A Torre de Babel contemporânea

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O mito bíblico da Torre de Babel e Babel Revisitada, de Evando Nascimento: o homem culpado pela queda de suas próprias construções

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Torre de Babel

De acordo com o conhecido mito bíblico da Torre de Babel, a humanidade teria planejado construir um prédio tão alto que alcançaria o céu. Como castigo pela pretensão humana, Deus destrói a torre e instaura a multiplicidades de línguas, o que dificultaria a comunicação. No conto Babel Revisitada, de Evando Nascimento, o peso da punição divina é transferido para o próprio homem, verdadeiro responsável pela destruição de seu projeto megalomaníaco.

O narrador do conto relata, em nove pontos, como a construção inicial da torre fracassou. A ideia veio não se sabe de onde e o objetivo era alcançar o infinito. Como a idealização foi demorada, as gerações posteriores foram dando continuidade aos trabalhos. Porém, o número de operários se multiplicou a tal ponto que a torre não aguentou o peso e desabou. Se, na bíblia, a variedade de línguas e culturas é estabelecida após a queda da construção, no conto ela é a própria causa de seu desmoronamento, o que o narrador chama de “erro de cálculo”. Uma falha humana de comunicação.

Em seguida, ele postula como o fato repercutiu: há os que acreditam na versão da vingança divina, os que interpretam o caso como metáfora para a complexa subjetividade humana e aqueles que, como ele, procuram explicar tudo de maneira racional. Por fim, ele nega a veracidade dos rumores sobre a construção de uma nova torre e a possibilidade de uma nova queda. Pela data em que o texto foi publicado, 11 de setembro de 2011, a associação que se estabelece é clara: o atentado às Torres Gêmeas.

Portanto, desde os tempos bíblicos até a sociedade atual, a vaidade humana prevalece, e gerando tragédias. Ainda que o narrador refute essa crítica, em tom de defesa, evitando nomear as coisas, é precisamente esse o ponto principal. Visando competir com a autoridade divina, com os outros seres ou consigo mesmo, o homem cria projetos cada vez mais ousados. No entanto, na medida em que a tecnologia avança, a comunicação permanece precária. A civilização ergue monumentos gigantescos, mas não é capaz de resolver conflitos básicos, como o da convivência.

Se a torre de Babel, conforme a versão do conto, desabou por causa da incompreensão mútua entre os construtores, as Torres Gêmeas foram destruídas em consequência de uma disputa entre nações. A harmonia intercultural ainda está longe de ser alcançada. A torre jamais atingirá o céu enquanto o problema estiver na base do projeto, em sua força motriz. Com ou sem a interferência divina, o homem sempre se revela culpado pela queda de suas próprias construções.

 

O conto pode ser lido na íntegra aqui!