Algumas palavras sobre 2020 – Editorial Homo Literatus

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Diante do ano de 2020, dos aprendizados e sofrimentos, como faremos a passagem para um ano realmente novo e realmente melhor?

“File:Korpokrasnal (Company dwarf) Wroclaw dwarf 04 masked 2020.jpg” by Fallaner is licensed under CC BY-SA 4.0

2020

Podemos dizer que 2020 foi o mais pesado ano da nossa contemporaneidade até agora. Podemos compará-lo aos anos de guerra, onde o próprio valor do humano resta sempre posto em xeque pelos próprios humanos. Agora temos um ser infinitamente pequeno que nos tem lembrado o básico, quase o ululante: somos orgânicos.

Homo digitalis

O crescimento do fenômeno do digital nos últimos dez anos – o mesmo tempo de vida do Homo Literatus -, o fenômeno que oportunizou a vida nas plataformas e a navegabilidade online como algo quase tão importante quanto o ir e vir garantido nas constituições democráticas, nos deu uma sensação de criação, de que somos poderosos.

E foi nesses anos que ensinamos os nossos robôs a aprender sozinhos, concatenando aquelas previsões asimovianas. E então lampejou em nossa abstrata consciência coletiva, a ideia de sermos, nós mesmos, os Sapiens, “Homo Deus”, como diria o Harari.

Repetir o óbvio

Acontece que, como bem nos tem lembrado o Krenak, nós, humanos, somos filhos da natureza e ela, cansada dos nossos desmandos e das nossas síndromes messiânicas, resolveu tirar, por um momento, o nosso ar. E eis onde estamos.

Pessoas para além da numerização

Enquanto escrevo esse texto, nesse 31/12/2020, 82.835.563 de pessoas no mundo já se contaminaram com a Covid-19, 7.619.200 das quais no Brasil. 1.807.638 de pessoas no mundo morreram em razão da Covid-19, 193.875 das quais no Brasil. E todos esses números, repetidos pela grande mídia sob o nome horroroso de “média móvel de mortes” e “de casos” são pessoas, vítimas, famílias.

Um bocado de “necropolítica”

Mas os regimes neofascistas, como é o do atual presidente de nossa tímida república, não se importam nem com as pessoas, nem com os números, mas apenas com o desejo pornográfico de perpetuação no poder e, por causa dessa “necropolítica“, aqui estamos numa espiral de desordem, desinformação, mortes e impotência que contagia a sociedade que, descrente em quaisquer narrativas que sejam, vivem como se a pandemia já fosse normal entre nós.

A arte salva

Mas também aprendemos com esse tórrido ano que a arte salva. Ela nos salvou em vídeo, nos salvou em livros, até mesmo nas telas, nas contações de históricas, ou seja, até mesmo aquela arte que nos salvou das cavernas.

E é por isso, pela arte, em razão da arte e inteiramente para a arte que inúmeros colaboradores do Homo Literatus se esforçam, escrevem, reescrevem seus textos. E é para dar voz a essa turba maravilhosa de ansiosos por arte que nós editamos e publicamos textos de qualidade há já 10 (dez) anos!

O ano de 2020, embora seja o ano do teste da solidariedade e da humanidade, embora seja o ano da luta contra o neofascismo no mundo e os seus produtos sórdidos como o racismo e embora também seja o ano das milhares de mortes e da tragédia da solidão, também foi o ano do renascimento de muita gente e da conexão com o que há de melhor dentro da natureza humana.

Homo Literatus

É nesse contexto que também se deu o renascimento do Homo Literatus.

Dentro do possível, com nova equipe e sob nova direção, fomos repaginando o site, e nos preocupando mais com conteúdo e menos com likes, seguidores e público descompromissado com arte.

O Homo Literatus é mais que um portal, é uma união de esforços pela arte. Toda colaboração em nosso portal é gratuita. Todo trabalho para nosso site é gratuito. Edição, colaboração, mídias sociais, computação, tudo. E esse voluntariado pela arte não é feito para a engorda do ego de ninguém, mas pela missão de colaboração com a arte, mesmo em tempos difíceis, como o nosso.

E é por isso que parabenizo a todos os colaboradores que se dedicaram e, em meio a tantas dificuldades pessoais, puderam sentar e escrever pela arte, para alcançar nossos leitores atentos e conscientes. Parabenizo também nossos leitores que, em meio a tantas distrações gratuitas e desprovidas de conteúdo, ainda insistem em lugares como o Homo Literatus onde, certamente, terão conteúdo de qualidade.

2021

A pandemia nos ensinou a não planejar muito futuristicamente, afinal, somos orgânicos e não sabemos até quando nossa matéria dura. Mas dentro do possível, também nos ensinou que pensar um futuro, ainda que muito próximo, é o que nos torna humanos. Pensar o amanhã, não com ansiedade, mas com vontade de fazer o bem e de fazer melhor o que já fizemos antes.

É com esse intuito que desejamos ampliar a participação e colaboração em nosso site em 2021. Utilizar novas plataformas e deixar os conteúdos mais interativos. Para isso, abriremos seleção para novos colaboradores em breve e, também em breve, iniciaremos novos canais e formas de apresentação de conteúdo.

Com essas poucas palavras que de modo algum podem resumir um ano, ainda mais um ano como esse, que nos despedimos de 2020. E desejamos a todos que passam por aqui, seja como colaborador ou leitor, muita iluminação. Na verdade, toda iluminação possível!

Vem com a gente compor um ano realisticamente melhor!

 

Do Editor

Mario Filipe Cavalcanti