Sutilezas da marchinha romântica na vida real: literatura e música como instrumentos políticos

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Após 2 anos do golpe militar, em 10 de outubro de 1966, uma banda chegou cantando coisas de amor e foi premiada no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. 

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Em 1966, a liberdade era vislumbrada como um direito político e social do cidadão brasileiro, mas era inviabilizada pelo sistema político imposto. O golpe militar de 1963 contra o governo de João Goulard¹ fez o Brasil vivenciar a fase verde de sua puberdade. Tal contexto não impediu a entrada (mágica) de uma canção singela e aparentemente despretensiosa num cenário cujos elementos do Estado permanecem até os dias atuais: povo, território e poder.

Havia uma inocência perdida, uma nação com um pai opressor, grotesco e economicamente eficiente, um canal de TV com um programa de música popular brasileira e dois personagens principais no meio de uma multidão sem rumo e sem liberdade: o compositor Chico Buarque de Holanda e a cantora Nara Leão².

Com simplicidade, harmonia e alegria, o casal Chico e Nara emitiu um som repleto de coisas de amor. A beleza, a pureza e a magia de uma vida sem problemas foi desfrutada e sentida.

Afinal, de onde vem o tempero que cativa de forma singela? De maneira unânime e sentimental, atingiu a criança, o adulto e o idoso – personagens/pessoas comuns que fazem parte do político e social.

Foi nesse cenário marcado pela ditadura militar que a canção brasileira A Banda marcou tradição no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Mesmo com tensão política no ar, a felicidade existiu e foi ouvida! Em massa, preocupações foram esquecidas, uma gente sofrida se despediu da dor e vivenciou temporariamente uma vida ideal, num espaço de reciprocidade instantânea oferecido no evento televisivo.

Algo mais acontece na comunidade que vibra com a marchinha romântica. As particularidades individuais de cada personagem anônimo se fundem com o coletivo (e sua necessidade de pertencer a algo).

No entanto, tudo tomou seu lugar depois que A Banda passou. Quando a marchinha romântica simplesmente se foi, cada qual voltou para seu canto e sua sombra, sem alegria e vibração, mas A Banda não. Ela era diferente, autossuficiente, sabia que dela o povo dependia.

Os personagens da canção são pessoas comuns, estereótipos comuns. A letra da música faz uso de figuras de linguagem como a personificação, atribuindo funções humanas a elementos inanimados. Todos os personagens da letra se refazem pelo afeto da composição, liberam seus desejos de liberdade frente a um regime autoritário na vida social e econômica.

“… a rosa triste que vivia fechada…”,

a “… lua cheia que vivia calada…”

Nesse ponto, é possível recordar do livro Raízes do Brasil (de 1936), escrito por Sérgio Buarque de Holanda, pai do compositor Chico Buarque de Holanda, que traz uma abordagem sobre a falta de adaptação à vida prática que o brasileiro possui, dependente de uma técnica de bondade, pureza e felicidade versus racionalidade para se fundir com a política em sua vida em sociedade. Chico Buarque de Holanda sabia disso. Uniu ritmo (gênero/batida), harmonia (relação de acordes), melodia e poesia (letra da música) ao seu talento de compositor na fórmula antecipada por seu pai para conseguir reconhecimento público.

 

Chico Buarque: um personagem nacional 

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O reconhecimento público de Chico Buarque (um personagem nacional) veio com a premiação de A Banda no Festival da Record. Além de músico, Chico Buarque é escritor e dramaturgo (vencedor do prêmio Jabuti por Estorvo em 1992 e Budapeste em 2004, adaptado para o cinema em 2009), vários filmes com suas canções-temas, além de peças de teatro.

“A linha entre ficção e realidade é tênue. Envolvido com causas políticas e cuspindo letras que denunciavam aspectos sociais, econômicos e culturais, Chico Buarque simbolizou uma ‘democratização do país’, como um porta-voz de uma geração calada por um contexto opressor. Adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide para driblar a censura do regime militar. Na época, Chico Buarque também exilou-se na Itália; no entanto, para alguns: ´lutou bravamente pela democratização do país´”.

Como em Budapeste³, há o lado do Buda e o lado da Peste

Data da foto: 1977 Chico Buarque de Hollanda, cantor e compositor.
Chico Buarque de Hollanda, cantor e compositor. Data da foto: 1977

A ideologia política das músicas de Chico Buarque no passado, atualmente entra em contradição com a sua figura pública (de protesto). Sua expressa devoção ao governo do PT, deixa um cenário bastante contraditório num momento em que o país vivencia outro tipo de tensão política.

No entanto, vale lembrar que o “personagem Chico Buarque” não fez nada além do que um brasileiro anônimo típico: depois de desfrutar de todas as vantagens possíveis, pica a mula quando o bicho pega e adota o método de “ficar a toa na vida”.

Quando passado e presente se fundem, ocorre uma sinestesia. O Brasil de hoje está em declínio econômico, a corrupção já saturou ao nível de deboche, a marcha para a solução é lenta e bem longe de ser instantânea, porém, desta vez, não há um personagem principal para ser mensageiro do povo com seus representantes (eleitos pelo próprio povo, vale lembrar).

Em conjunto, numa ficção chamada Brasília, políticos eleitos pelo povo empenham-se diariamente em decair um país fértil através de suas “obrigações”, sem pudores, sem censura, corrompendo todos os tipos de valores num país sem heróis e sem virtudes.

Em 1966, a canção A Banda tornou verossímel o social e o político. Refazer uma realidade insatisfatória foi a causa da canção. Hoje, 50 anos depois, uma necessidade ressurge.  Talvez não mais pelo afeto ou na esperança instantânea de uma música feliz em sua composição, mas pelo amargo da indignação, pelo feixe de consciência do que é público e do que é privado, à mercê da incoerência bruta e sem coisas de amor.

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Notas:

¹ João Belchior Marques Goulart (01/03/1919 –  06/12/1976), é conhecido popularmente como “Jango”. Foi um advogado e 24° presidente do país (de 1961 a 1964), deposto pelo Golpe Militar de 1964, liderado pelo alto escalão do Exército. Antes disso, também foi vice-presidente, de 1956 a 1961, tendo sido eleito com mais votos que o próprio presidente, Juscelino Kubitschek. A família de Goulart era de ascendência açoriana, sendo ele filho de Vicente Goulart, estancieiro do Rio Grande do Sul que tinha grande influência na região – o que ajudou Jango a entrar para a política. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1939.

² Junto com Chico Buarque, Nara Leão interpretou a canção de autoria de Chico Buarque. No Festival, A Banda empatou com a canção Disparada, de Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues.

³ No livro Budapeste o narrador José Costa é um ghost-writer, pessoa especialista em escrever cartas, artigos, discursos ou livros para terceiros, sob a condição de permanecer anônimo. Costa escreve os textos na Cunha & Costa Agência Cultural, firma em que é sócio com o seu amigo de faculdade Álvaro Cunha, este especializado em promover o trabalho de José Costa. Na volta de um congresso de autores anônimos, Costa é obrigado a fazer uma escala imprevista na cidade título do romance, o que desencadeia uma série de eventos que constituem o centro da trama: casado com a apresentadora de telejornais Vanda, Costa conhece Kriska na Hungria, que o apelida de Zsoze Kósta e com quem aprende húngaro – segundo o narrador, “a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”. Entre as diversas idas e vindas entre Budapeste e o Rio de Janeiro, a trama se alterna entre o seu enfeitiçamento pela língua húngara e o seu fascínio em ver seus escritos publicados por outros, bem como o seu envolvimento amoroso com Vanda e Kriska.