Frankenstein: uma energia que corre há duzentos anos

Frankenstein
‘Frankenstein’, imagem do filme clássico de 1931

Apesar de ter adquirido boa notoriedade com ensaios e contos publicados em vários veículos como Keepsake e Westminster Review, foi pelo romance Frankenstein que Mary Shelley (1797-1851) imprimiu sua marca indelével na literatura mundial.

Nascida em Londres, filha da eminente pensadora Mary Wollstonecraft e do filósofo William Godwin, Mary Shelley veio à luz num ambiente bastante favorável a um bom desenvolvimento intelectual e artístico. M. Wollstonecraft foi grande defensora da igualdade entre os sexos no século 18, tendo escrito a importante obra Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher (A Vindication of the Rights of Woman). Apesar de ter morrido quando a filha contava apenas onze dias de vida, certamente a influenciou através de seus escritos, os quais consideravam que as mulheres deveriam exercer suas potencialidades livremente. Tal ideia, bastante avançada para a época, com certeza também era partilhada pelo pai de Mary Shelley: William Godwin. Este é considerado até hoje como um precursor do Anarquismo, movimento político que iria surgir apenas na segunda metade do século 19, mas que tem pontos de convergência com o pensamento de Godwin, expresso principalmente em seu livro Um Inquérito Acerca da Justiça Política (An Enquiry Concerning Political Justice), de 1793.

Frankenstein nasceu duma brincadeira provavelmente proposta pelo poeta Lord Byron (1788-1824). Mary e seu marido Percy Shelley estavam passando um feriado em Genebra (Suíça) no ano de 1816, hospedados em companhia de Byron. Já que um tempo chuvoso não permitia passeios ao ar livre, para vencer o tédio foi lançado o desafio de quem dentre eles escreveria a história mais aterrorizante. O conto escrito naquela ocasião por Mary Shelley foi considerado por todos como indubitavelmente o melhor. Essa história se ampliaria para dar origem ao romance Frankenstein, publicado em 1818.

 

De que trata o livro Frankenstein

No início do livro, a narrativa é feita pelo personagem Capitão Robert Walton. Esse prólogo compõe-se de três cartas do capitão à sua irmã Margareth, nas quais é relatado o vislumbre dum monstro em meio a geleiras. Antes de o navio conseguir se desprender do gelo no qual encalhara, é resgatado um homem doente, que perambulava sozinho sobre a neve. E é esse convalescente personagem, abrigado num dos alojamentos do navio, que se torna narrador a partir desse ponto. Logo ficamos sabendo que é ele o cientista Victor Frankenstein, cujo sobrenome dá título ao romance.

São interessantes, na estrutura da obra, a multiplicidade de vozes e a narração não-linear que alimenta a curiosidade de quem lê. De início temos Robert Walton relatando o encontro do monstro: estratégia que prende a atenção do leitor sobre a identidade da criatura. Só depois o cientista resgatado começa a contar sua vida desde a infância, o que nos dá uma caracterização dele e dos demais personagens da história, sem que percamos o interesse, pois já fomos de antemão seduzidos pelo mistério acerca do monstro visto na neve. Mistério que será desvelado aos poucos a partir do que Victor for contando ao capitão (e a nós, na verdade).

Frankenstein tem uma irmã adotiva (Elizabeth) a quem aprende a se referir como “prima”, o que insinua a vontade dos pais em vê-los casados na idade adulta. Tem ainda um irmão mais novo chamado William e o grande amigo Henry Clerval, de quem se afasta para estudar ciências na faculdade de Ingolstadt. Todos terão destinos trágicos como consequência duma ousada criação de Victor.

Longe da família, ele forja uma criatura a partir de fragmentos de cadáveres. Consegue animar esse ser a partir de uma centelha de vida, numa noite de tempestade. Porém, ao contrário do que é mostrado em muitas adaptações cinematográficas do livro, não é relatado que um raio atingiu a criatura, acordando-a. Só existe a sugestão de que o despertar do monstro se dera por algum fenômeno ligado a eletricidade.

Vitor irá ignorar o que se passou posteriormente com a criatura a quem dera vida. Seremos mantidos um tempo na mesma inconsciência do cientista, que fugira ao ver o despertar do monstro. A romancista, assim, consegue mais uma vez imprimir mistério à trama. Cartas de Elizabeth e do pai de V. Frankenstein vão relatando crimes dos quais não se sabe a autoria. Seriam obras do monstro? Mas como e por que ele se aproximaria da família Frankenstein, distante da cidade universitária em que despertara para a vida?

Essas questões só vão sendo elucidadas aos poucos, quando o próprio monstro se torna – também ele – narrador, a partir de um encontro em que confessa suas atrocidades para Victor.

Nesse ponto surge a ideia da criação de outro monstro, dessa vez do sexo feminino, o que traz à tona uma série de questões interessantes. E se o casal monstruoso procriasse e desse origem a uma nova raça inteligente sobre a terra?

 

Frankenstein, a Bíblia e a moral

Vemos que Mary Shelley criou uma obra que, entre outros méritos, questiona a moralidade e a responsabilidade da ciência. Com efeito, é possível lermos o romance atentando para aspectos éticos, refletindo sobre questões científicas que só aportariam à sociedade muito depois, como as polêmicas em torno da clonagem e das pesquisas com células-tronco.

No romance, encontramos, ainda, referências religiosas e míticas. Por meio de alusões ao livro de Gênesis, somos levados a pensar sobre a interdição bíblica de se provar do fruto proibido, que é justamente o da árvore do conhecimento. Na Bíblia o homem é tentado a se tornar como Deus, e esta não seria – no fundo – a mesma tentação de Victor Frankenstein ao querer criar vida em seu laboratório? As analogias possíveis com a narrativa judaico-cristã não param aí, pois – tal como Adão – o monstro também pede, a seu criador, que crie uma companheira. O mito de Lúcifer também é aludido quando a criatura reclama de sua enorme solidão, como lemos no capítulo XV: “O próprio Satã tinha seus companheiros, demônios como ele, que o seguiam e encorajavam, mas eu sou absolutamente solitário”.

Pode-se também ter como enfoque de leitura o questionamento sobre a origem das condutas delituosas. O monstro não nascera malvado (nem tampouco virtuoso), simplesmente foi aprendendo a partir da observação do mundo. Após ser hostilizado por causa de sua aparência grotesca é que começara a enveredar pelo caminho do crime. Quando apenas observava os seres humanos, escondido, ele se inclinava em ajudá-los, não por causa de alguma “bondade inata”, mas na esperança de também ser ajudado ou vir a interagir num ambiente harmônico. Era, mais ou menos, o que propugnariam os anarquistas mais tarde: uma convivência harmônica entre os diferentes – um tanto parecido com as propostas de Wiliam Godwin, pai da autora.

 

Pioneirismo e inovação do livro

O pioneirismo do livro, além dos aspectos até aqui apontados, também é notório por ter dado origem a toda uma linha da literatura de horror e de ficção científica, bastante explorada até hoje, das mais variadas formas. Narrativas futuristas acerca de alguma inteligência artificial que ameaçaria a supremacia do ser humano na terra não teriam algum parentesco com o livro de Shelley? E quanto aos mortos que voltam à vida em tantos enredos de terror? Estes, aliás, não têm, em absoluto, a qualidade artística do texto de Mary.

É impressionante a capacidade imaginativa da autora, que escreveu um romance não simplesmente baseado numa lenda aterrorizante já existente (como no caso dos livros sobre vampiros), mas deu à luz uma criatura realmente original.

Além dessa excepcional capacidade de fabulação, o romance também impressiona pela complexa estrutura. Quando a voz do cientista Victor Frankestein se cala em definitivo, o capitão Robert Waltman retoma a narrativa de maneira perfeitamente natural. Afinal era ele que – no fundo – escrevia tudo: o capitão escreve à irmã o que o cientista falou, e este, por sua vez, o que lera em cartas ou ouvira do monstro. São narrativas dentro de outras, num engenhoso jogo de sobreposições.

E pensar que foi de um mero jogo privado de alguns jovens intelectuais do início do século 19, numa noite de tempestade, que veio a eletricidade a dar vida para a criação de Mary Shelley. Esta infundiu, por meio de seu talento, a centelha de vida que Victor Frankenstein transmitiria à sua criatura, e depois a cada geração leitora ao longo desses dois séculos.

 

FONTES:

Biografia de Mary Shelley, de Dilva Frazão, em E-biograria, acesso em: 29/04/18

Mary Shelley, de Thaciane Rollemberg Ramos, em Infoescola, acesso em: 29/04/18

Frankenstein, de Mary Shelley, tradução de Éverton Ralph, publicada por Ediouro, RJ, s/d.

Winter Bastos Author

Autor do livro de crítica literária Malandragem, Revolta e Anarquia: João Antônio, Antônio Fraga e Lima Barreto (Editora Achiamé, 2005). Em 2011, recebeu menção honrosa no IX Concurso Municipal de Conto – Prêmio Prefeitura de Niterói com "O Anão", posteriormente publicado. Em 2013, obteve menção honrosa no 7º Prêmio UFF de Literatura, com o conto "(Des)encontro", incluído em antologia publicada pela EdUFF. Em 2016 ganhou primeiro lugar no 2º concurso de contos promovido pelo Centro Literário e Artístico da Região Oceânica de Niterói (CLARON). Já em 2017, recebeu 2º lugar com o conto "A Prova", no III Festival do CLARON. No Concurso Literário Bram Stoker (contos de terror), foi contemplado com o décimo lugar em 2018.