A solidez do insólito: sobre os poemas de Juliana Gelmini

Insólito Sólido, primeira publicação de Juliana Gelmini, revela sensibilidade e senso estético notáveis 

Insólito Sólido
Juliana Gelmini, autora de Insólito Sólido

Os poemas de Insólito Sólido, de Juliana Gelmini, são pequenos na composição e grandes na significação. São, ainda, acompanhados por aquarelas desenhadas pela própria autora. Os títulos e subtítulos em si já nos fazem refletir: “Insólito sólido”, “Orvalhos orgânicos”, “Aguo”, “Meu coração estreme-céu”, “Memórias a secar”. A autora brinca com as palavras e nos convida a essa grande dança literária.

Sem medo de expor os autores que a inspiram, ela começa com uma menção a Virginia Woolf, fazendo uma citação direta de “Um Teto Todo Seu” e dedicando o livro “Aos gatos sem rabo e àqueles que sabem que as cores guardam segredos [e cheiros]”. Os “gatos sem rabo” são metáfora utilizada por Woolf para denunciar a falta de condições adequadas para a escrita feminina em sua época. As mulheres saem em desvantagem, são gatos sem rabo. Mas, na atualidade, o rabo parece estar crescendo, o empoderamento feminino luta por uma voz mais ativa. Daí a importância de divulgar mulheres escritoras (vide o projeto Leia Mulheres).

Passemos, então, ao conteúdo do livro de Juliana. A primeira parte se compõe de definições. Alguns exemplos merecem ser mencionados:

Amor
Palavra que beija o que toca

Medo
Quando o escuro de dentro
Abre os olhos…

Luz
Amarelo feito de afeto

Insônia
Quando o cansaço soca o sono

E por aí vai. Na segunda parte, predomina o elemento água – o que também remete às aquarelas. Chuvas em casa, neve nos sonhos, gotas nas páginas, uma singela homenagem a Manoel de Barros, grande poeta das coisas simples e à dor da escultora Camille Claudel, internada injustamente em um hospício após ter um caso com Rodin. O amor de Juliana é degradê, cheio de cores e formas. Os temas dos poemas são o amor, suas alegrias e tristezas, lembranças e a própria literatura, ressignificada. Há marcas de romantismo, surrealismo e bastante metalinguagem em seus escritos.

A segunda parte de Insólito Sólido é dedicada à prosa poética. Aqui, ela fala de sonhos e emoções através de metáforas com animais, cores, brilhos, livros e pessoas. Há mesmo um poema em formato de manual de instruções sobre como conversar com este ser – no caso, a própria autora?

Juliana admite-se romântica, fala de cartas, bebidas, encontros, desilusões, de maneira dramática, quando quer enfatizar a dor, ou leve, quando deseja ilustrar a magia do amor. Na terceira parte, predominam ainda as prosas poéticas. Ela brinca de ilusão, inventa uma cena cotidiana, descreve ações de criança, de flor, homenageia Caio Fernando Abreu com seus dragões que não conhecem o paraíso. Finaliza com o que parece ser uma memória de criança, envolvendo seu avô, bastante emocionante.

Enfim, Insólito Sólido,  de Juliana, toca a alma dos amantes de poesia. Ela dialoga com o leitor de maneira onírica, empírica, de peito aberto e espírito exposto. Recomendado para todas as idades, pois poesia não tem prazo de validade.

Fonte:

GELMINI, Juliana. Insólito Sólido. São Paulo: Patuá, 2017.

Nicole Ayres Author

É graduada em Letras port/francês pela Uerj. Apaixonada pelas palavras, desde que aprendeu a ler e a escrever, não parou mais. Amante da vida e das artes. De espírito quixotesco, ainda vai aproveitar a experiência de suas aventuras literárias para explorar o mundo. Mantém os pés no chão e a cabeça nas nuvens.