Machado ontem, Machado hoje, Machado sempre

O que torna Machado de Assis um nome tão relevante mais de cem anos após a sua morte?

Machado de Assis costumava dizer em suas crônicas que as polêmicas são oniscientes e eternas (como a divindade?) sempre que uma estoura, poderíamos dizer, há outra sendo fiada pelas Moiras do entretenimento público. Seguindo essa fina ironia publicada em um desses jornais cariocas do fim do século XIX, está sua própria figura enquanto escritor brasileiro: o bruxo do Cosme Velho continua polêmico até hoje.

Sobre sua literatura, muitos dizem coisas bem diversas, como, por exemplo, que Machado é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, e, de outro lado, que sua escrita é antiga, de difícil compreensão e até mesmo que precisa de uma espécie de facilitação para conseguir ser assimilada pelo público jovem, como argumenta, estranhamente, a Patrícia Secco, na Folha de S. Paulo: “Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não se entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”.

Na época do próprio Machado ele já conseguira despertar interesse e gerar polêmicas as mais diversas em torno de sua pessoa. Machado era o típico tapa sem luva na cara de uma sociedade extremamente patriarcal, racista e antiquada. Isso porque, além de portar uma intelectualidade incrível, passeando em praticamente todos os gêneros da literatura, do conto ao romance, do ensaio à crítica, da poesia ao teatro, e aprendendo um francês fluente sem tomar uma aula sequer, não tinha grau superior, era negro, nascido em morro e filho de um pintor mulato com uma lavadeira portuguesa.

Uma dessas polêmicas antigas é travada com Sílvio Romero, professor da anciã Faculdade de Direito do Recife e um dos mais respeitados críticos literários brasileiros do século XIX que, muito orgulhoso do seu sangue inteiramente português, e após tomar ciência que Machado havia criticado o seu estilo literário, bradava:

“Quem já o estudou à luz de seu meio social, da sua influência, de sua educação, de sua hereditariedade não só física como étnica, mostrando a formação, a orientação normal de seu talento? Quem já lhe ‘assinou o posto’ na história espiritual do país?” (ROMERO, 1936, p. 18).

Sim, é o que você está lendo, um dos maiores críticos literários brasileiros da época de Machado ridicularizava sua literatura por ele ser negro! E continuava, profetizando que o Machado não era, e nunca seria mais do que um comum (um qualquer?!):

“[…] Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e ai dele, se saísse. Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada, por mais que pareça estranho tocar neste ponto” (ROMERO, 1936, p. 28).

“Mas o período não lhe sai possante e largo, porque seus pensamentos não são vastos, ou profundos, ou grandiosos; não lhe sai também rápido, intenso, incisivo, porque uma paixão forte não o anima ou move” (ROMERO, 1936, p. 65).

O fato, mesmo, é que embora a língua feroz de Sílvio Romero e todo o seu sangue possantemente português, ninguém (ou quase ninguém) o lê hoje. Quem conhece Sílvio Romero? De outro lado, contrariando todas as expectativas do crítico de sangue puro, o mulato do Morro do Livramento marcava sua posição na história do Brasil. Quem NÃO conhece Machado de Assis?

O Machado da eterna dúvida filosófica se Capitu traiu Bentinho, o Machado dos irmãos conflituosos Esaú e Jacó, o Machado do médico doido que resolve prender uma cidade inteira num hospício (O alienista), e o Machado dos magníficos contos como O enfermeiro, A cartomante, Missa do galo, é agora o Machado que pouco a pouco se internacionaliza.

A nova polêmica em que o Machado está inserido é mil vezes melhor que todas as outras: teve sua obra Memórias póstumas de Brás Cubas (1880) citada pelo grande diretor estadunidense Woody Allen como um dos seus cinco livros favoritos!

A lista de Allen, que tem J.D. Salinger, Mezz Mezzrow e Bernard Wolfe, S.J. Perelman e Richard Schickel, tem como único escritor latino-americano e brasileiro, ninguém mais do que… Sílvio Romero? Não, Machado de Assis!

Sobre o livro do escritor brasileiro, Allen relata:

“Eu recebi pelo correio um dia. Algum estranho do Brasil me mandou e escreveu ‘você vai gostar disso’. Como é um livro fino, eu li. Se fosse grosso, eu teria descartado”

“Fiquei chocado ao ver como é encantador. Não conseguia acreditar que ele viveu há tanto tempo, como ele viveu. Você pensaria que foi escrito ontem”.

De 1880 para 2017 são 137 anos. É, parece que o doutor Sílvio estava muito errado. Machado de Assis, sem dúvidas, é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Sua obra, continuará dando voltas nas cabeças de qualquer pessoa que a leia, independentemente do tempo, do lugar e das circunstâncias. Malgrado esteja dividida entre o romantismo e o realismo, em qualquer um desses movimentos literários, a obra machadiana é clara e certeira.

E é para esse Mozart da literatura brasileira que o Homo Literatus dedica essa matéria. Viva Machado!

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Referências

CHAVES DE MELLO, Maria Elisabeth. Sílvio Romero vs. Machado de Assis: crítica literária vs. Literatura crítica. Acesso em 20/03/2017, disponível em: https://anpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/24/12

MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2003.

_____________Melhores contos. São Paulo: Global Editora, 1996.

ROMERO, Sílvio. Apud CHAVES DE MELLO, Maria Elisabeth. Ib idem.

Mario Filipe Cavalcanti Autor

Advogado graduado pela Ufpe, escritor, prêmio Pernambuco de literatura com o livro "Caninos amarelados" (Cepe, 2016), leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.