Será que a literatura está na contramão do mundo?

Numa era em que os valores da moda e do belo penetram todos os recantos da sociedade, fica a questão: a literatura não estaria na contramão do mundo?

shutterstock_111621998Em uma conversa informal, meu professor de literatura brasileira me disse que a arte no século XX foi completamente premonitória. Segundo ele, a literatura desse tempo carregava consigo características fortes de destruição e caos. Características essas que foram, em grande parte, as maiores do séc. XX.  Deste século que atravessou bravamente a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

Este mesmo professor me disse também que a arte atual deve ser feia. Para ele (e acho que para muitos outros críticos literários), a literatura hoje em dia, para ser boa, deve expor uma estética mal resolvida, que não contenha em si beleza, mas sim as feiuras do mundo. Para exemplificar isto, ele citou Eles eram muitos cavalos do mineiro Luiz Ruffato, que foi escrito no final do séc. XX. Eu pensei também nas obras das últimas Bienal em São Paulo, que tanto causaram espanto no público.

Pois bem, pensando nisso, há três dias, li no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, uma entrevista pra lá de interessante com um filósofo chamado Gilles Lipovestsky. Aparentemente, o motivo da entrevista era a despedida de Gisele Bünchen das passarelas, já que Liposvestky estuda o consumo, a moda e luxo. Porém, a entrevista o foi muito além da aposentadoria de Gisele.

Nela Liposvestky disse que vivemos em um período de “estetização do mundo”. Isso significa que, atualmente, tudo o que consumimos, precisa ser definitivamente belo, quando não sedutor. Além disso, ele disse que o mundo absorveu a lógica da moda, por isso tudo é tão belo e conceitual. Em suas próprias palavras:

No passado, um par de óculo era apenas uma órtese para enxergar melhor. Hoje é um acessório de moda. O mesmo raciocínio vale para um automóvel, para os móveis, para tudo. Estamos na época do capitalismo artista, que incorpora a dimensão artística em todas as dimensões do consumo… A aparência se tornou crucial, nenhuma industria do consumo pode escapar.

Somando essas palavras com as reflexões do meu professor sobre a literatura, que expus anteriormente no texto, acabei chegando a duas reflexões que são os verdadeiros motivos desse texto:

A primeira: será que a literatura e as outras artes estão muito a contramão do mundo? Já que para serem consideradas boas, elas precisam ser feias, diferente de qualquer outro produto banal? Ou serão elas o verdadeiro reflexo de um mundo caótico maquiado pela lógica do consumo?

A segunda questão: E se a arte for realmente premonitória, o que toda esta “feiura” contida nela está querendo nos dizer sobre os nossos dias futuros?

Bom, após isso, aguardo respostas!

Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
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