As angústias existenciais na obra “Homem Comum”, de Philip Roth

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O Homem Comum, como em outros romances de Roth, segue uma tradição muito peculiar e rica na arte em geral, que é a do sujeito adulto passando em revisão a sua vida e pinçando aqui e ali as suas frustrações e arrependimentos

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Siri Hustvedt, escritora norte-americana, em O Verão Sem Homens, descreve com muita sensibilidade a percepção de uma mulher madura – em crise conjugal e recuperando-se de uma depressão –, sobre a velhice, num condomínio de idosos em Minesotta, onde mora a mãe. No convívio com a constelação de dificuldades que permeiam a fase última da vida, a protagonista observa: “Só o velho tem acesso à brevidade da vida, o jovem experimenta o futuro como infinito e vê o adulto como membro de outra espécie”.

Essa maneira muito delicada de construção da alteridade acaba se destacando na obra e desnudando uma perspectiva de superação no processo de autodescobrimento.

A literatura tem essa capacidade inerente de, por um tempo relativo, nos colocar no lugar do outro e nos emprestar toda carga de emoções que permeia os personagens. E isso é, sem dúvida, uma das suas qualidades mais marcantes e que ajudam a compor os nossos próprios sentimentos e contribuir para a nossa condição humana.

9788535910872Essa introdução foi feita para situar o estado da arte onde se encontra a obra Homem Comum, de Philip Roth (Companhia das Letras, 2007). Escritor judeu nascido em 1933, o americano de Nova Jersey é reconhecido como um dos principais escritores dos Estados Unidos desde a segunda metade do século XX e tem uma extensa obra literária que se iniciou a partir de 1959.
As palavras reflexivas do protagonista cujo nome nunca é revelado, “quando a gente é jovem, é o exterior do corpo que é importante, a aparência externa. Quando envelhecemos, é o que está dentro que importa, e as pessoas não ligam mais para a aparência”, são algumas de um verdadeiro arsenal de lamentações, constatações e de enfrentamentos que acompanham o olhar crítico do personagem acerca da vida.

A cadeia de eventos que emerge da trama tem origem no cemitério onde o protagonista está sendo sepultado. Estão presentes ex-colegas de trabalho, os filhos, uma das suas ex-mulheres, o irmão e a cunhada. A delicadeza e sensibilidade da sua única filha, a vitalidade do seu irmão e a afetação dos dois filhos do primeiro casamento são alguns movimentos que nos intrigam inicialmente e que são explicados no decorrer da história.

O enredo é o seguinte: o homem comum, que acaba de ser sepultado, é um homem que, ao longo da vida, construiu uma trajetória bem peculiar em relação ao seu tempo e à sua classe social. Teve três casamentos e a mesma quantidade de filhos. Dois no primeiro e um no segundo. O terceiro “se fundara no desejo insaciável que sentia por uma mulher que nada tinha a ver com ele, porém o desejo jamais havia perdido o poder de cegá-lo e o levou, aos cinquenta anos, a agir como um jovem”. Naquilo que exigia uma conduta racional, a sua trajetória profissional, teve um êxito inquestionável. No âmbito das decisões nubladas pela irracionalidade, contudo, sobra um vasto campo nutrido de lamentações.

Ele vai resgatando momentos marcantes da sua história e entronizando nesse processo amarguras, frustrações, ambições e momentos intensos.

O que é mais incomum no protagonista, embora não tão incomum assim, e que ajuda a tecer a força da sua angústia, é a série de intervenções cirúrgicas a que foi submetido desde cedo, diferentemente do irmão, cujo sucesso profissional é de uma imensidão tão semelhante quanto a sua estonteante vivacidade. Sua lamuriosa resignação é latente: “O jeito é enfrentar. Segurar as pontas e enfrentar. Não há outra saída”.

O Homem Comum, como em outros romances de Roth, segue uma tradição muito peculiar e rica na arte em geral, que é a do sujeito adulto passando em revisão a sua vida e pinçando aqui e ali as suas frustrações e arrependimentos. Isso para uma pessoa mais inexperiente tem uma força única e a capacidade de provocar reflexões mais exigentes sobre a forma como se vive.

Um clássico nesse sentido é A morte de Ivan Ilitch e toda a amargura do magistrado que, imaginando-se galgando a montanha da vida, na realidade a descia. Em Roth, contudo, o protagonista ousou enfrentar as convenções sociais, mas já estava suficientemente preso em suas densas teias, com casamento e filhos, quando decidiu rompê-las e cujos reflexos foram duradouros.

Somos colocados no lugar do homem comum que observa um amigo outrora tão cheio de vida e que enfrentando os ardores da idade “não podia mais cortar uma bola de tênis, pilotar um iate ou um avião”, que invejava e por isso se afastara do irmão por sua saúde de ferro, que olhava as mulheres mais jovens com fervor e recebia como resposta “sorrisos profissionalmente inocentes”.

Philip Roth, com sua escrita que flui com imensa facilidade e com uma carga de emoção que se destaca sem artificialidade, consegue promover a identificação do leitor com o protagonista. Faz-se assim tão intenso quanto angustiante.