Marcos Venuto: o pintor entre os objetos e as palavras

Marcos Venuto humaniza objetos e paisagens a partir de um discurso que oscila entre o existencialismo e o nonsense.

Jokerman – “Auto-retrato” – Marcos Venuto, 2012

Um aviãozinho de papel de nome jokerman

Em seus trabalhos, Venuto faz algo que considero incrível ao personificar incisivamente os objetos, ou personificar as pessoas a partir dos objetos, ou personificar os afetos dos objetos. Eu não sei se ele tem consciência disso, eu acho que ele tem perfeita consciência disso, mas não sabe dizer sobre isso, porque é um pintor sem palavra.

Foi este infeliz avião de papel acidentado quem me tomou a atenção para o trabalho do artista. Em seu acervo virtual espalhado por redes sociais, completamente desorganizado e descuidado, haviam confundidas entre fotografias ensaísticas e ousadias pueris de arte conceitual, o trabalho inevitavelmente moderno-contemporâneo do pintor-desenhista que diz que toda arte é contemporânea. É bem esse voo, nesse avião acidentado, a experiência de percorrer o trabalho de Venuto.

“Pai com meu nome” (2009) e “Jokerman”(2012) – Alguma exposição… Marcos Venuto

Explicando a questão da palavra

Tente separar a pintura de Venuto da palavra que não é dele. O efeito é curioso. O desenho trêmulo e triste, por vezes raivoso, toda a tela profanada, não guarda quase nada, ou nada mesmo, do humor ou do sarcasmo que as palavras lhe conferem.

Ele sempre diz que a palavra é importante, que a palavra é fundamental para a obra. É claro que é, se não, o que ela estaria fazendo ali? As palavras utilizadas nas obras de Marcos não são dele, como já avisei: ele não tem palavra. São retiradas de poemas, músicas, mitos ou são, simplesmente, sorteadas ao modo dadaísta por um homem sem jornais ao alcance.

A vida. Da vida. Palavras da vida. Dele não. Fiz algumas vezes o exercício de tentar separar da pintura a palavra, embora, com certeza não poderia fazer o mesmo com o desenho. Digo, separar a pintura do desenho, não tem jeito, a palavra, tem jeito? Tem, mas a pintura abandonada deixa de ser, sem seus recursos de enunciação.

Na Kombi (Pequeno Haikai) – Marcos Venuto, 2000

Desvendando o mistério dos objetos

Dentre as séries e crises existenciais do artista, gosto mais desses primeiros trabalhos, dessa canalização da energia no objeto. Desejo desvendar o mistério dos objetos de Venuto como muitos desejam fazê-lo com a Gioconda de Leonardo. O uso das cores, ainda que econômico, revelam delas a potência na luz e na composição, como partilhassem do tratado secreto do sopro da vida.

As formas se convertem em palavras, narrativas inteiras, em um objeto qualquer cotidiano, insignificante. Em contrapartida, as palavras se tornam formas. Se lidas com sensatez, perdem toda a sua potência de verbo.

Não considero inferior a potência dos desenhos desse mesmo período. Que período? Como posso saber? Venuto não faz acervos de si mesmo. Mas penso que seja algo entre os anos 2000 e 2015, antes que ele começasse a delirar. Esse momento do limbo. Nesse ponto, ele talvez não concorde, mas nunca precisou de grandes escalas para mostrar o monumento da banalidade.

“Árvore Genealógica” – Marcos Venuto, 2010

É com certa fúria adolescente que ele denuncia a banalidade de todas as coisas, a banalidade da vida, da existência, de todas as estruturas. Esse pintor-desenhista-punk faz isso irresponsavelmente e tem orgulho. As mãos trêmulas de corticoide delineiam com precisão a tortuosidade das pessoas, das famílias, dos laços. Todos pregos!

Há toda uma série de pregos, até uma “Diana Nua” que, constrangedoramente, não posso negar: é tão sensual quanto qualquer vênus, ou mais do que algumas…

“Diana Nua” – Marcos Venuto, 2006

Nascimento, amor, sexo, morte, existência, todas essas questões existenciais que tomam séculos da filosofia, da teologia, dos mitos, das narrativas literárias, Venuto simplifica em um prego solto ou um prego aferrado à parede, um prego reto, um prego torto, e as posições e tortuosidades mais múltiplas me obrigam a afirmar que existem tantos pregos singulares no mundo quanto pessoas e eu poderia, perfeitamente, ter um prego como companhia no boteco e me sentir muito bem acompanhada.

“Deus lhe pague” – Marcos Venuto, 2016

Antes! Os objetos perderam um pouco da potência para as cores e não vejo nisso nenhum pecado. Venuto faz suas próprias tintas, e as faz muito bem. Ele as chama todas de têmperas, jamais óleo para o pintor-desenhista-asmático-beberrão.

“Deus lhe pague” faz o que a maioria das suas obras cheias de cores e borrões fazem: desviam a atenção do objeto para o fundo, que se torna também objeto, pois há outro fundo, ou muitos fundos. A narrativa antes quase coerente, investe numa espécie de nonsense concreto. É quase um poema concreto, diria que é um poema beat, se estas pinturas de Venuto fossem poesia. E penso mesmo que elas são: é isso, ele passa da prosa para a poesia na pintura.

O pintor não é um grafiteiro

Discordo dele, com todo o meu direito de público, que ele seja um grafiteiro e a tela um muro. Sinto mais, quando olho para essas novas telas, como se ele, entediado da derme caucasiana do velho suporte modernista, decidisse dissecá-la, deixando visíveis todas as suas camadas e cores, como se quisesse nos lembrar que a derme não e una nem única.

Ele pinta com um bisturi. Ele pinta como um legista. Talvez tenha se cansado de torturar os velhos fantasmas e percebido maior potencial no sacrilégio da tela-de-derme-inventada, embora, na tela feita orgânica, continue a torturar os fantasmas – abstratos. Não lhes concede, jamais, a licença-assombração.

“I’ll take you there” – Marcos Venuto, 2017

Compulsão por aquarelas

Venuto também fez e faz tantas aquarelas que acabou por se difamar como aquarelista. Eu disse “difamar”? Não era bem o que iria dizer – que não se ofendam os aquarelistas –, é que o próprio pintor me contou que nunca quis ser aquarelista e, contudo, acabou ficando assim conhecido devido à compulsão com que produzia aquarelas, mais rápidas e práticas no fazer.

Embora se utilize de argumento semelhante, as aquarelas de Venuto ganham em aspecto onírico, proporcionado pela transparência, transformando a violência do borrão da têmpera em delicadeza.

Algumas árvores irritantes

Ele pinta como um raio X. Embora considere essa série de árvores que ele faz para vender particularmente irritantes, assumo que, ao contrário dos objetos, desenhos e pinturas que prescindem de grandes escalas, eu gostaria de ver essas aquarelas enormes.

Penso que até mesmo as árvores irritantes deixariam de ser melosas, como um amante de uma noite, para se tornarem assustadoras, como o amor, se fossem monumentais.

Foram as aquarelas da série “Lugares de Rosa”, – que poderia perfeitamente se chamar “Lugares de Venuto e Palavras de Rosa” –, que me despertaram essa obsessão. Passei a desejar entrar em aquarelas enormes de Venuto – e ele que se vire sobre como fazer isso – como uma criança deseja um brinquedo oneroso, aquela mesma paixão infantil pelo objeto-simulacro. Desde então, eu percebi que as aquarelas do pintor-desenhista-moderno-contemporâneo-punk me colocavam diante da falta, da impossibilidade.

Dislexia e Semiótica

Ele me contou que gosta de brincar com semiótica, diz ele, porque é dislexo, e faz muito sentido agora que ele não seja um pintor de palavra. Ele guarda uma caixa de livros embaixo da cama, esperando pelas palavras como na infância guardava o dente embaixo do travesseiro, esperando pela fada dos dentes e seus 5 centavos.

Enquanto isso, eu espero a reviravolta de seus objetos, seus pregos, caixas de fósforos, copos, borrachas, esponjas, embalagens de remédio, sapatos, malas – muitas malas, será que esse homem quer ir embora do quintal? – sacolas, canivetes, barquinhos, aviões de papel.

Todos os objetos de Venuto, tão demasiadamente humanos que me envergonham, fazendo-me questionar: “Serei eu tão humana quanto o pode ser um prego?”

“Emptness” – Marcos Venuto, 2018

Referências

Instagram de Marcos Venuto: @marcos_avenuto

Paula Peregrina
Pesquisadora, artista visual e escritora. Mestranda em artes visuais, redatora publicitária, editora de pesquisa e projeto na Revista Desvio. Autora do romance Terras Secas (Pandorga, 2017), contos, poesias e outros textos em publicações diversas
Paula Peregrina
Pesquisadora, artista visual e escritora. Mestranda em artes visuais, redatora publicitária, editora de pesquisa e projeto na Revista Desvio. Autora do romance Terras Secas (Pandorga, 2017), contos, poesias e outros textos em publicações diversas
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