A variedade (e qualidade) dos livros não-ficcionais

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Sobre como a literatura, se melhora, oferece, cada vez melhor, a cada vez mais leitores

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Muito se fala sobre o quanto a literatura contemporânea é pouco valorizada, especialmente quando se sai da “panelinha” dos best-sellers, e sobre o quão pouco se sabe sobre os escritores mais underground, em especial os nacionais. Mas há outro nicho do mercado editorial que também vem sendo ignorado, ou subvalorizado, pela maioria massiva do público leitor: os livros não-ficcionais.

Não incluo nessa categoria, apenas para efeito desse comentário, as biografias, livros de autoajuda, acadêmicos e técnicos. Estou falando daqueles livros muitas vezes alocados em “diversidades” – o que, a meu ver, configura uma tremenda injustiça. Livros sobre métodos de investimento para leigos, gerenciamento de projetos, gerenciamento pessoal de tempo, liderança, gamification, marketing digital, economia criativa e mais uma infinidade de temas. Livros que refletem a multiplicidade de habilidades necessária para que se sobreviva profissionalmente no mundo de hoje, e que se colocam como portas de entrada valiosas para que se comece a desenvolver muitas dessas habilidades.

Apesar de esquecido/ignorado pela maioria do pública leitor, o mercado editorial se mostrou muito mais acolhedor a esse tipo de publicação. Editoras como a DVS, Gente e Contexto são fortemente atuantes no nicho, com livros direcionados tanto ao público leigo quanto ao mais especializado. As publicações são geralmente de autoria de nomes extremamente reconhecidos no meio de atuação, abordando temas relevantes diante da realidade econômica atual, ou que são tendências de uma futura alta no mercado. Sejam estas tendências econômicas, de mercado, investimentos, gerenciamento, marketing, economia, com certeza há uma obra recheada de conhecimentos esperando para ser descoberta.

O interessante é observar o alto intercâmbio de conhecimentos entre áreas e a alta aplicabilidade que os conceitos empresariais apresentam à vida cotidiana da população em geral. Obras de consumo rápido, muitas vezes organizadas em coleções ou “selos” dentro das editoras, e que carregam ensinamentos simples, porém extremamente úteis.

Mas o que mais chama a atenção em todo o panorama, e acredito que o menos óbvio, é o processo de “literarização” pelo qual essas obras parecem ter passado nos últimos tempos. Talvez visando expansão de público, facilitar o consumo das obras, ou pelo motivo mercadológico de vender conhecimento em “séries” de obras, o importante é que cada vez mais esse tipo de publicação se aproxima da composição de obras literárias. Com a gritante diferença de que os livros de “conhecimento técnico” expõe ao leitor o modo como sua “história” será “contada”. Caminhos teóricos que se aprofundam gradativamente no conhecimento, seguindo praticamente um fluxo narrativo, quase tão envolvente quanto o de um romance ou conto.

Não quero, de forma alguma, tentar estabelecer uma comparação qualitativa nem estrutural entre dois ramos da literatura tão distintos. Mas acredito que seja importante ressaltar a fluidez da literatura e o quanto o intercâmbio entre gêneros, estilos de obras e épocas literárias pode ser vantajoso. Não apenas para escritores e editoras – que veem seus campos de atuação e possibilidades de criação aumentados -, mas também para os leitores, que têm – em tese – maiores chances de entrar em contato com um tipo de livro, ou determinado assunto, com os quais não interagiriam se os moldes técnicos tão amarrados, e pouco atrativos, não tivessem sido superados.