Mitologia: Eros e Psiqué (parte 02) – Sté Spengler

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Parte 02 – Os botões de jasmim (leia a parte 1 aqui)

Eros aproximou-se daquela bela jovem que dormia profundamente diante de seus olhos. Tocando o braço que fora ferido por uma de suas próprias flechas, ele a fitou novamente. Não. Não faria mal a Psiqué. O deus alado sussurrou ao vento Zéfiro que levasse a moça para um vale florido, assim a maciez das muitas flores faria justiça ao sono da princesa.

– Durma tranquila, meu amor. Nos veremos em breve.

Envolvido também pelo Zéfiro, Eros abriu suas enormes asas e desapareceu.

**

Um passarinho cantarolava uma doce melodia aos ouvidos de Psiqué. A brisa suave lhe soprava os cabelos e o sol a aquecia de maneira gentil. O aroma que pairava no ar era inconfundível – estava num campo repleto de jasmins. A princesa abriu os olhos e sentou-se. O que havia acontecido? Como viera parar ali?

Ela começou a caminhar para ver se encontrava alguém e um barulho de água chamou-lhe a atenção – era uma fonte. Rapidamente ela se aproximou e com as mãos em formato de concha, bebeu um pouco do líquido cristalino. Era doce e refrescante.

– Princesa, por aqui…

Psiqué olhou para os lados. Não havia ninguém.

– Venha conosco, senhora…

Ninguém.

– Quem está aí? – Psiqué indagou.

– Estamos aqui para servi-la.

– Não posso vê-los. Onde vocês estão?

– Aqui. Você não consegue nos ver. Por favor, venha conosco.

As Vozes misteriosas conduziram Psiqué a um verdadeiro castelo dos sonhos. “Suas colunas de ouro serviam de suporte ao teto de cedro e marfim; as paredes eram recamadas de baixos-relevos de prata; o pavimento, confeccionado de mosaicos de pedras preciosas; os imensos salões tinham paredes de ouro maciço. Uma obra digna de Dédalo e de Hefesto!”*

Os dias se passaram e ao despertar durante as manhãs, Psiqué sempre encontrava um botão de jasmim ao seu lado. Ela questionava os criados, mas as Vozes apenas lhe respondiam que era um pequeno presente do senhor do castelo. A princesa gostaria de saber quando conheceria homem de tão grande benevolência, mal sabia ela que este dia estava cada vez mais próximo.

Numa certa noite, após ter degustado dos melhores pratos e ter bebido do melhor vinho, Psiqué foi para seus aposentos e encontrou outros presentes de seu anfitrião. Sob a mesinha jaziam algumas jóias preciosas e uma bela e simples coroa de louro. Ela sorriu sonhadora agradecendo a sorte que os deuses lhe lançaram após aquele terrível destino. Afastando os pensamentos de seu passado, a jovem preparou-se para dormir.

Foi então que, repentinamente, as tochas que iluminavam o quarto se apagaram.

– Boa noite. – uma voz firme cumprimentou.

Psiqué atentou para o vulto em frente à janela banhado sob a luz do luar. Era alto, tinha ombros largos e pernas bem desenhadas. Ela sabia quem era… seu coração o sabia.

– Espero que meus criados estejam lhe servindo adequadamente.

– Creio que jamais poderei lhe retribuir tamanha bondade e gentileza, senhor. Muito obrigada.

– Você não me deve nada Psiqué. Eu a amo e farei o que estiver ao meu alcance em prol da sua felicidade.

A princesa franziu o cenho e piscou, confusa.

– Ama? Mas… você nem me conhece.

O homem misterioso aproximou-se e tomando-a nos braços, beijou-a ardentemente. Primeiro sugando-lhe os lábios levemente, depois introduzindo a língua e devorando-lhe a boca. Ela tinha o sabor do próprio desejo.

Psiqué enterrou os dedos nos cabelos espessos, deixando-se à deriva daquele homem desconhecido, mas que por algum motivo estranho era digno de sua confiança. Suas mãos desceram para o peito largo e Psiqué aproximou-se um pouco mais, encostando os quadris nos dele. Ele a desejava loucamente… ela podia sentir.

– Seja minha esposa.

Naquela noite, Eros fez de Psiqué sua mulher, mas antes que o sol nascesse ele desapareceu, deixando para trás um perfumado botão de jasmim e o coração de uma mulher completamente apaixonado.

[continua…]

 

* Referência a obra Mitologia grega, de Junito de Souza Brandão.