Por que não escrever como se fala?

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As diferenças entre falar e escrever podem ser mais importantes do que pensamos, mesmo que não gostemos disso

Power of WordsQuem nunca ficou na dúvida sobre a ortografia de uma palavra que atire a primeira pedra. Certas vezes, de fato, é irritante ter que aprender essas diferenças de uso entre “g” e “j”, ou pior, entre “s”, “ss”, “ç”, “sc” e por aí vai. Para que tudo isso, afinal? Só para complicar a vida? Por que não se escreve como se fala?

Se a função da língua é a comunicação, não seria muito mais fácil aproximar a escrita o máximo possível da fala? Todos entendem o significado de “dirijir” ou de “kaza”, não é mesmo? Qual a necessidade de tantas regras e exceções, de tanto estudo sobre gramática, qual o sentido de tanta discussão?

Primeiramente, entendamos que a escrita já é uma tentativa de regulamentação da fala. É absolutamente impossível escrever como se fala. A fala é espontânea, caótica, enquanto a escrita é organizada, racionalizada. O ato de falar é natural: aprende-se criança, por experiência, ouvindo os pais e articulando pouco a pouco sons, palavras, frases. Para escrever, no entanto, é preciso ser alfabetizado. Não parece difícil a escrita da palavra “pai”. Isso para quem aprendeu a ler e escrever. Para quem não sabe ler, são apenas símbolos aleatórios. Então, escrever não é um processo natural e não reflete diretamente a fala.

Vamos estabelecer uma comparação ao âmbito social: imagine se não existissem leis. Todos poderiam cometer assassinatos, roubos, estupros e qualquer tipo de violência sem receber punição. Seria o caos. Voltaríamos à barbárie. É preciso regulamentar o funcionamento da sociedade para que ela sobreviva como tal. A mesma lógica se aplica ao sistema linguístico: é preciso organizar a escrita, de acordo com os princípios de cada idioma, para que a comunicação seja viável. Se cada pessoa resolve escrever da maneira que bem entende, em pouco tempo retomaríamos o mito da torre de Babel, impossibilitando o entendimento mútuo. Como defender uma argumentação baseada em leis que só produzem sentido para um indivíduo? Faz-se necessário, assim, criar um padrão, que será compartilhado por todos.

A escrita é uma atividade intelectual, portanto, não é e nem deve ser naturalizada. Não é mais “simples” escrever uma palavra do jeito que eu considero mais simples porque isso seria impor a minha lógica ao mundo em vez de tentar compreender o próprio processo lógico em questão. Sim, a ortografia pode nos deixar reféns de dicionários e Googles, mas ela se faz necessária como padronização de um sistema para o seu devido uso. Além disso, existe uma maneira muito mais lúdica de se familiarizar com a escrita das palavras: a literatura.