As polêmicas na nova edição de “Casa de Alvenaria”, de Carolina Maria de Jesus

A reedição da obra de Carolina Maria de Jesus suscita algumas polêmicas referentes à linguagem e sua relação com o jornalista que a publicou.

Carolina Maria de Jesus: foto reprodução

As negociações para a nova edição

Não é de hoje que Vera Eunice, filha da escritora Carolina Maria de Jesus lamenta, em entrevistas e eventos, sobre o estado de conservação e divulgação da obra de sua mãe. Partes dos originais, por exemplo, encontram-se em Sacramento, cidade natal da autora. Foram doados com a promessa da construção de um museu que ajudasse a perpetuar o legado da mãe, algo que encontra-se distante da concretização.

Nos últimos anos, porém, algumas negociações avançaram. Elas começam a dar frutos agora, com a republicação do Casa de Alvenaria a partir dos originais que Vera Eunice recuperou em Sacramento. Só estavam à espera de uma edição atenta e antenada com o potencial da obra de Carolina para as discussões do século XXI.

O conteúdo

A obra contempla, na nova edição, o período entre 1960 e 1963, onde marca o momento posterior ao fim de Quarto de Despejo, quando a autora se prepara para assinar o contrato da venda de seus diários, recebendo um valor que lhe permite sair de seu barraco na favela do Canindé e, então, vai à casa de alvenaria do título.

O diário explora todo o deslumbramento inicial desse processo e a posterior decepção com a mudança de vida, que extinguiu de seus dias o terror da fome, mas trouxe, sob outra ótica (e às vezes com até mais ênfase), a noção do preconceito e da exclusão social voltada a uma pessoa como ela.

A polêmica

A nova publicação levantou alguns debates que possuem relação com essa condição. Carolina, como se sabe, estudou formalmente apenas durante os primeiros anos do ensino básico, o que fazia com que seus textos trouxessem, originalmente, marcas de um afastamento da norma culta. Afinal, o que fazer com essa questão?

Alguns, como Vera Eunice e a escritora Conceição Evaristo, integrantes da equipe de curadoria da nova edição, sustentam que sua escrita deve ser mantida como no original, de forma justamente para preservar sua realidade – como uma espécie de testemunha dos desafios que uma mulher como Carolina enfrentou até o reconhecimento como escritora.

Evaristo chegou até mesmo a questionar, na televisão, o motivo das palavras escritas de forma não usual são entendidas como neologismos em textos de Guimarães Rosa, mas não nos de Carolina Maria de Jesus. Já a professora Regina Dalcastagnè, nome relevante na defesa de escritoras excluídas ou minimizadas no cânone brasileiro, argumentam que o expediente de manter incorreções ortográficas apenas exotiza ainda mais a autora, impedindo que ela seja tratada como qualquer outro autor brasileiro.

Nomes como o escritor Sérgio Rodrigues levantam a busca de Carolina por uma escrita que soasse elevada como uma razão para as correções, além da própria adoção do texto em escolas, espaços onde a escrita costuma circular de acordo com a norma culta (quando os autores assim intencionam produzi-la).

A relação com o jornalista Audálio Dantas

São todas ponderações interessantes e que dialogam muito com o momento presente, em que o status de Carolina como escritora é bastante diferente daquele que a consagrou na década de 1960. Uma segunda questão latente é a participação de Audálio Dantas nesse processo. No próprio texto, a relação de Carolina com o jornalista que levou seus textos a serem publicados mostra-se ambígua.

Há passagens em que sua figura é vista como capital para a publicação dos diários, com agradecimentos efusivos da autora; outras já revelam alguns atritos, onde Carolina revela ter a sensação de estar sendo direcionada e obrigada a continuar escrevendo nos mesmos moldes, enquanto gostaria de produzir músicas e novelas para o rádio, por exemplo.

Esses elementos questionáveis da relação de Audálio e Carolina acabam ganhando algum destaque nos prefácios da nova edição, transformando a figura do jornalista, como sugere a professora e escritora Dirce do Amarante, em uma espécie de vilão.

É uma situação delicada. Vera Eunice assume a voz de alguns pesquisadores que sustentam que foi Carolina quem “descobriu” Audálio Dantas, já que escrevia desde a década de 1940, apesar de nunca ter conseguido publicar seus cadernos.

Sem dúvida, é uma posição que dialoga com os tempos atuais, em que a voz e a atuação de sujeitos marginalizados ganham o seu protagonismo merecido. Por outro lado, corre o risco de inferiorizar a contraparte dessa relação, promovendo, talvez, um revisionismo que desafie a forma como o contato entre ambos de fato ocorreu. O que fazer nesse caso? Será preciso fazer recuar o jornalista para exaltar a escritora?

A importância do debate

As polêmicas sobre essas temáticas (e sobre outras que ainda venham a surgir) certamente não se esgotarão neste texto, além de estarem longe de um consenso acadêmico ou social. É importante, contudo, que sejam levantadas e debatidas, considerando o caso singular de Carolina Maria de Jesus em nosso cânone literário.

Podemos dizer que algo, no entanto, é incontestável: a potência do texto da autora, que interpreta e recria a realidade brasileira de maneira tão autêntica faz dela um nome que enriquece e engrandece a pluralidade da nossa literatura.

Referências

JESUS, Carolina Maria de. Casa de Alvenaria. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
RODRIGUES, Sérgio. A língua de Carolina. Folha de São Paulo. São Paulo, 18 ago. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/sergio-rodrigues/2021/08/a-lingua-de-carolina.shtml
MACIEL, Nahima. ‘Casa de Alvenaria’, de Carolina Maria de Jesus, recupera diário da escritora. Correio Braziliense. Brasília, 17 ago. 2021. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/08/4944037-casa-de-alvenaria-de-carolina-de-jesus-recupera-diario-da-escritora.html
AMARANTE, Dirce Waltrick do. Audálio Dantas é injustamente rebaixado a vilão em ‘Casa de Alvenaria’. Portal Terra. São Paulo, 23 ago. 2021. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/audalio-dantas-e-injustamente-rebaixado-a-vilao-em-casa-de-alvenaria,1c1cd4c23561a2c14ba4df8a39d774ceidnloe34.html
EVARISTO, Conceição. Entrevista ao programa Roda Viva. TV Cultura. São Paulo, Ago. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Wnu2mUpHwAw

Carolina Prospero
Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.
Carolina Prospero
Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.
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