As vicissitudes do amor em ‘Identidade’, de Milan Kundera

Conheça o livro 'Identidade', de Milan Kundera

As vicissitudes do amor está presente em diversas obras do escritor Milan Kundera. Desde o seu primeiro romance A brincadeira [La plaisanterie], publicado em 1967, o autor possibilita aos leitores enxergar por diversos ângulos a fragilidade dos vínculos amorosos, o risível dos desejos eróticos e a busca dos casais para superar a insegurança existencial de suas identidades. Como afirmara Albert Camus (1913-1960) no importante ensaio A inteligência e o cadafalso[i], “ser clássico é ao mesmo tempo repetir-se e saber se repetir. É essa a diferença que vejo em relação a outras literaturas romanescas, em que a inteligência inspira a obra”[ii].

Como leitor contumaz de Milan Kundera, franco admirador, vejo que a temática dos vínculos amorosos é sempre retomada, repetida, retrabalhada, exatamente como Camus considerava que seria um autor clássico.

No Brasil, seus livros começaram a ser editados pela Nova Fronteira em 1984. Tratava-se exatamente do popular A insustentável leveza do ser, que permaneceu por meses no primeiro lugar das listas dos mais vendidos. Ainda hoje, o autor é reconhecido e lembrado sobretudo por essa obra, que de fato alcançou extrema popularidade, por causa do filme homônimo dirigido por Philip Kaufman, o qual por sua vez foi indicado ao Oscar e também conquistou outros prêmios como, p. ex., o BFTA de melhor roteiro adaptado.

Hoje quero indicar aos leitores Identidade, lançado há exatamente 21 anos, em 1997. Trata-se sobre o vínculo amoroso de Chantal e Jean-Marc, que vivem juntos no apartamento dela. Acredito que o fio condutor da narrativa é a problematização do quanto a identidade de ambas as personagens estão estruturadas pelo relacionamento. Um trecho magistral de A insustentável leveza do ser permitirá compreender esse ponto de partida:

“Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas ainda só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas […]. Porém, quando se conhecem numa idade mais madura, as suas partituras musicais já estão mais

ou menos acabadas e cada palavra, cada objeto, tem um significado diferente na partitura de cada uma”.

Ao estabelecer metáfora da partitura musical para referir-se à vida, no sentido em que a compomos em nosso trajeto existencial, está proposto que ao conhecermos companheiro ou companheira já em idade madura a possibilidade do vínculo amoroso ser frágil é muito maior. É exatamente por essa experiência que conhecemos Chantal e Jean-Marc. Não há pista de qual seria a idade de ambos, apenas que Chantal é uma publicitária de meia idade (gosto de imaginar 42 anos, já que estudos apontam que a meia idade começa aos 35 e termina aos 58 anos) e que ele é quatro anos mais novo. Ela já fora casada, e que o seu filho faleceu quando estava para completar cinco anos, fazendo que ela tomasse a decisão de mudar os rumos de sua vida:

“[…] ela agiu com determinação: primeiro quis voltar a trabalhar. Antes do nascimento do filho, lecionara num ginásio. Como o trabalho era mal pago, desistiu de retomá-lo e preferiu um emprego que não correspondia a seus desejos (ela gostava de lecionar) mas que era três vezes mais bem remunerado. Tinha a consciência pesada por revelar seu prazer por dinheiro, mas o que fazer? Era a única maneira de conseguir sua independência. […] Teve que espera alguns anos até encontrar Jean-Marc. Quinze dias depois, pediu divórcio ao marido perplexo”.

Deparamo-nos com Jean-Marc a todo momento a tentar compreender a identidade de sua amada. Sobretudo, pelo fato de que desde o início da narrativa, Chantal estar passando por uma crise existencial. Conforme pontua o narrador: “Por mais que dissesse que a amava e a achava bela, seu olhar amoroso não podia consolá-la”.

Gostaria que imaginássemos Jean-Marc e Chantal sob os signos de “fixação” e “flutuação“, conforme ambos são trabalhados pelo sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017).

Jean-Marc representaria a “fixação” por sua tentativa de preservar o relacionamento apesar da impossibilidade de controlá–lo. Ou seja, mesmo quando Jean-Marc envia as cartas anônimas, temos o

“esforço para emancipar o relacionamento de sentimentos erráticos e vacilantes, para assegurar que – aconteça o que acontecer com suas emoções – os parceiros continuem a beneficiar–se dos dons do amor: o interesse, o cuidado, a responsabilidade do outro parceiro. Um esforço para alcançar o estado em que se possa continuar recebendo sem dar mais, ou dando não mais do que o padrão estabelecido exige”[iii].

A mim parece que ele sempre está na busca de ordenar o caos, de modo que não ocorra fatos que “transforme a mulher amada em simulacro”. Já Chantal, pelas suas experiências anteriores está sob o signo da “flutuação”, no sentido em que não está disposta a fazer muitas concessões, busca-se escapar da insegurança mais do que se luta com ela. Pelo fato de ser publicitária, Chantal lida diariamente com o efêmero e perecível da sociedade consumista; por isso, podemos considerar que ao ter consciência da impossibilidade da durabilidade dos bens materiais ela se debate para não encarar que as relações humanas se pautam na mesma efemeridade. Mesmo assim, cinicamente reconhece ter duas caras: “Pois por quanto tempo ainda serei capaz de conservar minas duas caras? É extenuante. Vai chegar o dia em que terei apenas uma cara. A pior das duas, claro. A séria. A conformista”.

Precisamos entender aqui, duas caras no sentido em que no fetichismo da mercadoria cultural, os indivíduos perdem a capacidade de mediação e visão orgânica do mundo.

Deixo ao leitor que leia e pondere se este é um bom caminho para compreender essa saborosa narrativa de Milan Kundera. Contudo, uma coisa é certa: Chantal é, sem dúvida, uma mulher apaixonante. Seus dilemas representam nossos dilemas atuais, de indivíduos fragmentados e fortuitos. Chantal e Jean-Marc expressam, a rigor, liquidez atual dos laços humanos, materializada na ideia de que

“Investir no relacionamento é inseguro e tende a continuar sendo, mesmo que você deseje o contrário: é uma dor de cabeça, não um remédio. Na medida em que os relacionamentos são vistos como investimentos, como garantias de segurança e solução de seus problemas, eles parecem um jogo de cara-ou-coroa. A solidão produz insegurança — mas o relacionamento não parece fazer outra coisa. Numa relação, você pode sentir-se tão inseguro quanto sem ela, ou até pior. Só mudam os nomes que você dá à ansiedade”[iv].

 

[i] Presente no livro homônimo, editado pela Record, 4ª ed. 2018.
[ii] CAMUS, 2018, p. 18-19.
[iii] BAUMAN, Z. Ética pós–moderna. São Paulo: Paulus, 1997, p. 15
[iv] BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 23.

Rafael Lucas Santos da Silva Author

Possui Graduação em Letras Português/Espanhol e Respectivas Literaturas na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE.