Batman e o heroísmo de nosso lado sombrio

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A novelização do game Batman: Arkham Knight, por Marv Wolfman, começa como um thriller e se torna um suspense psicológico – como o herói mais sombrio merece.

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Vejo Gotham como um lugar escuro, em que o sol nunca aparece, nem as nuvens são brancas. A cidade é cheia de recessos sombrios, becos que representam os cantos mais escuros de nossas imaginações, onde soterramos obsessões, medos e tudo aquilo que nos faz temer a nós mesmo. Ocultos pelos prédios cinzentos e suas quinas gárgulas empoleiradas, estupros, assassinatos, assaltos e os piores crimes acontecem – uma Gotham bem diferente da colorida apresentada pelo seriado da Fox recentemente.

É um lugar de loucura. Não à toa o herói desta cidade é um sujeito sombrio: Batman.

Este universo que vem dos quadrinhos, dos filmes e dos games, talvez, nunca tenha tão sido bem representado como em Batman: Arkham Knight, de Marv Wolfman (Darkside, 2016).

“Batman acelerou através da loucura de uma cidade à beira do abismo – como se ela estivesse assim por mais anos do que ele pôde contar. E, conforme passava pelas turbas barulhentas de cidadãos apavorados, temia que o Espantalho finalmente tivesse dado o empurrão que faltava.”

Na obra, baseada no game, temos a recente cremação do Coringa, o que deixa um vácuo na vilania da cidade. O terror continua. Mesmo o comissário Gordon teme que tipos de crimes virão. Surge então o Espantalho ameaçando aspergir pela cidade sua toxina do medo. A trama avança com Batman investigando o caso quase como em um romance policial, um thriller, no qual o homem-morcego enfrenta diferentes desafios à cada nova pista.

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Nada demais, correto? Até aí, eu também pensei assim.

A questão é que Batman não está bem. Sejamos sinceros, este playboy que veste uma fantasia e sai por aí se pendurando à noite nunca foi digno de ser considerado são. As inúmeras teorias de que o Coringa só existe porque há um Batman parecem reafirmadas no decorrer desta trama. Por exemplo, quando Gordon afirma que por causa do justiceiro, o nível dos bandidos se elevou muito, de forma que a polícia não tem como alcançá-los. Fato é que a grande batalha de Batman não acontece externamente (ainda que Gotham nunca tenha chegado tão perto da destruição, como chega neste livro), mas sim ao precisar vencer os traumas que carrega dentro de sua cabeça, seu Coringa, ou seus Coringas, que nunca deixam de atormentá-lo – assim como outro personagem, um fantasma que ressurge do passado, conhecendo todos os seus truques.

Minha teoria pessoal é de que não gostamos de admitir, mas nos identificamos com Batman por causa de nossas perturbações. O Super Homem é um cara muito nobre, mas gente como ele não existe na vida real (estou falando de personalidade, é claro). Agora quem de nós não possui seus lados sombrios? Coisas que parecem não nos permitir irmos adiante? Ou até mesmo batalhas em nossas mentes que precisam ser vencidas?

Fato é que Batman: Arkham Knight, de Marv Wolfman, foi uma grata surpresa. Entretém, possui camadas. Não será um clássico, mas com certeza entrega mais do que podemos esperar de um livro de super-heróis.

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