Cinema + Literatura: The Last Station, para fugir do mundo com Tolstói

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Tolstói em The Last Station

Quando você se propõe a assistir The Last Station (ou em português: A Última Estação), logo se lembra da frase inicial de Ana Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Mas neste caso, a frase se aplica ao próprio escritor, Liev Tolstói, e seus últimos dias de vida.

O filme, que se baseia no romance biográfico homônimo, escrito por Jay Parini, estreou em 2009 no Festival de Filmes de Telluride. Com direção de Michael Hoffman, apenas no começo de 2010 estreou na Alemanha (onde foi filmada a obra), após a repercussão positiva da crítica.

A história se passa em 1910, o último ano de vida do russo Liev Tostói (Christopher Plummer), na época, o escritor mais conhecido do mundo, quando os “tolstoianos”, discípulos de Tolstói, digladiam com Sophia Tolstaya (Helen Mirren), a esposa do escritor, pelos direitos da obra dele. Vladimir Chertkov (Paul Giamatti) está em prisão domiciliar, impossibilitado de convencer Tolstói a doar para a posteridade os direitos autorais de seus livros. Tolstoiano ferrenho, até mesmo proposto no filme como alguém que pretende elevar o escritor ao patamar de profeta, Chertkov contrata o jovem Valentin Fedorovich Bulgakov (James McAvoy) para ser secretário particular de seu amigo – na verdade, com o intuito de vigiar os passos de Sophia. O jovem é um verdadeiro “devoto” de Tolstói, como o próprio escritor acaba lhe dizendo: “Você é mais tolstoiano do que eu”. Este trecho, específico, acontece num diálogo em que Bulgakov conversa com Tolstói a respeito da sexualidade, já que se interessa por Masha (Kerry Condon), embora este sentimento vá de encontro com um ensinamento de seu mestre, que desdenha as relações sexuais. Pouco a pouco, através dos olhos de Bulgakov, a quem o espectador acompanha durante todo o filme, vê-se menos a imagem de um Tolstói santo, e mais a de um verdadeiro ser humano, ainda que grande escritor.

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Liev Tolstói e sua esposa Sophia

O dilema

Além de ser o verdadeiro protagonista do filme, o jovem Bulgakov é quem enfrenta o dilema moral sobre o que fazer com os direitos autorais de seu mestre. Ele não pode interferir, porque lida com a dramática Sophia, que alega ser detentora destes direitos, pois são casados há quarenta e oito anos. Doutra perspectiva, Bulgakov foi contratado por Chertkov, cuja devoção a Tolstói é incontestável (chamado até de pederasta por Sophia), mas que no decorrer do tempo, vai ganhando contornos de segundas intenções.

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Quando Bulgakov encontra Tolstói pela primeira vez

O jovem enfrenta sua própria crise ao ceder aos seus instintos e trair a filosofia de Tolstói. Em certo momento, Chertkov então se vinga de Bulgakov, enviando Masha a Moscou, para longe do secretário.

Dentre ficar ao lado de Tolstói, cada vez mais debilitado, e seguir o amor de sua vida, iniciativa que parece ter o apoio de Sophia, Bulgakov precisa decidir.

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Masha e Bulgakov

A última estação

Mesmo que o filme acabe despindo a imagem de Tolstói como santo, o que resta é outra idealização, a do escritor feliz, de bom humor, que parece encantado com a vida. O que lhe aborrece é o comportamento de sua família, apenas de olho em sua herança. Tanto tempo convivendo juntos, mas não aderiram aos princípios tolstoianos – rejeição da propriedade privada e da aristocracia da religião. Tolstói gostaria de confeccionar suas próprias roupas, ter um estilo simples de viver, mas sua esposa é dramática, alegando os mais absurdos motivos para que os dois continuem vivendo na Yasnaya Polyana, a propriedade rural deles.

Aos oitenta e dois anos, com tuberculose, Tolstói decide sair de casa. Foge em meio à madrugada, deixando esposa e bens para trás.

No filme, esta cena, supostamente a última, precede momentos muito emocionantes, numa boa jogada do roteirista, tornando A última estação, Astapor, o cenário ideal para um grand finale.

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Bulgakov e Tolstói no último momento antes da partida

Considerações finais

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Pôster do filme

Cabe ainda dizer que a direção de fotografia do filme é incrível (nada de Rússia sombria), e a trilha sonora realmente complementa o trabalho visual.

Poucas vezes se pode dizer isso de um filme que trata de literatura, mas The Last Station fez jus à importância de Liev Tolstói, sendo um verdadeiro presente para os amantes dos livros.

Dá até vontade de bater um papo com o bom velhinho da barba longa. O russo, claro.

 

Assista ao trailer para sentir um gostinho do filme: