Stoner – cada um é imortal em seu tempo

Com protagonista aparentemente banal, a obra Stoner, de John Williams, demonstra que a vida de qualquer um daria um livro

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John Williams | Foto: Divulgação/Special Collections/University of Arkansas Libraries

Observo o quadro que exibe a fotografia em preto e branco de uma cena congelada desde o início do século passado – 1910, mais precisamente. Há muitas pessoas na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro. Vestem as roupas da época e olham curiosas na direção de quem lhes aponta a então moderna máquina de fotografar. A constatação é óbvia: todas as pessoas retratadas na fotografia já morreram. Outra constatação: absolutamente nada se pode saber dessas pessoas.

Do mesmo modo, na cena atual de uma cidade movimentada qualquer, as pessoas que transitam agitadas pra lá e pra cá daqui a cem anos obviamente não existirão mais. E, a não ser que sejam cientistas que descobriram a cura de alguma doença, ou artistas geniais, ou modelo do artista genial (tal Mona Lisa), ou generais vitoriosos, ou membros da Academia de Letras, todos estarão desaparecidos da história para todo e sempre. É assim, milhares e milhares de pessoas passaram e passarão por este mundo e nada se pode nem poderá saber delas. Mas, claro, é caso de se admitir divergências, e nesse aspecto uma obra cumpre o papel de apresentar outra perspectiva sobre o assunto.

A ainda infante editora Rádio Londres, criada com o objetivo de publicar ficções de autores do mundo todo, tem conseguido emplacar várias novidades nas prateleiras das livrarias, muitas nunca antes traduzidas aqui no Brasil. Entre elas, destaca-se o livro Stoner, do norte-americano John Williams. A obra acompanha toda a trajetória do personagem William Stoner, que, nascido no campo, transfere-se para a cidade grande, cursa a universidade, torna-se professor, sofre pela morte dos pais, casa-se, tem uma filha, separa-se, aposenta-se e… morre. A quem desconfie haver nessa história uma narrativa insossa, recomenda-se a leitura que preencha os espaços entre os verbos citados acima, pois o mérito do livro é ter extraído emoção do relato de uma vida comum, ter iluminado o protagonismo de um homem afastado de qualquer proeminência.

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Stoner (Rádio Londres, 2014)

É como se o livro pudesse ter retratado a minha vida, a sua vida, a vida de um bancário, de um lojista, de uma corretor de imóveis, de uma dona de casa, de um caminhoneiro, de um morador de rua. A obra joga luz sobre uma vida que se confunde com tantas vidas ao redor e que certamente passaria despercebida não fosse os holofotes da escrita de Jonh Williams. Assim, William Stoner, o homem comum, é, antes de tudo, dono de uma vida especial.

Enfim, a obra em questão demonstra que a vida de qualquer um daria um livro. Por isso, usando uma adaptação torta de Vinícius de Moraes, cada um é imortal em seu tempo.

Flávio Sanso Autor

Flávio Sanso escreveu o livro A base do iceberg. Foi finalista do concurso Off flip de literatura/2015 e 2016; um dos vencedores do Prêmio Rubem Braga/Sesc DF de crônicas. Tem residência virtual nos endereços flavio.sanso@gmail.com, @Flavio_Sanso e flaviosanso.com