos já não aparecem como entes privilegiados e eximidos de qualquer sentimento humano.

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José Mayer interpretando Zé-do-Burro na minissérie inspirada na peça de Dias Gomes

 Assim, Zé- do -Burro representa muitos fiéis que têm uma relação com santos e imagens, dando a impressão de uma proximidade com Deus. Em O Pagador de Promessas, no entanto, a premissa está além disso. Zé –do- Burro não representa apenas o homem de fé, tal personagem simboliza também o que chamamos de sincretismo religioso. Esse homem é a personificação da fé católica misturada com elementos do culto africano, enquanto Padre Olavo é o representante rígido da igreja, lembrando os clérigos dos tempos palacianos que tornavam Deus um ente inatingível.

Em nome da fé “verdadeira”, Padre Olavo tenta impedir que Zé- do- Burro cumpra sua promessa. Arma-se um tumulto na praça da cidade, em frente às escadarias da igreja de Santa Bárbara. Nessa movimentação, vários personagens aparecem, entre eles se destaca Minha Tia, figurando o candomblé.

Com isso, é possível dizer, portanto, que Dias Gomes expõe a fé em três níveis. O catolicismo rígido, o sincretismo e o candomblé. Se pela fé católica de Padre Olavo, Zé não encontra a acolhida esperada, é justamente no candomblé, sobre o olhar de Minha Tia, que o devoto encontra a tolerância:

Minha Tia- Meu filho, eu sou ‘Ekédi’ no candomblé da Menininha. Mais logo o terreiro está em festa. Você fez obrigação pra Iansan, Iansan está lá pra receber!
Zé- Como?
Minha Tia- Eu levo você lá! Você leva a cruz e a santa recebe! Você fica em paz com ela!
Zé- Iansan…
Minha Tia- Foi ela quem lhe atendeu!…
Zé- Não. Não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa.
(página 59).

 Ao contrário da igreja católica, Minha Tia simboliza a acolhida do candomblé a um homem que pretende pagar sua promessa. O candomblé surge como um culto que não vê nenhuma incompatibilidade entre ideologias religiosas. O culto afro-brasileiro desperta no texto como uma religião que tolera as diferenças. A proposta só não é aceita por Zé-do-Burro por um simples motivo: além de homem de fé, Zé-do-Burro é um homem de palavra.

Com a intenção de cumprir sua promessa, o devoto é interpretado erroneamente pelas pessoas que acompanham sua angústia. Uns acreditam que Zé queira tornar-se um messias; outros acreditam que ele seja um agitador almejando um cargo político; enquanto outros creem que Zé-do-Burro seja um comunista que queira insuflar a ideia da reforma agrária.

Todos esses elementos significam um risco para o meio social. Tanto a igreja quanto o estado temem qualquer coisa ou pessoa que possa “desestabilizar” o  andamento padrão da sociedade. Sabemos que a igreja e o estado mantêm uma boa relação. O estado brasileiro acredita que a igreja católica seja uma força de apoio para a conservação da ordem constituída. Sendo assim, Padre Olavo não defende apenas a questão religiosa, defende também os interesses políticos do estado. Segundo o sociólogo Thales de Azevedo:

O prestígio da igreja católica, sua hegemonia religiosa e ética, seus privilégios e imunidades – heranças do tempo da união com o estado – são amparados pelo último em compensação pelo apoio moral que procura nas instituições eclesiais; essa interdependência consolidou-se nos últimos cinqüenta anos, e parece que, ameaçada embora por desconfianças correntes, está longe de romper-se. O estado ainda hoje pretende disciplinar, corrigir e orientar a igreja e sua hierarquia, quando estas lhe parecem dissociadas da ideologia social e política oficial.

Em O Pagador de Promessas, a ordem do estado é representada por Secreta e o Delegado, que não se interessam em ouvir as explicações do devoto. Para eles, Zé é um agitador que está perturbando a ordem da sociedade. Lê-se:

 Delegado- O Padre disse que ele ameaçou invadir a igreja. Pediu garantias.
Secreta- Eu mesmo ouvi ele dizer que ia jogar uma bomba. Todo mundo aqui é testemunha!…
Delegado- Se ele reagir, pior pra ele. Não estou disposto a perder tempo e conheço de sobra esses tipos. Só se entregam mesmo é à bala.
( página 95)

Percebemos nessa passagem como os interesses da igreja, assim como os do estado, ainda são comuns um ao outro. Em uma sociedade corrompida, onde até mesmo a igreja compactua com o estado em prol de interesses próprios, torna-se impossível visualizar a presença de um homem simples, sem interesses, um homem que pretende apenas pagar uma promessa. Dias Gomes mostra como todos nós estamos “contaminados” pela ideia de que em tudo há uma segunda intenção.

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Peça encenada pelo grupo Escalet

Zé-do-Burro, no decorrer de sua trajetória, percebe que é vítima de uma sociedade que pensa apenas em suas próprias  benesses. O personagem passa por aquela etapa que, na Poética de Aristóteles, chama-se reconhecimento: “passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para a amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou para a desdita”.

Assim, nosso personagem tem como destino a desdita, reconhece os fatos tarde demais. Não encontra em Padre Olavo a amizade, mas sim a inimizade. Por sua vez, Padre Olavo configura o homem religioso que não cumpre o seu papel, o padre iguala-se àqueles que acreditam que as pessoas agem de má fé. Se analisarmos criticamente, o padre não “interrompe” o homem somente por que ele se envolveu em “cultos fetichistas”, o padre está barrando um homem que, supostamente, possa representar um perigo às regras pré-estabelecidas da sociedade.

Toda essa intolerância atinge seu ápice com um fim trágico, aquilo que Aristóteles define como catástrofe. “A catástrofe é uma ação perniciosa e dolorosa, como são as mortes em cena, as dores veementes, os ferimentos e mais casos semelhantes”. Em O Pagador de Promessas, a morte de Zé-do-Burro ocorre assim:

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 Fica apenas Zé-do-Burro no meio da praça, com as mãos sobre o ventre. Ele dá ainda um passo em direção à igreja e cai morto…
Padre- Virgem Santíssima!
Delegado- Vamos buscar reforço.
O padre desce os degraus da igreja, em direção do corpo de Zé-do-Burro.
Rosa- Não chegue perto!
Padre- Queria encomendar a alma dele…
Rosa- Encomendar a quem? Ao demônio?
(página 97)

O homem consegue cumprir sua promessa depois de morto. Os capoeiras carregam-no sobre a cruz para o interior da igreja. Padre Olavo, consciente de sua intransigência, retira-se. No fim, como elemento altamente significativo, Iansan manifesta-se através de uma trovoada.

Dias Gomes encerra seu texto elevando o culto africano e criticando a postura da igreja. Não é à toa que ao fim, a única personagem que permanece em cena seja Minha Tia, concluindo: “Êparrei minha mãe!”

O Pagador de Promessas
Dias Gomes
Bertrand Brasil
174 páginas