Assassinos por natureza

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Keanu Reeves incorpora magistralmente a imagem do assassino por natureza desperto pela fúria que só será aplacada quando todos que lhe tiraram a oportunidade duma vida pacífica estiverem no necrotério

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Final de ano é um tempo de férias (relativas, no meu caso) dedicado a leituras encalhadas, títulos que incorporam uma fila que só aumenta. Decidi me concentrar em outra crescente lista nessa transição festiva entre 2015 e 2016: a de filmes no Netflix.

Foi uma média de três a quatro longas por dia, além duma série finalmente terminada – Narcos, com a monstruosa (esse talvez seja o adjetivo mais utilizado pelos críticos, mas não consegui fugir dele) atuação de Wagner Moura. Literatura mesmo, li pouco. Nessas oportunidades, fiquei dividido entre O Evangelho segundo Jesus Cristo de Saramago e o Sandman de Neil Gaiman. Ainda assim, como todo viciado em livros, meti-me a fazer pontes entre uma mídia e outra. Créditos ao professor Zaga, já mencionado aqui, que incitava seus alunos a fazerem essas relações. Mesmo não sendo mais seu discente, ainda sou seguidor de seus ensinamentos.

O romance policial, apesar de possuir uma estrutura clássica, apresenta variações no seu modo de narrar. Pode ser mais lento e analítico, como no caso de Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, ou mais cru e veloz, como em Raymond Chandler e James Ellroy. Gosto de ambos, mas a pegada pulp fiction do segundo é a que mais me atrai. O roman noir no estilo hardboiled tem diálogos rápidos como um jab do Muhammad Ali, narrativas afiadas feito uma machete e frases curtas que são disparadas como tiros de Beretta .765. Impossível não se lembrar d’O seminarista de Rubem Fonseca, história alucinante sobre um ex-matador de aluguel que volta à ativa para vingar a morte da amada. Nessa maratona de filmes, encontrei um thriller parecido: John Wick (em português foi intitulado como De Volta ao Jogo).

John Wick
Cena do filme John Wick (2014), dirigido por Chad Stahelski e David Leitch

Lançado em 2014 e dirigido por Chad Stahelski, tem Keanu Reeves no papel do personagem-título, um ex-mafioso que abandonou o crime por amor. Quando sua mulher sucumbe a uma doença, John fica mais vulnerável do que nunca. Sobram-lhe duas paixões, duas fragilidades em seu alicerce abalado: um Mustang 1969 e um cãozinho deixado como herança por sua esposa, itens que lhe são tirados por Iosef Tarasov (Alfie Allen), filho de Viggo Tarasov (Michael Nyqvist), chefe da máfia russa. É o estopim para que John Wick encare todo esse submundo sozinho, valendo-se da reputação de quem “matou três homens num bar com apenas um lápis”.

O ritmo frenético lembra Colateral, de Michael Mann. A temática mafiosa remete ao também atual Senhores do Crime, de David Cronenberg. A cenas são embaladas por música eletrônica e rock pesados. Killing Strangers, do excelente álbum The Pale Emperor, de Marilyn Manson, tematiza um dos momentos cruciais do filme. Keanu Reeves incorpora magistralmente a imagem do assassino por natureza desperto pela fúria que só será aplacada quando todos que lhe tiraram a oportunidade duma vida pacífica estiverem no necrotério. Ou quando sua mulher voltar para seus braços – o que sabemos ser impossível.

Em Kill Bill Vol. 2, o personagem de David Carradine explica a Beatrix Kiddo que, assim como o Superman, ela é alguém que se disfarça de cidadã comum, quando na verdade seu maior talento é ser uma assassina. Essa teoria de Tarantino cai como uma luva tanto para o matador de aluguel de Rubem Fonseca como para John Wick. A morte de um ente querido é apenas uma desculpa para justificar o que eles realmente são e gostam de fazer.