Um olhar sobre Lima Barreto para além da cor da pele

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Constantemente vemos Lima Barreto descrito como “um autor negro frustrado” e não como aquilo que o fez entrar para a História: um dos maiores nomes da Literatura Brasileira

Um mar de biografias

A maioria dos textos produzidos sobre Lima Barreto, dedica-se a explorar sua vida pessoal. O histórico familiar. A relação com o álcool. Aliados, inimigos, amantes. Enfim, o que compõe a esfera da intimidade.

Contrariando minhas expectativas, mesmo após uma Flip no qual saiu homenageado, os romances do escritor não foram reeditados com capa dura e textos de apoio. Os únicos títulos a ganharem novos exemplares foram a edição comentada de Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (Ateliê Editorial) e Lima Barreto: Caminhos de Criação, edição crítica do romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha (Edusp).

Em compensação, biografias, edições biográficas e antigas análises reeditadas chegaram às livrarias com bastante alvoroço.

No cerne das discussões envolvendo o autor, figura a questão racial. A dificuldade para circular em determinados espaços, a demora em ser reconhecido, o foco em personagens pertencentes às camadas populares. Tudo isso associado ao fato do romancista ter pele escura. Ela seria inclusive uma justificativa literária: os problemas retratados pela obra de Lima refletiriam ele mesmo enquanto marginalizado.

Falar de cor é preciso, mas não só de cor

É evidente que ao falar de um autor que se reconhecia como “mulato” (lembrando que naquela época ainda não havia a problematização do termo), faz sentido abordar a questão racial, sobretudo no que abrange ao contexto em que suas criações foram produzidas.

Contudo, é preciso tomar cuidado para não reduzir sua obra a isso. Como já dizia Francisco de Assis Barbosa – maior biógrafo do escritor –, é necessário encarar a literatura de Lima Barreto para além do drama íntimo nela incorporado. Há uma filosofia estética operando em toda a sua produção.

Todo escritor coloca um pouco de si naquilo que cria. Suas experiências, seu modo de ver o mundo, suas preferências estilísticas, os estudos que fez, os valores em que acredita, todos esses fatores acabam perpassando sua produção. Isso não quer dizer que o que produz seja necessariamente autobiográfico, nem que ele o tenha feito com fins terapêuticos, para “tirar algo de dentro do peito” ou “lidar com os próprios demônios”.

Tudo isso parece um fabulário inverossímil. Afinal, a criação literária é muito mais abrangente do que a esfera pessoal. Do contrário seriam diários trancados no fundo da gaveta, não textos que passaram por um longo processo de edição – em todos os sentidos da palavra.

Um comum engano 

Como alguém que também escreve, uma das coisas que mais me incomodam é quando assumem que, se eu escrevi sobre determinada situação, é porque eu necessariamente passei por ela. Que meus personagens seriam um reflexo da minha infância/personalidade, que os acontecimentos do meu livro são adaptações de causos que presenciei.

Que escritora insossa eu seria se meus escritos fossem meras repetições de tudo porque já passei ou senti, não é? Mesmo quando há alguma inspiração nas minhas próprias vivências, não é a mim que o leitor está lendo, não é aquela situação que está nas páginas. É outra coisa.

E essa coisa é justamente do que o trabalho da escrita se ocupa, inclusive o de Lima. Atribuir escolhas literárias a um simples espelhamento de si é um reducionismo conveniente, um recurso fácil e enganoso para não se atentar de forma mais profunda ao que o autor está propondo com seu texto.

Um excelente escritor

O que me decepciona em relação à abordagem dada a Lima Barreto é que parecem ter esquecido o que ele tinha de mais importante, razão pela qual pôde ser homenageado por um dos maiores encontros literários do país: Afonso Henriques de Lima Barreto era um excelente escritor.

Lima construía narrativas fragmentadas que refletiam a reconfiguração da percepção e da subjetividade dos personagens diante da profusão de estímulos que recebiam pela metrópole.

Ele sobrepunha elementos de tradição e vanguarda, progresso e arcaísmo, passado e presente, capturando os contrastes que marcavam o Rio de Janeiro moderno.

Denunciava o abandono da população mais pobre. Satirizava as elites intelectuais. Expunha abusos de autoridade em diferentes níveis. Lima até chegou a escrever contra o feminicídio – o poder dos homens sobre a vida das mulheres – algo extremamente negligenciado na época!

Além de “mulato”, “pobre”, “depressivo” ou “rebelde”, Lima era um escritor e foi por isso, por sua contribuição e inovação literárias, que entrou para a História.

A maior injustiça que cometem com ele é retratá-lo como tudo, menos o autor brilhante que foi. Analisar todos os aspectos de sua vida, menos aquele pelo qual mais prezava e onde mais investia: sua obra.

O que há com os estudos literários sobre Lima?

Intrigante perceber que tal ênfase é esquecida justamente na área em que deveria ser maioritária: a dos estudos literários. Qualquer análise que não se estenda na descrição física e/ou social de Lima é logo preterida. Repetem-se os discursos de autor revoltado, do negro deslocado, do intelectual esquecido por ter uma origem que não convinha.

No entanto, onde estão os trabalhos que discutem sua produção literária? Os recursos que utiliza nos textos? Sua linguagem? Seus personagens e as alegorias que representam? Esses trabalhos existem (atualizados, reflexivos, de qualidade), mas, por alguma razão, são deixados de lado para ceder espaço a discussões sobre a desigualdade social ou o racismo na sociedade carioca.

Por que com o Machado é diferente?

Tais temáticas são importantes e devem ser discutidas. De modo algum estou sugerindo o ‘embranquecimento’ de Lima Barreto, nem que sua cor seja apagada dos registros sobre ele. Mas vejamos a diferença que ocorre com o tratamento dispensado a outro escritor, também negro, neto de escravos: Machado de Assis.

Todos sabemos sua cor de pele. E o reconhecemos como grande escritor negro. Em boa parte, isso acontece porque vários estudiosos, de diferentes épocas, se debruçaram sobre sua obra para evidenciar seu estilo primoroso, a ironia cortante, o domínio de forma e conteúdo. Eles não precisaram suprimir a origem pobre ou a herança étnica do autor para isso. Apenas não focaram suas análises literárias nesses aspectos.

‘Redução de complexidade’ e negligenciamento da obra

O problema é reduzir a obra de Lima Barreto a um mero pretexto para falar de questões raciais ou sociais. Seguindo essa lógica, não faria diferença se Lima fosse escritor, médico ou arquiteto, os argumentos e dados apresentados seriam os mesmos. O intuito não é discutir a contribuição literária de Lima Barreto, mas sim aspectos sociais, econômicos e raciais que, por conveniência, Lima encarna.

Se sua obra está repleta de críticas nesses campos, ótimo. É um dos motivos por que continua tão atual. Para fins analíticos, seria mais interessante entender de que maneira o autor as desenvolve, quais recursos aciona para construí-las. Em vez disso, assume-se que ele apenas escrevia sobre esses temas porque era “mulato e pobre”, como se essa constatação bastasse para compreender a sofisticação de suas criações.

Ironicamente, ao fazê-lo, acabam infligindo ao autor aquilo que ele mais temeu ao longo da vida: negligenciarem sua obra, não atentarem para sua estética, transformá-lo numa caricatura.

P.S.:

Insiro aqui um entreouvido com o qual concordo, mas que não tinha escutado na época em que redigi este artigo – “É como se ainda não engolissem que Lima Barreto podia ser pobre, negro, falar de temáticas raciais, fazer críticas políticas, tecer narrativas dinâmicas e ainda inovar esteticamente.  Tinha que ser ou uma coisa ou outra. Daí surgem os rótulos pejorativos (ressentido, bovarista, revoltoso), que passam a acompanhar seu nome toda vez que é mencionado”.