Literatura e o discurso politicamente correto

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Como devem ser lidos Monteiro Lobato, Shakespeare e Charles Dickens em tempos do politicamente correto?

O debate em relação ao movimento conhecido como discurso politicamente correto ganhou destaque nos últimos anos, principalmente com o avanço e a democratização das mídias sociais. É comum ouvir o assunto encher-se de polêmica na imprensa, no poder judiciário e, por que não, na literatura.
Recentemente a discussão veio à tona em decorrência do livro Caçadas de Pedrinho, uma das histórias pertencentes à mitologia do Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato (1882-1948). No ano de 2010 foi solicitada a retirada do livro do Programa Nacional Biblioteca na Escola do governo federal por apresentar trechos considerados racistas. Abaixo os fragmentos apontados:

TRECHO 1:
Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros.

TRECHO 2:
— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta. As onças estão preparando as goelas para devorar todos os bípedes do sítio, exceto os de pena.

TRECHO 3:
— Peço a palavra! — gritou o bugio, que estava de cabeça para baixo, seguro pelo rabo no seu galho. — Acho que o melhor meio de vocês escaparem à fúria desses meninos é fazerem como nós fazemos: morar em árvores. Quem mora em árvores está livre de todos os perigos do chão.
— Imbecil! — resmungou a capivara, furiosa de tamanha asneira. — Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens. Esta reunião foi convocada para discutir-se a sério, visto que o caso é muito sério. Quem tiver uma ideia mais decente que a deste idiota pendurado, que tome a palavra e fale.

Com o parecer desfavorável à retirada de circulação do livro e posteriormente à inclusão de uma nota explicativa sobre o conteúdo racista da obra, o Instituto de Advocacia Racial, juntamente com o técnico em gestão educacional, que solicitou a retirada do livro em 2010, movem uma ação contra o MEC.
No caso de Monteiro Lobato não é a primeira vez que um livro seu é alvo de polêmica. Já em 1936, ao lançar O escândalo do petróleo – sim, Monteiro Lobato também escrevia temáticas adultas –, o autor foi censurado pelo governo Vargas, chegando a ser preso anos mais tarde.

verdadeira Tia anastácia
Verdadeira tia Anastácia com um dos filhos de Monteiro Lobato em 1913

 Em meio a tal impasse jurídico atual, é importante refletir sobre o momento que vivemos. A questão sobre o racismo na literatura já foi discutida em outro artigo do Homo Literatus. Neste, discorreremos sobre o discurso politicamente correto e seus efeitos na literatura.

Vejamos a definição de discurso politicamente correto por parte do filósofo Luís Felipe Pondé (2012):

Politicamente correto no atual momento em que vivemos no país e no mundo se caracteriza por ser um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão de grupos discriminados, e por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão (grifos meus, p.31).

Como o leitor pode concluir, a partir dos trechos destacados de Caçadas de Pedrinho, Monteiro Lobato tem em sua escrita elementos que podem ser interpretados como racistas. E não é uma surpresa, levando em consideração o contexto sócio histórico e cultural em que viveu. Foi um homem nascido e criado em meio a elite brasileira da época e seus livros citados acima foram publicados na mesma época em que ideologias eugênicas se espalhavam pelo mundo – em 1933 Adolf Hitler assumia o governo da Alemanha.

Hitler
Ascensão de Hitler em 1933

O movimento politicamente correto, segundo alguns especialistas, nasceu nas décadas de 1980 e 90 nas chamadas guerras culturais travadas pelos partidos políticos de esquerda e direita nos Estados Unidos. Tem ganhado força no mundo e principalmente no Brasil. Tal expansão tem sido creditada ao relativismo social contemporâneo, a maior organização política dos grupos minoritários e/ou excluídos, e a democratização ao acesso à internet. Estes dados ainda carecem de maior investigação apropriada.

O objetivo do movimento politicamente correto em relação à linguagem é alterar palavras consideradas pejorativas, ou seja, preconceituosas em sua essência, por outras que sejam mais objetivas ou tenham efeito neutro. No caso, os defensores dessas mudanças acreditam que o preconceito esteja associado à palavra em si e não ao contexto em que é utilizada. Vejamos alguns exemplos:

Mulato
Denegrir
Judiar
E em inglês:
Woman
Person
History

As palavras em português destacadas, segundo os defensores do discurso politicamente correto, tem em sua etimologia um longo processo histórico de discriminação, por isso, carregam em si um valor negativo. Já as palavras em inglês sugerem a forte influência do machismo na construção histórica de tais vocábulos.
Quando não há correlatos para as palavras consideradas preconceituosas é sugerida sua alteração por um eufemismo, como nos exemplos:

Adúltero – indivíduo casado com atividade sexual paralela.
Baixinho – sujeito verticalmente prejudicado.
Prostituta – prestadora de serviços sexuais.

Portanto, segundo tais critérios, as palavras utilizadas por Monteiro Lobato em Caçadas de Pedrinho seriam sim racistas e por isso passíveis de alteração. A discussão que causa polêmica no meio literário é: elas devem ser alteradas? Não se deve considerar o contexto e a ideologia que o autor viveu e simplesmente utilizar critérios atuais para julgar o passado?

Se a resposta for favorável a alteração, a literatura como um todo tem de ser revista, pois são inúmeros os casos de preconceito e discriminação, uma vez ser impossível um escritor estar fora das influências de seu contexto cultural. Shakespeare teria de ser revisto, pois em O mercador de Veneza o vilão da história é judeu. O mesmo acontece com Charles Dickens, em Oliver Twist, onde o vagabundo Fagin também é judeu. Estariam eles fazendo apologia ao antissemitismo? Mais recentemente, além de toda a polêmica religiosa em volta de O Código Da Vinci, o autor Dan Brown foi criticado por ter descrito seu antagonista Silas como um homem albino.

Por outro lado, se não houver a alteração das palavras como foram registradas por seus autores o preconceito continuará lá, preto no branco.

O que fazer então?

Silas Fagin
Silas de O Código da Vince e Fagin de Oliver Twist

Uma das possibilidades de reflexão é proposta pela Análise de Discurso. Sírio Possenti já questionava em 1995 a ênfase dada aos vocábulos em si em vez de serem analisados em seu curso dentro do discurso.

Tais palavras, cujo uso e cujo sentido são objeto de disputa, permitem, pois, assistir ao vivo a várias micro histórias semânticas de alto valor epistemológico, já que exibem claramente o processo de criação de certos efeitos de sentido (Possenti, 1995, p. 128).

As alterações sugeridas tais como (negro x afrodescendente, bicha x homossexual, deficiente x portador de necessidades especiais) mostram a clara relação com os termos construídos historicamente e, logo, com o sentido implícito. Exemplo:

Saci-Pererê é um negrinho de uma perna só ou um afrodescendente portador de necessidades especiais?

Como falantes e ouvintes são oriundos de diferentes lugares sociais, o sentido da palavra nunca é o mesmo. Pode-se, dessa forma, surgir um juízo de valor sobre o falante à partir de sua prática discursiva, independentemente de suas intenções – se é que ele tem consciência de suas intenções (Monteiro Lobato tinha consciência de ser racista?). Por não ter consciência – ou ter – da inclusão em seu discurso de tais elementos lexicais marcados, o falante pode acabar por ter um efeito produzido diferente do almejado. Assim o sujeito falante pode ser entendido como machista, racista ou genericamente preconceituoso (1995).

As diferentes visões do uso das palavras são o campo de batalha travado entre os defensores de um ou de outro movimento. De modo resumido, as hipóteses sustentadas pelos grupos antagônicos são:

A) Se a conotação discriminatória está na palavra em si, basta a sua substituição por outra que seja mais adequada, objetiva ou neutra.

B) Já na hipótese da Análise de Discurso o sentido da palavra está embutido no discurso ao qual ela é usada, ou seja, se for pertencente a um discurso racista a palavra passa a ter tal conotação. Vale lembrar que discursos racistas, assim como todos os que compõem ideologias “ista” (comunista, capitalista, fascista, machista, feminista, etc) são possíveis apenas em sociedades que aceitem e deem continência histórica e social aos elementos evidenciados pelo discurso.

A polêmica se sustenta, pois as palavras passam a ter dois pesos e duas medidas, segundo tais hipóteses.

Há, portanto, perigos por todos lados, tal como foi alertado por Bakhitin: a palavra não reflete, mas refrata a realidade, tornando-se, por consequência, uma arena da luta de classe. Há o perigo da ingenuidade, da malícia, da censura, da inconsequência… entre outros tantos perigos que a literatura pode esconder em suas páginas. Não é à toa que em governos totalitários os livros são os primeiros a serem queimados.

Por fim, a relação do discurso politicamente correto e a literatura está longe de ter um final feliz.

Como deve ser lido Monteiro Lobato, Shakespeare ou Charles Dickens? Há um modo certo de ler literatura? Serão necessárias notas explicativas em cada contracapa de livro alertando o leitor sobre os perigos das páginas seguintes?

O (pré)conceito será eliminado com a alteração das palavras identificadas como discriminatórias?

A prostituta que passa a ser chamada de “prestadora de serviços sexuais” deixará de ser julgada pela sociedade por ter ganhado um eufemismo no lugar do substantivo? E o que dizer do indivíduo casado com atividade sexual paralela?

Mais do que respostas temos perguntas. E é melhor fazê-las enquanto podemos…

 

Referências:

MAGENTA, Matheus. STF rejeita inclusão de nota em livro de Monteiro Lobato. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/12/1566213-stf-rejeita-inclusao-de-nota-em-livro-de-monteiro-lobato.shtml>.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parecer do Conselho Nacional de Educação. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/1Qo8RXEXQpqfe6nHVQRF6NxUnCTvLJuphsJDniLZy5XjpGcmoKZezesgvshM2/view>.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do discurso: princípios e procedimentos. 7 ed. Campinas: Pontes, 2007.

PONDÉ, Luiz Felipe. Guia politicamente incorreto da filosofia. São Paulo: Leya, 2012.

POSSENTI, Sírio. A linguagem politicamente correta e a análise do discurso. Revista de Estudos Linguísticos, ano 4, v. 2. 1995, p. 125-142. Disponível em: <http://periodicos.letras.ufmg.br/index.php/relin/article/view/1016>.