Intervalo: Férias de julho: 2/3 – Cláudia de Villar

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E seguem as férias de Belém.
E, chegando à cidadezinha pacata e distante de tudo, Belém dirigiu-se ao único hotel… Ou melhor, à única pensão que existia naquela cidade aconchegante e calorosa. O dia estava ensolarado e Belém já pensou em aproveitar esse dia para passear e fotografar bastante para fazer a tal pasta para o seu computador. Que bom não precisar dividir o seu quarto com outra pessoa. Enfim, suas férias iriam começar. Bem, férias, férias não eram, mas ela ainda podia contar com mais três dias esmagadinhos (quarta, quinta e sexta-feira).
E foi o que Belém fez tão logo deixou as suas malas no quarto. Saiu sem rumo pela cidade pacata. Porém, como nem tudo é perfeito, ao entrar numa lojinha para ver o artesanato daquela cidade, deu de cara com a mesma família que havia deixado para trás na cidade vizinha.
– Olha, pai, não é a tia louca que ficou conosco naquele hotel? – perguntou a criança.
– Sim, mas não a encare, ela é perigosa!
Belém, fingindo não conhecer aquelas pessoas, pegou a primeira peça que estava ao seu alcance e dirigiu-se ao caixa para pagar. Como a cidade era pequena, a moça do caixa, percebendo que ela era turista, resolveu perguntar:
– Boa tarde! A senhora não é daqui, não?
– Sim, não sou daqui.
Nesse instante, “a família” aproximou-se delas e parou perto das duas para ouvir a conversa.
– Espero que a senhora goste do local. É bem tranquilo por aqui.
– É o que eu estou procurando… Tranquilidade.
– O que a senhora faz?
Belém, já decidida em não dizer que era professora, nem deu bola para a família que já a conhecia e estava ali parada escutando tudo e respondeu, bem firme:
– Sou escritora.
– Nossa! Escritora! – a moça fez cara de espanto – É a primeira vez que a nossa cidade recebe a visita de uma escritora. Qual é o seu nome? Que tipo de livros a senhora escreve?
Belém não estava preparada para aquele interrogatório, mas como já havia começado, resolveu terminar de vez aquela conversa:
– Meu nome é Belém, escrevo para crianças. – pegou o embrulho das mãos da moça do caixa e saiu. – Tchau.
A moça ficou decepcionada. Queria saber mais sobre a vida dos escritores. Os mistérios que rondam as suas cabeças, mas Belém não havia deixado uma brecha para a conversa fluir. A família, nesse instante, resolveu se meter:
– Que escritora que nada, ela é professora!
– Como você sabe?
– Nós a conhecemos de outra cidade. Ela veio para cá fugida!!!
– Nossa! Será um caso de dupla personalidade? Será que ela é bipolar?!
Belém mal deu meia dúzia de passos e a criança da família alcançou-a:
– Oi, tia Belém! Que saudade!
Belém nem estava acreditando em sua falta de sorte.
– Olá, você por aqui?!  O que houve, por que vocês saíram da cidade em que estavam?
– Ah… Não sei. Titia Belém, o que é dupla personalidade?
– Querida, é mais ou menos assim: quando uma pessoa demonstra ser duas diferentes.
– Diferente como?
– Ora, sei lá… Diferente do que ela se apresenta.
A criança olhou Belém de cima a baixo e falou:
– Você é homem?
– Eu? Eu, não! De onde você tirou essa ideia?!
– Titia Belém, o que é bipolar?!
– Querida, eu não sou sua tia, não sou homem e também não sou bipolar! – e, virando-se para o laguinho em frente, Belém pegou a sua máquina fotográfica e pensou em se livrar daquela criaturinha e começar a fotografar os seus momentos felizes de lazer. – Vá lá com os seus pais, vá!
– Titia Belém, só mais uma pergunta…
– Ok – a criança não tinha culpa, era apenas uma criança curiosa, melhor saciar a sede de perguntas de uma vez -, faça a pergunta.
– A senhora é escritora?
Lembrou-se da mentira que falara à moça do caixa e decidiu continuar com a farsa:
– Sim, sou escritora de livros infantis.
– Titia Belém!!! A senhora não era professora?
– Sou professora e escritora (e prestes a me tornar uma homicida).
– Titia Belém!!! Quem é escritora e professora recebe duas vezes?
Belém, já perdendo toda a paciência que havia trazido na bagagem, respondeu bruscamente (sem perceber que os pais da menina se aproximavam delas):
– Não!!! Não recebe duas vezes! (oh, céus vou me afogar nesse laguinho).
A menina ficou um tempinho quieta. Belém até pensou que ela devia ter sido muito dura com aquela criaturinha, mas assim ela iria conseguir se livrar da chateação e iria poder aproveitar os seus três dias esmagadinhos de férias.
– Titia Belém!!! Se a senhora é escritora de livros infantis e dá aula para as crianças, a senhora deve gostar muito de crianças e como a senhora não veio para as suas férias com os seus filhos, posso concluir que a senhora não tem filhos. Por que a senhora não tem filhos, por quê?!?!
– Chega! Vá atucanar a sua mãe! – gritou Belém já pensando na possibilidade de suicídio.
– Filha, saia de perto dela! – disse o pai, puxando a filha para perto de si – Ela é uma psicopata, bipolar e tem dupla personalidade: finge que é professora para se aproximar das criancinhas, depois diz que é escritora para enfeitiçar com palavras doces e fantasiosas essas crianças e depois ela…
Belém nem ficou para esperar o final da frase (Precisava de uma dose de uísque para se acalmar). Pegou a sua máquina fotográfica (ainda sem fotos), voltou para a pensão, pegou suas coisas, fechou a sua conta e partiu, em disparada, daquela cidadezinha pacata e ensolarada.
No táxi (novamente), após refletir um pouco, ela solicitou ao taxista:
– Por favor, me leve para a cidade mais agitada que exista aqui por perto (certamente, numa cidade grande, não iria encontrar aquela família).
– Ok, senhora. Mas fica a um dia de viagem.
– Tudo bem.
Belém aproveitou para dormir. Sonhou com as fotos que iria fazer para a sua pasta. O pai daquela família apenas falou ao ver Belém partir:
– Eu não disse?! Quando a gente menos espera a gente se depara com essas doidas. Viu só, ela deve ser uma psicopata espiã. Veio exatamente para a cidade que estava em nosso roteiro de férias! Professora e escritora? Bem capaz? Professores e escritores são pessoas normais, calmos, reflexivos, pacientes, descontraídos, alegres, simpáticos… Essa daí é uma doida!
Aguardem! Semana que vem tem 3/3 de férias de julho.

Até o nosso próximo Intervalo.