A complexidade do amor pelas lentes da sétima arte

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Esses dois filmes de diferentes diretores, diferentes personagens e tramas, nos mostram uma coisa só: a complexidade do amor.

Amor em Little Italy | Tem Alguém Assistindo?
Foto divulgação

O clichê romântico de Hollywood pode ser muito criticado e até visto com desdém por muitos, mas temos que admitir que são eles que proporcionam um suspiro de satisfação quando precisamos fugir da rotina atarefada e cansativa da “vida real”.

Não é novidade que esse gênero é uma ótima válvula de escape para a maioria de nós, pois sempre sabemos o que esperar do final: o casal dará certo!

E quando o filme carrega a verdade complexa sobre a vida de um casal? Quem aguentaria assistir a um filme assim até o final? Todos nós já sabemos como relacionamentos funcionam na “vida real”, não queremos pagar uma plataforma de streaming para assistir a isso na tela também.

Mas, apesar de não admitirmos, a reflexão se faz necessária e, às vezes, só conseguimos enxergar a lição da vida quando a vemos primeiro traduzida no nosso exterior, ou seja, somente quando um filme a representa é que conseguimos nos enxergar naquela mesma situação e tirar uma conclusão proveitosa.

Uma pizza com amor, por favor.

Quem não gosta de um amor bem temperado e com gostinho de lar? Bom, é essa a sensação que Amor em Little Italy, dirigido por Donald Petrie, nos traz.

Um rapaz e uma garota de famílias italianas imigrantes, que cresceram juntos, se reencontram adultos em sua cidade natal. Ela, uma chef talentosa e viajada. Ele, um pizzaiolo bonito e disputado por muitas, que nunca deixou a cidade. Ambos relembram a amizade de infância que tiveram, mas têm que fazer isso de forma escondida, pois as duas famílias, que antes eram como unha e carne, agora estão brigadas e cheias de disputas internas bobas.

Dentro dessa confusão entre famílias, seus avós, ambos viúvos, redescobrem o amor e decidem que vão enfrentar a rivalidade das duas famílias para ficarem juntos. Essa é a deixa para que o jovem casal também pense em se dar uma chance, apesar das diferenças.

Como em todo clichê de comédia romântica, ficamos ansiosos para ver o jovem casal se acertar. Mas também nos divertimos com os avós que, com uma dose hilária, trazem um tempero especial ao filme, que nos faz perceber que não há idade certa para se assumir os sentimentos e muito menos hora perfeita para se superar as diferenças e ficar com a pessoa amada.

Então, meus caros leitores, a mensagem do filme é clara: vá logo atrás do manjericão pra sua pizza marguerita ficar perfeita. Saboreie o doce ou o salgado – vocês quem escolhem – do amor estilo italiano ao lado de quem está disposto a construir o melhor dos menus com você.

Quando o amor perde as cores

É em preto e branco que o diretor Sam Levinson decidiu dar vida às feridas de um casal no filme Malcolm & Marie. Talvez realmente essa seja a melhor forma de retratar o momento de exaustão dentro de um relacionamento, sem cores vivas e brilhantes ofuscando nossos olhos.

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O casal volta para casa após um evento no qual um filme de Malcolm (que é cineasta) foi apresentado, Marie parece desgostosa com alguma coisa e não demora muito para que ele comece a pressioná-la a falar o motivo. Inicia-se uma discussão, Marie reclama da falta de reconhecimento dele para com ela, que é sua parceira de vida e quem também teve parte significativa na construção da história do filme que acabara de estrear.

Ambos oscilam entre acusações e vitimizações. É possível, como espectador, trocar de lado várias vezes. Nós nos compadecemos de Marie e sentimos sua dor, mas também entendemos o lado de Malcolm. As humilhações em palavras que um sujeita o outro nos faz enxergar a parte triste e obscura de um relacionamento desgastado. A verdade é que nenhum dos dois está certo e nenhum dos dois está errado. Ambos estão machucados e o relacionamento, corroído pelas feridas caladas durante o tempo.

No decorrer da história, Malcolm diz algo bem tocante sobre produção audiovisual:

“Cinema não precisa ter uma mensagem. Precisa ter coração e eletricidade”.

Essa frase do personagem se encaixa bem para descrever o próprio filme, pois esse é um daqueles que nos pega pela garganta e nos joga contra a parede, nos faz refletir sobre as brigas dos nossos últimos relacionamentos e em quantas vezes nos perdemos em nome do outro, por amor, por possessividade ou por egoísmo mascarado de altruísmo. E mais uma frase relevante, esta dita por Marie, pendula com o filme:

“Quando sabe que alguém está com você e te ama, você nunca mais quer saber dessa pessoa”

Malcolm e Marie apresentam-se dentro de uma relação de codependência, abrem seus peitos e se mostram em carne viva em uma noite que deveria ser de glória para Malcolm, graças a sua estreia.

Não se engane, caro leitor, apesar da briga constante, o filme está longe de ser fatigante. Na realidade, é muito reflexivo, pois nos faz contemplar a complexidade dos relacionamentos humanos.

O que muitas vezes nos falta compreender é que nenhum casal está livre de tempestades, que coisas maldosas podem acabar sendo ditas em um momento de fúria, que seremos tachados de egoístas e acharemos que o outro é quem está sendo ingrato, mas tudo isso só acontece porque deixamos o copo da paciência transbordar, porque não nos preocupados em reconhecer a presença e o apoio que o outro nos dá constantemente, porque estamos mais focados no quanto damos sem ter de volta, do que no que recebemos da pessoa amada sem que precisemos pedir.

E a mensagem desse filme, caros leitores, é simples e talvez também seja mais um clichê. Há três coisas que sempre devemos nos lembrar de dizer se queremos manter e salvar um relacionamento: Eu te amo. Obrigada. Perdoe-me.