Além das paredes conhecidas: 10 livros de viagem

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Literatura de viagem: dez livros que mais fizeram sucesso na literatura ocidental.

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Quando as férias se aproximam, a primeira coisa na qual pensamos é viajar. Sair do lugar onde se vive, trabalha e estuda acabou se tornando quase uma máxima para conseguirmos escapar da rotina que nos é imposta ao longo de onze meses. Claro que entramos naquele clichê de desbravar o desconhecido, ver outras culturas, aprender etc. Fato é que o brasileiro nunca viajou tanto, é só olhar as pesquisas – sendo pelo Brasil ou pelo exterior.

Na literatura, as narrativas de viagem são muito antigas e muitos são os motivos que as impulsionam. Se hoje em dia a viagem, em geral, é por turismo, há viagens por sobrevivência, trabalho, estudos, busca por uma mudança de vida, conquista de novas terras etc. E elas podem ser feitas a pé, de avião, por estrada ou por mares.

Essas narrativas de viagens e aventuras remontam a um tempo muito mais antigo do que os textos escritos, diretamente ligado à tradição oral. Mesmo a Odisseia, de Homero, já era possivelmente contada bem antes de sua compilação escrita. Há muito interesse nesse tipo de narrativa, pois, como diz Walter Benjamin (1994), um dos grupos de narradores que mais são respeitados pelos leitores é aquele que viaja e vive aventuras, pois quem o faz teria muito que contar.

Esse fetiche sobre a figura do herói que enfrenta grandes deslocamentos para viver suas aventuras e vencer suas batalhas parece, pelo menos inicialmente, estar ligado justamente com o modo de vida das sociedades mais primitivas, que eram nômades. Viviam em constantes mudanças buscando comida e segurança, para partir, após esgotarem-se os recursos da terra onde estavam, em uma nova jornada sem destino, novamente em busca de alimentos e caça. Após a descoberta da agricultura, o ser humano se tornou sedentário. Ele não tinha mais a necessidade de se mover constantemente em busca, agora poderia produzir o seu próprio alimento.

Contudo, parece ser da natureza humana o deslocamento, o homem se tornou sedentário, mas o sonho do movimento constante ainda o toma. Há alguns exemplos tanto na TV quanto no cinema. Em 2007, o ator e diretor Sean Penn realizou o filme Na Natureza Selvagem, que conta a história de um rapaz de classe média que abandona o conforto e a segurança com os pais e parte para uma jornada ao Alasca em busca de liberdade. O seriado Sobrenatural também conta a jornada de uma busca, porém um pouco diferente, visto que os protagonistas estão combatendo figuras da mitologia cristã, como espíritos, anjos e demônios, bem como deuses egípcios, gregos, orientais e escandinavos. Aqui eles têm um objetivo, procurar e destruir todo e qualquer monstro que eles encontrarem, mantendo viva a missão e a tradição da família. Mas o deslocamento espacial é necessário, uma vez que eles atravessam o país e vão inclusive ao Canadá e à Europa para atingir seus objetivos. Nessas caçadas, há também buscas, pelo sentido do próprio ato e da vida em si.

Da Odisseia de Ulisses a Almeida Garrett. De As Viagens de Guliver a On the Road e toda a geração beat. De Os Lusíadas à jangada saramaguiana. Das viagens de Marco Pólo ao Senhor dos Anéis, passando por Júlio Verne. Abaixo estão alguns exemplos de romances que se tornaram clássicos da literatura mundial e que têm em seu dorso um deslocamento espacial, que por sua vez é o fio condutor da narrativa. Boa viagem nessa infinidade de páginas!

 

1. ODISSEIA – HOMERO

Talvez o primeiro grande exemplo desse tipo de narrativa na literatura ocidental seja a Odisseia – há no oriente a Epopeia de Gilgamesh, obra que é considerada ainda mais antiga que a própria Ilíada –, epopeia atribuída a Homero que conta a saga do herói Ulisses na sua volta à Ítaca após o fim da guerra de Tróia. O personagem principal enfrenta intempéries na sua longa viagem de retorno, tanto que o termo odisseia pode ser usado hoje em língua portuguesa para designar qualquer viagem de longa duração ou de grandes dificuldades

 

2. ON THE ROAD: PÉ NA ESTRADA – JACK KEROUAC

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Filme On the road (2012), dirigido por Walter Salles

Um dos representantes dessa narrativa de viagem é On the Road, romance mais famoso da geração beat e fonte de inspiração de inúmeros outros livros e inúmeros filmes como Easy Rider, Interstate 60, Quase Famosos e Transamérica, entre outros. É a obra referência e icônica do que chamamos romance de estrada.

Símbolo da contracultura, a geração beat veio no momento da euforia do pós-guerra. O movimento, embora não organizado e nem reconhecido pelos próprios integrantes como tal, rompeu com vários valores da sociedade da época, como não estabelecer uma residência fixa, descompromisso com relações duradouras, a liberdade sexual, o uso de drogas, entre outros.

Jack Kerouac usou várias das histórias vividas por ele e sua trupe para compor sua obra chave, situando o livro em um limbo entre um romance e um livro de memórias. É a história de Sal Paradise – alter ego do próprio Kerouac – que decide seguir viagem de Nova York à Denver para reencontrar os amigos Dean Moriarty – alter ego do seu grande companheiro de viagens Neal Cassady – e Carlo Marx – alter ego do poeta e amigo Allen Ginsberg.

 

3. VOLKSWAGEN BLUES – JACQUES POULIN

Um livro que empreende também uma viagem pela América do Norte, mas com um tom bem mais frio e triste. Volkswagen Blues mostra a falência do contato humano e das experiências que justamente impulsionaram a obra de Kerouac.  Mas as referências ao romance beat são claras.

A comparação não é gratuita, uma vez que as personagens Jack Waterman e Pitsémine também atravessam o continente norte-americano, assim como Sal Paradise e Dean Moriarty, personagens do romance de Kerouac. O escritor beatnik, aliás, é citado como um dos preferidos da personagem principal, o também escritor Jack Waterman, de quem não conhecemos o nome verdadeiro, mas apenas este pseudônimo utilizado em seus trabalhos, o mesmo pseudônimo dado a ele por seu irmão Théo quando ambos ainda eram crianças. É uma pena não haver tradução desse livro para o português. Quem quiser se aventurar, terá de ler no original (em francês quebequense) ou em inglês.

 

4. A QUEDA DA AMÉRICA – ALLEN GINSBERG

Ginsberg é outro ícone beat. Foi um dos companheiros de viagem de Jack Kerouac. Porém aqui temos um livro de poemas. A partir de suas viagens pelo país, muitas vezes por meio de caronas, onde ele conversava com pessoas de todos os tipos, Ginsberg faz um retrato de um país completamente diferente daquele visto pelo seu maior ídolo, o poeta Walt Whitman. Nos seus belíssimos poemas, às vezes escritos sob o efeito de entorpecentes, ele mostra um país falido de seu próprio sonho.

 

5. A ESTRADA – CORMAC McCARTHY

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Filme A estrada (2009), dirigido por John Hillcoat

Transposto belissimamente às telas de cinema com o protagonista sendo interpretado por Viggo Mortensen. A narrativa se passa em um futuro pós-apocalíptico, onde praticamente todos morreram e tudo está devastado. É uma história do tipo “apocalipse zumbi”, mas sem os zumbis (entenderam?). O monstro aqui é o ser humano, que desenvolve ainda mais seus instintos perversos. Pai e filho tentam sobreviver andando por uma estrada. Frio e lindíssimo ao mesmo tempo.

 

6. NO TEU DESERTO – MIGUEL SOUSA TAVARES

Um dos romances mais recentes do jovem escritor português (publicado em 2009), o livro conta a história de duas pessoas que mal se conhecem e atravessam juntos o Saara. O rapaz é nada mais nada menos que filho da grande poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner. Aqui temos uma história de amor marcada pela aridez e beleza do deserto. Não seriam assim todas as relações?

 

7.  A JANGADA DE PEDRA – JOSÉ SARAMAGO

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Filme A Jangada de Pedra (2002), dirigido por George Sluizer

A Jangada de Pedra relata a epopeia dos povos ibéricos que se separam geograficamente do continente europeu. Uma vez desprendida a partir dos Pirineus, cadeia de montanhas que separa a Espanha da França, Saramago relata, com sua visão irônica, a viagem da Península Ibérica pelo oceano afora, ocasionando uma mudança drástica nos costumes dos habitantes de Portugal e Espanha.

 

8. AS TRAVESSURAS DA MENINA MÁ – MÁRIO VARGAS LLOSA

Dizem que há pinceladas autobiográficas nesse best-seller do peruano Nobel de Literatura. Está também muito próximo de um romance de viagem, pois, durante décadas, o personagem principal viaja por Lima, Madri, Paris, Tóquio e Londres.  Tudo isso por seu amor incontido por Lily, uma jovem que ele chama de Menina Má, que corresponde fisicamente aos seus desejos, mas sempre dá um jeito de fugir dele e mostrar indiferença quanto à paixão que o protagonista sente por ela.

 

9. FÉ NA ESTRADA – DODÔ AZEVEDO

On the Road inspirou também o brasileiro Dodô Azevedo a refazer todas as rotas das personagens e a escrever seu próprio livro contanto os fatos vividos. A referência aqui é muito mais clara do que em Volkswagen Blues. Fé na Estrada, título inspirado no próprio subtítulo de On the Road em português – Pé na Estrada. O protagonista do livro, que também se chama Dodô, vai aos Estados Unidos para ver o que ainda resta de beatnik na cultura estadunidense pós 11 de setembro e em pleno governo W. Bush.

 

10. OS LUSÍADAS – LUÍS VAZ DE CAMÕES

É um poema longo, que conta a história de Vasco da Gama, herói português, que, à época das grandes navegações, descobriu o caminho para as Índias. Porém, Os Lusíadas, mais do que cantar a glória desse específico herói, canta a glória de todo o povo português, que deixou os medos para trás para se constituir em uma grande nação.

Aqui, há um relato da história nacional portuguesa encadeada por proezas dos grandes heróis. Mostra exatamente como o homem é senhor de si, vencendo os obstáculos naturais, como o Cabo das Tormentas, por exemplo. O livro é um belo exemplo do classicismo quando se fala na mitologia, pois os deuses estão ali na narrativa. Interferem, mas o homem ainda é o centro. A recorrência mitologia engrandece a obra, colocando-a no mesmo rol das grandes epopeias clássicas como Ilíada e Odisseia de Homero, e Eneida, de Virgílio. Ainda mais, no início, Camões canta a saga portuguesa como mais importante “esqueça tudo o que antiga musa canta, porque valor mais alto se alevanta”.

Os Lusíadas está para o português como Dom Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes está para a Espanha e A Divina Comédia de Dante Alighieri está para a Itália. É o poema mais conhecido em língua portuguesa.