Lygia Fagundes Telles fala sobre as personagens de “As meninas”

De acordo com a escritora Lygia Fagundes Telles, “em estado bruto as minhas meninas existem, estão por aí”, com sede de viver
As meninas, de Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles, autora de As meninas

As meninas é uma das obras-primas da escritora brasileira Lygia Fagundes Telles. O romance foi publicado em 1973, durante a ditatura militar, período em que não se podia falar sobre qualquer assunto que envolvesse sexo, drogas e política. E daí? Lygia falou de disso e mais um pouco ao dar vida a um romance corajoso, com as personagens Lorena, Lia (Lião) e Ana Clara (Ana Turva).

Mas quem são As meninas?

Lorena, Lião e Ana Clara são as personagens do romance, o qual transparece tanto complicações, desequilíbrios e perversões das meninas quanto da própria da sociedade da época, que vivenciava o período ditatorial.

Lorena é de família rica; sonha em se casar, pensa muito em fazer sexo, embora ainda seja virgem; é apaixonada por M.N, um médico casado e que tem cinco filhos; ouve muitos discos; ama estudar Latim e ler; cursa Direito.

Lião é uma baiana filha de um alemão que fugiu do nazismo; coloca-se como militante de esquerda; sonha com uma grande revolução; busca lutar na linha de frente contra o regime político opressivo; cursava Ciências Sociais; já teve suas relações sexuais e amorosas, inclusive com uma mulher; no momento da narrativa é apaixonada por Miguel, preso político, e sonha em encontrá-lo na Argélia, onde poderão viver livres.

Ana Clara, também chamada de Ana Turva, uma das personagens mais complexas;  é muito bonita e ruiva; já sofreu abusos sexuais; é viciada em drogas; bebe muito; sonha em ficar rica e sair em capas de revistas; envolve-se em um relacionamento com um homem rico que ela chama de Escamoso, de quem é noiva; ao mesmo tempo, tem um relacionamento com Max, traficante de drogas; estudava Psicologia, mas largou o curso.

O que uniria três meninas tão diferentes?

Parece que há uma certa força, repleta de amor e vontade de viver intensamente, que une as amigas, as quais moram em um pensionato de freiras. Todas sem família por perto, em um período feroz da política brasileira e, desse modo, a amizade é uma rede de força entre elas.

As meninas são distintas e elas sabem disso. Muitas vezes, uma faz crítica ao modo de vida da outra, mas, por fim, sabem que juntas podem estar amparadas e cuidadas, mesmo em momentos de maior criticidade e tristeza, em uma sociedade perversa e reprimida.

Depoimento de Lygia sobre as personagens de As meninas

Em uma edição de As meninas, publicada pela Folha de S. Paulo, na coleção de Literatura Ibero-americana, há um relato de Lygia Fagundes Telles sobre as suas personagens: Lorena, Lia e Ana Clara.

Embora as meninas pareçam complexas, elas nada mais são do que representações de seres humanos com seus problemas, dúvidas próprias, medos e sonhos. Seres com vontade de viver. E é isso que defende a escritora:

Parti da realidade para a ficção. Sei que em estado bruto as minhas meninas existem, estão por aí. Como ponto de partida tomei-as assim meio informes, sem características mais profundas, os traços ainda indefinidos: vieram como nebulosas. Tomei-as e fui trabalhando em cada uma, lenta e pacientemente, sou lenta. Afinal, tudo somando, creio que durante três anos convivi intimamente com essas três (TELLES, 2012, p. 313).

Lygia comenta que não sabe com qual personagem ficou mais, apenas acredita que personagens são como vampiros: cravam os caninos em nossa jugular. E quando amanhece, voltam aos seus sepulcros até o próximo anoitecer. Ao publicar um livro, Lygia acredita que seja uma forma de colocar uma pedra sobre esses visitantes, porém percebe que eles voltam, mascarados em outros personagens, em outros tempos, com sede de vida.

Além disso, a escritora menciona que o amor tem fundamental importância na construção de sua narrativa e na estrutura de suas personagens, uma vez que estas amam e desamam, mas sem cair no sentimentalismo barato e gratuito, nas tragédias amorosas. Amor, mas com rédeas. Do mesmo modo, há o remorso constituindo parte das personagens, é visível quando elas falam de suas feridas e culpas. A própria autora parece carregar certa culpa, por ter matado umas de suas personagens. Mas não seria um sofrimento ainda mais agudo mantê-la viva?

Acerca das questões políticas postas na obra, a autora pontua que seria impossível escrever em plenos anos 70 sem que houvesse ao menos uma pitada do horror vivenciado todos os dias. Prova disso são as várias frases revolucionárias que saem da boca de Lia e o depoimento de tortura que ela lê em alto e bom som para uma freira do pensionado.

Para Lygia, somos todos nós testemunhas do nosso tempo e da nossa sociedade, portanto somos afetados por ela, que nos constitui e forma nossa história. Como não apresentar isso em um livro? Como não mostrar isso por meio de suas meninas? Seria impossível. A luta de Lygia Fagundes Telles também se dá pela palavra, é sua vocação e seu amor.

Adaptação da obra literária

Para você que gosta de cinema, o romance As meninas foi adaptado para as telonas. Estreou em 1995, com direção de Emiliano Ribeiro e roteiro de David Neves. Confira o filme completo a seguir:

Referência

TELLES, Lygia Fagundes. Personagens gostam da vida, como nós. In: ______. As meninas. 1ª ed. São Paulo: MEDIAfashion, 2012, p. 313-314. (Coleção Folha. Literatura Ibero-americana).

 

Estela Santos Autor

Colaboradora do Homo Literatus, professora, mestra em Letras - Estudos Literários e mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela