Clarice Lispector também caía na folia? Descubra em “Restos de Carnaval”!

Até a introspectiva Clarice Lispecter escreveu sobre a maior festa nacional

Moser-The-True-Glamour-of-Clarice-Lispector-1200-630-18124604Quando pensamos em Lispector, vêm logo à mente sua escrita misteriosa, algumas pirações existenciais, uma barata devorada e um punhado de narradores em crise. Pois, quem diria, ela escreveu também sobre a nossa festa mais alegre, mais livre, mais profana, caro leitor: o carnaval! No entanto, muita calma nessa hora: a folia da autora, sendo ela quem é, não tem nada do que o povo espera. É um evento melancólico, poético e sensível. Trata-se de Clarice, afinal.

Estamos falando do texto Restos de Carnaval, que não tem gênero bem definido. A primeira publicação, em 1968, ocorreu na coluna que a escritora mantinha no Jornal no Brasil. Por isso, e por seu caráter autobiográfico, é considerado por muitos uma crônica. No entanto, ele acaba sendo republicado, dessa vez em livro, no volume Felicidade Clandestina, de 1971. Não parece improvável, portanto, que a própria Clarice o considerasse uma produção híbrida, indefinida, passível de ser lida nos dois meios, como vários de seus outros textos.

Ele é tido como parte de sua biografia devido a dois elementos: o cenário e a presença da mãe doente. Sabe-se que a autora, embora tenha nascido na aldeia ucraniana de Tchetchelnik, durante a fuga de seus pais para o Brasil, aportou em Recife, local que sempre considerou como a sua terra natal. Lá passou a infância e ganhou o nome de Clarice – originalmente, a autora chamava-se Haia, que em hebraico quer dizer “vida”. O conceito remete à tradição implícita ao nascimento da menina: na Ucrânia, quando uma mulher está doente e dá à luz uma criança, esta vem ao mundo com a missão de curar a mãe. Manía, que no Brasil tornou-se Marieta, era vítima de uma doença mal explicada, responsável por causar-lhe uma paralisia e uma debilidade que, eventualmente, a levaram à morte. Benjamin Moser, na biografia mais recente de Clarice (2009), sustenta que Manía contraiu sífilis depois de ter sido estuprada por soldados russos. Esse fato, no entanto, não surge em momento algum dos escritos da autora e não parece ser debatido na vida familiar, o que envolve a doença da mãe numa aura de mistério e sigilo. Só o que resta à menina é a certeza de que falhou no seu propósito, dado que a mãe não pôde ser salva, culpa que deixou marcas profundas.

Esse histórico torna a narrativa ainda mais pungente. Nela, a narradora rememora a sua infância e o sentimento que os carnavais lhe traziam:

E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.

Mas a euforia era frustrada pela impossibilidade de participar, ano após ano. Ela se recorda de passar longo tempo observando os outros se divertirem, da porta do sobrado, até tarde da noite, ávida por também se juntar à festa. Porém, explica ao leitor, muito decepcionada: Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança”.

A questão da fantasia é algo que permeia o texto e assume vários sentidos. O mais direto é o da roupa, seu ingresso para o mundo da folia, feita de um papel crepom que sobrou da fantasia de uma amiga, num “carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco”. Porém, a montagem da vestimenta cor de rosa, para além de inseri-la na diversão, representa algo maior: a fantasia, agora no sentido imaginário, de que por apenas alguns dias ela pudesse ser alegre, ser criança, sem pensar na tristeza sorturna trazida pela doença da mãe. Um desejo natural e justo de uma criança na sua situação. Mas o destino, “impiedoso”, como ela o descreve, fez com que a mãe piorasse durante a sua transformação, o que a força, semi-pronta, a correr à farmácia em busca de certo remédio. E então encanto se quebra. A fantasia de um tempo sem dores e preocupações dura um quase nada.

O terceiro viés é o do rito de passagem. A fantasia de rosa não somente garante o acesso à brincadeira, mas também significa um passo para o mundo adulto, já que desperta a vaidade, a feminilidade da menina. No começo do texto, ela faz questão de informar o leitor sobre a sensação que experimentava quando a irmã lhe enrolava os cabelos, mesmo nos tempos em que ainda não podia fazer parte da festa:

Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça – eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável – e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Quando a situação se complica e a mãe piora, também aquele seu reconhecimento como mulher parece ter ficado para trás. Mas pelo menos essa fantasia a garota consegue sustentar, graças a um outro, um anônimo, como tantos com que alguém se cruza nos dias de carnaval:

Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Assim, uma história com tanto pesar acaba em tons mais positivos. Como em diversos textos da autora, é no encontro com o outro que se dá a revelação de si mesmo. Essa cena final indica que a própria Clarice provavelmente passou por seus processos epifânicos, que ela soube transportar com habilidade para as vidas das personagens que criou. A escritura do conto, portanto, além de nos entregar pedaços da infância da autora, revela também as engrenagens pelas quais ela faz as suas narrativas funcionarem.

Talvez esse carnaval agridoce esteja muito longe do seu, caro leitor, que a essa hora está festejando no meio do bloco com uma cerveja na mão. Mas é o que Clarice Lispector sensivelmente traz pra nós nesse feriado. Eu gosto, gosto muito. E você?

Carolina Prospero Author

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.