Virginia Woolf e Clarice Lispector: o ser tudo, ou ser nada

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Uma outra visão sobre nossas incertezas passadas visto por Virginia Woolf e Clarice Lispector

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“…não quero me confirmar no que vivi – na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha…”; é com esta frase que Clarice Lispector, por meio da personagem G.H (A Paixão Segundo G.H) extrapola suas agonias e incertezas em relação ao seu passado e suas escolhas logo no começo do romance. É provavelmente com este mesmo sentimento de agonia, impotência e até um pouco de não aceitação que a maioria de nós acaba encarando a vida por cima do ombro.

Clarice, mais uma vez, de forma brilhante, exerce sua capacidade de captação da alma humana em palavras, traduzindo nossas crises de choro e apertos no peito nas palavras que lutamos tanto para achar. O medo, a confusão e a introspecção mais pessimista que acaba nos assolando nos momentos de maior frustração e incerteza encontra eco no texto da escritora naturalizada brasileira. Diante de nossos arrependimentos mais marcantes, tendemos sempre a nos deixar envolver completamente por um sentimento de agonia. “E se eu tivesse”, “e se eu não tivesse”; Clarice nos recorda que enquanto formos humanos estaremos a mercê de sermos assombrados por nosso passado, que teima em sempre nos lembrar dos futuros que poderíamos ter vivido caso nossas escolhas fossem outras.

Lispector, como muitos de nós, teme aquilo que viveu, mas especialmente aquilo que não viveu, e a completa ignorância do impacto que isso teve, ou poderia ter tido, na pessoa que ela se tornara. Tendemos a ser como Clarice: a focar na confusão que é tudo que nos compõe, enxergando apenas a fragilidade sobre constante ameaça que é o nosso – suposto – encaixe no mundo.

Mas em meio a toda essa introspecção melancólica surge uma luz literária no fim do túnel – diga-se de passagem tão significativa quanto a luz de Clarice.

Virginia Woolf, com seu conto A Marca na Parede, vem nos mostrar que a realidade na qual nos colocamos, de fato, pouco importa.  Tudo o que poderíamos ter sido e feito, todos os caminhos que poderíamos ter seguido e os destinos aos quais eles nos levariam: tudo isso nos rodeia dia e noite na forma de todas as outras pessoas da terra. Todas as pessoas são alguém que poderíamos ter sido, mas por escolha ou outra, acabamos por não ser. Estarmos “limitados” àquilo que nossas escolhas nos levaram a ser, é bem menos “limitante” do que pode nos fazer sentir.

Do mesmo modo que encaramos alguém sobre quem não sabemos nada além daquilo que a aparência revela – ou parece revelar-, pessoas nos encaram todos os dias do mesmo modo, por vezes, quem sabe, também desejando ter ou ser aquilo que lhes transmitimos.  “Quando nos encontramos face a face, nos ônibus e trens subterrâneos, é no espelho que nós estamos olhando; o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos”.

Aí está o ponto de virada de perspectiva oferecido por Virginia. Mudar o ponto de vista, partindo de dentro para fora. Encontrar nos outros aquilo que falta em nós, reconhecendo-os como reflexos e amostras daquilo que um dia poderíamos vir a ser, ou daquilo que somos quando vistos por olhos alheios. E encarar todas essas incertezas e inconsistências humanas como algo bom: jamais somos um plano fechado, consequência certa. Somos, antes de tudo, fragmentos efêmeros de uma realidade, mas nos encaramos como permanentes. Somos seres extremamente fragmentários, mas cabe a nós escolher encararmos isso de forma introspectiva e egoísta, focando apenas naquilo que nós deixamos de viver e sobre o que agonizamos ou olhar o mundo e as pessoas todas a nossa volta como fragmentos e reflexos de nós mesmo, que vivem a mesma vida partindo de outras perspectiva.

Estamos sempre bambeando entre o ser tudo, e ser nada; ser Woolf, ou ser Lispector. É tudo questão de perspectiva.