A alegoria de “Josefina, a cantora”, de Franz Kafka

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1894

Intrigante e alegórico, Josefina, a cantora, é um dos últimos e mais aterradores textos de Kafka

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Kafka era praticamente um ensimesmado misantropo (um sublime ensimesmado misantropo, diga-se en passant) e agora, um século após sua morte, sua literatura é aclamadíssima. Ganharia algum reconhecimento da Academia Sueca se estivesse vivo hoje? Nunca se sabe como esses reconhecimentos vêm, e como lembrava Kierkegaard: o instante da decisão é uma loucura. Mas o fato é que ganhar ou não um prêmio literário, mesmo um Nobel, nunca foi a aporia hamletiana de nenhum escritor que se preze, muito menos teria sido a de Franz, cela va sans dire. Arrisco-me até a dizer que os escritores que em sua época eram considerados “zé ninguéns como Poe, Lovecraft, Kafka, Walser, Górki, Hesse, Cervantes (esse rol não é taxativo!), são os que conseguiram alcançar seu ideal artístico como no dito nietzschiano: indo além dele.

Mas o fato é que, dentro da obra kafkaniana, na qual sentimentos como solidão, desespero, ensimesmamento e negação do eu (num existencialismo duro e sucinto) correm fartos de um lado a outro das páginas. Em paralelo à narrativa brilhante, talvez seca, surge o conto Josefina, a cantora, ou do povo dos ratos com sua pequena luz enigmática.

Segundo a opinião de Modesto Carone (cuja apresentação, em matéria de Kafka, se faz desnecessária) esse conto bem-humorado “na aparência” teria sido inserido por Kafka na coletânea Um artista da fome, aprovada para publicação no último ano de vida do escritor (1924), unicamente em razão de não ter conseguido concluir o conto A construção a tempo suficiente de atender a editora de Berlim. No entanto, se foi pensado para integrar a coletânea ou inserido apenas para cumprir o paginado, não vem necessariamente ao caso, vez que se trata de uma daquelas obras que valem a leitura e, por óbvio, a reflexão.

Tanto vale a leitura que Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo não dispensaram essa narrativa kafkaniana da participação em sua Antologia da Literatura Fantástica de 1940, reeditada em 1965 e que chegou ao Brasil em 2013 numa das edições de luxo da Cosac Naify, onde reuniram os contos fantásticos que mais apreciavam em todos os tempos.

O conto inteiro cruza duas histórias das quais emerge uma alegoria: primeiramente a história de Josefina, a rata cantora, depois a história do povo dos ratos e, por fim, a alegoria de uma artista ensimesmada inserida num povo de trabalhadores, num povo de ratos, o que nos parece o resultado da junção de ambas as histórias anteriores.

Um narrador não identificável, a não ser pelo fato de ser rato e de ser um opositor à ascensão de Josefina, conta as duas histórias principais do início ao fim, narrando com simplicidade e clareza como era a vida do povo dos ratos, um povo de trabalhadores que não tinha tempo para o descanso e nem sequer para serem crianças por muito tempo, vez que tão logo os filhotes conseguissem andar e enxergar eram incumbidos dos trabalhos dos adultos e da luta pela sobrevivência, ao passo em que novas ninhadas enormes de filhotes nasciam uma após a outra: “mal uma criança aparece, já não é mais criança, e é empurrada por novos focinhos, indistinguíveis na multidão apressada”, “uma geração empurra a outra; as crianças não têm tempo de serem crianças” – o que trivializava o nascimento e a infância curta. Esse era ainda o povo que guinchava em lugar da fala habitual, dos grandes aglomerados populacionais em suas sociedades, um povo repleto de inimigos por todos os lados, que vivia do trabalho árduo e não sabia o que era a música – a não ser por uma cultura antiga na qual, um dia, todos cantaram.

Em sentido oposto ao de seu povo está Josefina – a única nominável e, portanto, não indigente, no conto. Josefina é uma rata cantora que entende de música. Na realidade, não se sabe se por mera inflamação de opositor ou se por transcrição fiel da observação, conta o narrador que o talento de Josefina não é necessariamente o de cantar, mas uma espécie de encanto que gira em torno de sua pessoa simbólica e teatral. Digamos que os cacoetes que Josefina faz antes, durante e depois de cantar, dão a si uma carga de respeito cerimonial, apenas diante dela as multidões de ratos se põem em silêncio e não toleram interrupções desagradáveis ao seu canto, como se Josefina tivesse uma espécie de autoridade incompreensível, ou se se arvorasse a salvadora de seu povo – o que, no dizer do narrador, seria fácil por se tratar de um povo “tão acostumado com a desgraça, nem um pouco indulgente consigo mesmo, rápido em tomar decisões, bem conhecedor da morte, temeroso apenas na aparência”. Mas acontece que Josefina não canta, como afirma o rato-narrador, Josefina tem um guincho como o guincho natural a qualquer outro rato e, pior: “não consegue nem guinchar direito; é terrível o esforço que ela faz, não para cantar – não estamos falando de cantar –, mas para conseguir, bem ou mal, o guincho de sempre”. Assim, o canto ou a ideia que todos fazem do canto é uma espécie de aura que envolve a atuação teatral de Josefina e a suma importância que ela dá à sua arte, afinal “o que Josefina deseja é o reconhecimento público, unânime, imorredouro, de sua arte”. E no fim das contas toda a admiração por Josefina é justificada da seguinte forma: “admiramos nela o que não admiramos em nós”.

Longe de contarmos todos os detalhes e o final do conto – o que deixamos para os olhos do leitor kafkaniano –, vamos à alegoria que se forma da junção de ambas as histórias paralelas: a de uma artista ensimesmada num povo de ratos.

As pretensões de Josefina à glória, ao reconhecimento público imorredouro, ao respeito cerimonial, à unanimidade da opinião pública são talvez as mais comuns pretensões do coração da grande maioria dos artistas. Estar no meio de um povo néscio e ser a ele superior é como um mantra, um es muss sein beethoveniano, é como um destino venusto teatralizado em suplício. Cada artista que surge e é venerado, o é porque, se no final das contas nada salva, ajuda ou melhora o povo dos ratos? Cada Academia de Letras e Artes no geral que são abertas não matam a fome, nem a infimização do indivíduo tão presente nas sociedades “modernas”, e o povo dos ratos é tão parecido com o nosso povo, o povo dos homens… Qual memória se pode ter de uma infância duradoura? E o que passa quando crescemos, senão o ser empurrado por uma multidão apressada de focinhos rua abaixo, do mesmo jeito do adolescente recém-saído da infância curta, indo à cata de seu primeiro “emprego”, que vemos ser espremido e empurrado pela multidão de trabalhadores nas passarelas do metrô da Paulista, preocupados com seus relógios como o coelho de Lewis Carroll? Em que um artista ensimesmado engrandece esse nosso tão habitual ser-rato?

A arte talvez seja das coisas mais inúteis e sublimes da humanidade. A consciência dessa inutilidade estava, por exemplo, em Lispector em suas entrevistas à imprensa em que deixava claro não “servir para nada escrever, não mudar nada com isso”, mas se de um lado essa vida ratazana que vivemos de multidões, de correria, de trabalhos penosos, de inimigos para todos os lados e amigos apenas fictícios nas redes sociais nos assola enquanto uma vida necessária, que seria de nós sem o supérfluo da arte? Que seria de nós sem a apreciação do belo (que pode ser terrivelmente pesado, mas que disposto como uma mentira numa página de Kafka ou numa tela de Munch continua a ser o belo)? Afinal de contas, não seria a arte o único canal ao passado ancião no qual antes mesmo do que hoje entendemos por globalização, todos cantávamos?

Max Brod visitou o amigo internado como louco no sanatório de Kierling, perto de Viena, em maio de 1924 e o viu, praticamente no leito de morte, corrigindo avidamente os contos da coletânea Um artista da fome para enviá-los à editora de Berlim. No mesmo ano o livro saiu, mas Kafka já estava enterrado em Praga.

E no fim, Josefina, insanamente irada pela falta de reconhecimento, desaparece, enquanto o povo dos ratos lastima e continua seu labor. Seria esse o destino de tantos de nós artistas se na humanidade não imperasse o tabu do enaltecimento de quem morre. Graças a esse tabu, hoje lemos gênios josefinos como Kafka que, a despeito de mortos, “alcançaram” o sonhado reconhecimento imorredouro. Talvez em razão da arte inútil de todos eles sejamos menos ratos.

Referências:

KAFKA, Franz. Um artista da fome/A construção. Tradução: Modesto Carone.

___________A metamorfose; seguido de O veredicto, edição comentada. Tradução e notas: Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2013.

CASARES, Adolfo Bioy; BORGES, Jorge Luis; OCAMPO, Silvina (org.). Antologia da literatura fantástica. Tradução: Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2013.