A santa aliança, de A.J. Kazinski, ou Intrigas no reino da Dinamarca

Em A Santa Aliança, autores dinamarqueses chamam a atenção para a fragilidade das forças políticas da comunidade europeia

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Quando a trilogia Millenium, criada pelo jornalista sueco Stig Larsson, estourou no mundo inteiro, o mercado editorial brasileiro voltou as atenções para as tramas ambientadas em países escandinavos. De lá, saiu uma enxurrada de romances policiais que revelam que por trás da aparente civilidade e política de bem-estar social há também uma sociedade que se confronta continuamente com o terror de ver ruir essa frágil estabilidade. Por outro lado, esses romances demonstram que parece haver uma necessidade de rompimento da ordem estabelecida e isso é apresentado quase sempre na figura de personagens conectados a política, grandes corporações e forças armadas. Em A Santa Aliança (Tordesilhas) é a vez de a monarquia dinamarquesa ser desnudada em maquinações para que o poder continue nas mãos de poucas famílias nobres europeias.

Normalmente, intrigas de poder monárquico aparecem em romances de época, sobretudo nos ambientados na Idade Média. A.J. Kazinski, pseudônimo dos autores Anders Rønnow Klarlund e Jakob Weinreich, engendra uma trama que se passa nos nossos tempos e de como as casas reais europeias estão absolutamente conectadas aos destinos políticos de nações do bloco europeu, mesmo aquelas que destituíram há décadas as famílias reais de seus privilégios de nobreza.

O enredo apresenta Eva Katz, uma jornalista desempregada que decide, após uma tragédia pessoal, abandonar tudo para lidar com uma depressão. O processo de recuperação envolve procurar um novo emprego e a protagonista decide então trabalhar em uma creche. No local, depara-se com um desenho infantil que indica um assassinato e, bastante intrigada, começa a investigar. Esse é o ponto de partida da trama que, por meio das investigações da protagonista, mostra o lado sombrio de uma sociedade que era para ser civilizada e avançada, mas que também precisa discutir sobre violência doméstica, agressões contra a mulheres e crianças, políticos e servidores públicos corruptos e joga para debaixo do tapete a grave questão da imigração e dos refugiados.

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A Santa Aliança, A.J. Kazinski. Tordesilhas, 2016.

O livro A santa aliança poderia ser categorizado como romance policial ou de detetives. Mas o fato de os autores aproveitarem para discutir o sistema político europeu dá novas nuances. Eles nos lembram que a maioria dos países do continente tem suas democracias oriundas de recentes e fragéis formações de governo que, reconfigurados no pós-Segunda Guerra Mundial, existem apenas porque têm anuência de famílias poderosas, mas que podem reivindicar, a qualquer momento, plenos poderes governamentais.

Os argumentos utilizados pelos autores nos deixam em alerta, pois apresentam razões bastante factíveis para que o leitor possa acreditar que uma dúzia de monarquias ainda está por cima de qualquer estratégia política ou poder de voto dos cidadãos. Todos são apenas marionetes em um intricado jogo de poder e monarcas estão à espreita, esperando apenas uma chance para voltar a governar. Todos estão nas sombras só porque é conveniente, mas apenas por enquanto.

Apesar de não ter um texto denso – o livro funciona mais como um roteiro de cinema, já que os autores têm uma linguagem que apela para a visualização das cenas descritas – a trama nos prende por nos convocar a pensar na fragilidade de se ter uma casa, um carro, seguro de vida, poder votar e acreditar que elege governos com linhas ideológicas semelhantes, sobretudo nas nações consideradas avançadas. Os autores provam que até um breve blecaute de energia elétrica é capaz de trazer o pior dos seres humanos e dar início ao caos social. E pior, isso pode acontecer a qualquer momento.

O título da obra, A Santa Aliança, remonta a um acordo político firmado em 1815 pelo Império Russo, Império Austríaco e Império da Prússia para conter a expansão de Napoleão Bonaparte, logo após a vitória contra o imperador francês. Mas foi criada principalmente para assegurar o poder econômico e bélico das famílias que faziam parte das monarquias à epoca. Os autores criaram a ideia de que a nobreza daquele período deixou descendentes e não parece tão impossível que eles estejam loucos por uma chance de retornar ao poder.

Dora Carvalho
Dora Carvalho é jornalista e doutoranda em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM-SP. É leitora voraz de clássicos à livros de fantasia. Adora autores britânicos, mas, de vez em quando, cai de amores por escritores italianos e da América Latina. Escreve como autora no blog sobre cinema e séries +Cinelivre: www.maiscinelivre.blogspot.com.b
Dora Carvalho
Dora Carvalho é jornalista e doutoranda em Comunicação e Práticas do Consumo pela ESPM-SP. É leitora voraz de clássicos à livros de fantasia. Adora autores britânicos, mas, de vez em quando, cai de amores por escritores italianos e da América Latina. Escreve como autora no blog sobre cinema e séries +Cinelivre: www.maiscinelivre.blogspot.com.b
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