Kindred: um livro de ficção científica sobre questões raciais

Em Kindred – Laços de sangue, a dama da ficção científica, Octavia E. Butler, conta uma história perturbadora sobre escravidão, racismo e ódio

Kindred Octavia E. Butler
Octavia E. Butler, autora de Kindred | Foto: autoria desconhecida

Kindred, de Octavia E. Butler, era pouco conhecido no Brasil até alguns meses atrás. O livro já tem mais de um milhão de cópias vendidas no mundo todo, mas só foi publicado recentemente pela editora Morro Branco. A obra é de tirar o fôlego e é impossível lê-la sem querer sair indicando aos amigos. Do mesmo modo é impossível terminar a leitura do livro e ser a mesma pessoa dele.

Antes de entrarmos nas questões temáticas que permeiam Kindred, é importante falarmos de Butler. A autora é considerada a grande dama da ficção científica. Foi a primeira mulher negra norte-americana a fazer sucesso no gênero, área da literatura grandemente dominada por homens brancos. Butler é filha de um engraxate e uma empregada doméstica. Desse modo, muito antes de ser uma grande representante da ficção científica, Butler teve de enfrentar a pobreza, a dislexia e o racismo, tanto na área universitária quanto no meio literário.

Faleceu em 2006, mas sua obra continua viva e constantemente lida, uma vez que toca em questões fundamentais para os dias atuais. Tais como: o racismo, a escravidão, a exclusão social, o direito das mulheres e a sexualidade.

 

Kindred: uma obra de ficção científica diferente e excelente

Não é incomum as pessoas pensarem em ficção científica com alguns estereótipos ou até mesmo rótulos: tem viagem no tempo, naves espaciais, aventura no espaço e armas potentes. Deixando de levar em conta a especificidade de cada obra e o lado social que ela pode apresentar.

Kindred – laços de sangue não só nos surpreende como também tira nosso fôlego e nos muda enquanto seres humanos. A obra apresenta a história de Dana, jovem mulher negra, que vive com seu companheiro branco, Kevin, ambos escritores no momento da narrativa. Levam uma vida comum até que Dana começa a viajar no tempo de modo inesperado, algo que vai além de qualquer desejo de controle.

Quando Dana começa a sentir tonturas e náuseas, acaba por viajar no tempo. O problema é que a personagem vai não para o futuro, como em parte das histórias de ficção científica. Ela vai direto aos EUA racista do século XIX. Época em que o país não só era racista quase num todo, mas também a época senhores brancos, donos de terras e escravos. Resumindo: um local muito perigoso para uma mulher, negra, instruída, culta e sozinha.

Aos poucos percebemo os motivos das várias viagens no tempo que a protagonista faz. As motivações envolvem sempre Rufe, um garoto ruivo que, sempre que está em perigo, traz Dana misteriosamente para o tempo no qual vive, retirando-a dos anos 70, período que ela vive com Kevin.

Cada viagem de Dana, em seu tempo, dura cerca de poucas horas, quando muito, poucos dias. O problema, ou melhor, o segundo problema nessa situação, é que o tempo no qual vive Rufe passa diferente. Quando Dana está nos EUA escravista, chega a passar algumas semanas, meses e até anos. Portanto, em suas aparições sempre está jovem, o que a faz ser chamada de bruxa e coisas do tipo.

 

Viagem no tempo e um tempo que passa de forma maluca, mas e daí?

A grande sacada do livro é mostrar como era o cotidiano escravista no século XIX. A partir do livro, vemos claramente que essa sociedade que conhecemos hoje é construída por injustiças e muito sangue negro.

Entre tantas questões existentes na obra, ela mostra como seria para uma pessoa negra, que vive no mundo moderno, lidar com situações de privação total de liberdade e direitos sociais. Dana era uma mulher livre, casada com um homem branco, trabalhou, era uma escritora e trajava peças de roupa modernas, como calças.

Dana teve de ter muita sabedoria para não sofrer tanta violência ou morrer. Quem acreditaria nela se dissesse que veio do futuro, que lá mulheres negras são livres e tem seus direitos? Precisou, portanto, cuidar-se para sobreviver e conseguir voltar para casa. Teve de se submeter a situações desumanas.

No entanto, mais do que mostrar Dana lutando para sobreviver em um ambiente totalmente hostil, no qual, para muitos, ela não passava de uma escrava estranha e metida a inteligente, o livro mostra como se portavam os brancos no século XIX. Por mais que Rufe tinha afeto verdadeiro por Dana, ele era um homem de seu tempo. Um homem branco, dono de uma fazenda, dono de escravos, autoritário e, na maioria das vezes, egoísta. Ele nunca deixou de lembrar a Dana que ela era negra e devia se portar enquanto tal, diante as regras existentes em suas terras e períodos, caso contrário sofreria.

Dana tem consciência de que sua situação não é tão simples e pensa em meios de acabar com seu sofrimento. Contudo, entende que tem uma missão com essas viagens no tempo: mudar positivamente, pelo menos um pouco, o curso das coisas.

Com esse livro, Octavia E. Butler nos faz encarar a escravidão e os dilemas raciais do século XIX. Mostra, por meio da ficção científica, um passado não tão distante e verdadeiramente cruel. Fruto da prepotência, arrogância e, sobretudo, do preconceito racial das pessoas brancas. É um novo ângulo de ver um período tomado pelo ódio e a desumanização.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestranda em Letras - Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela