Platiplanto é todo lugar

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Os Cavalinhos de Platiplanto, livro de contos de José J. Veiga, é ousado em sua simplicidade: preciso e corajoso.

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José J. Veiga, autor de “Os cavalinhos de Platiplanto

José Jacintho Pereira Veiga nasceu em Corumbá de Goiás (um pequeno município a pouco mais de 100 quilômetros de Goiânia) em 2 de fevereiro de 1915. Sua literatura, porém, só veio a público em 1959, o que para alguns pode ser considerada uma estreia tardia. Bobagem. Assinando como José J. Veiga (por sugestão do amigo Guimarães Rosa), apresentou ao público um livro singular, maduro, sincero, um início com o pé direito. Os Cavalinhos de Platiplanto é ousado em sua simplicidade: preciso, corajoso – não busca pegar carona em modismo nenhum, nem se esforça para ser original a todo custo.

O que temos é uma reunião bastante feliz de 12 contos, todos narrados em primeira pessoa. O universo infantil é frequentemente abordado, o que faz com que alguns se apressem a rotular o livro como infanto-juvenil. Aliás, se rótulos são sempre problemáticos na literatura, muito mais o são em se tratando da obra desse goiano genial.

Se o fantástico costuma aparecer em José J. Veiga, o mesmo se pode dizer de elementos regionalistas. E aí? Como defini-lo? Seria Realismo Mágico? Este gênero costuma se caracterizar por uma narrativa objetiva e direta em que o devaneio e a introspecção pouco aparecem, mas sim acontecimentos concretos que, um tanto paradoxalmente, não trazem verossimilhança em relação ao “nosso” mundo. A denominação Realismo Mágico – que traz certo sabor de oxímoro – destaca sua diferenciação de uma literatura psicológica (a qual usualmente é posta como contraponto do Realismo). Dentro deste campo (do Realismo Fantástico, ou Mágico), podemos enquadrar o livro de contos Bestiário. do argentino Júlio Cortázar, por exemplo, com histórias fantásticas típicas, narradas num tom mais frio, impessoal (meio ao estilo Franz Kafka, poderíamos dizer). Já Os Cavalinhos de Platiplanto não é assim. No livro de Veiga, surge uma atmosfera onírica própria, onde um quê memorialista se insinua, abrindo certo espaço para introspecção, nostalgia, devaneio e exploração psicológica de personagens.

A recorrência de temas ligados ao ambiente infantil não deve afastar o leitor adulto. Não se trata simplesmente de literatura infanto-juvenil, apesar de também acessível aos mais jovens. Sonho, fantasia, imaginação estão presentes na vida humana em todas as idades – o narrador criança só facilita esse acesso de qualquer um de nós a esses campos normalmente mais permeáveis à visão infantil.

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Os cavalinhos de Platiplanto (Companhia das Letras, 2015)

O conto “Entre Irmãos” (penúltima narrativa do livro) foi incluído pelo crítico Ítalo Moriconi na coletânea Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século, lançada pela Editora Objetiva no ano 2000. Mas não se pense que o mundo das letras esperou o fim do século 20 para saudar o talento de José J. Veiga.

Os Cavalinhos de Platiplanto, logo em seu lançamento no final da década de 50, despertou a atenção da crítica e ganhou o Prêmio Fábio Prado, um dos mais disputados da época. A obra arrancou elogios de M. Cavalcanti Proença, Wilson Martins, Adonias Filho, Hélio Pólvora, Walmir Ayala, Antônio Olinto, Roberto Pontual etc.

Quem de cara apostou em José J. Veiga viu o tempo confirmar a genialidade do escritor goiano, reafirmada nos livros que veio a lançar depois, dos quais destaco o excelente romance A Hora dos Ruminantes (1966).

Fica aqui o convite para revisitarmos a obra deste magnífico escritor que nos deixou em 19 de dezembro de 1999. Com certeza, lá de Platiplanto ele nos acena agora. Tenhamos olhos para vê-lo – seus livros estão aí para isso.

 

Referências:

SCHNEIDER, Daniel; MINANI, Thiago. Literatura: Os cavalinhos de Platiplanto. Educar para crescer. Acesso ao link aqui.

VEIGA, José J. Os cavalinhos de Platiplanto. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.