O anacronismo da moça de literatus

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tumblr_m0utiyvHCZ1qzhokmo1_500O meu aparelho celular anda pedindo arrego.  Há anos ele me acompanha. A sua defasagem, inclusive, me vacinou contra um dos mais recentes males da vida moderna: andar pela rua olhando para o celular, sem enxergar nada adiante. Talvez por isso ache o novo vício inusitado.  Colisões são inevitáveis.  Não duvido que num futuro próximo um vereador ou o prefeito proponha a criação de uma faixa exclusiva para dar segurança aos transeuntes que queiram navegar pela internet, enviar mensagens, acessar aplicativos de redes sociais e jogos pelo smartphone enquanto andam por aí.

Outro dia, aqui no Rio de Janeiro, eu flainava pela Avenida Rio do Branco, principal artéria do coração da cidade Maravilhosa. Era hora do almoço.  Milhares de pessoas andavam enamoradas de seus aparelhos. Uma respondia uma mensagem ali. Outra curtia uma foto acolá. Ih… Um encontrão mais à frente. Telefones e pessoas ao chão. Para evitar um esbarrão, eu tentava me antecipar aos movimentos de quem vinha na contramão, mexendo em seus brinquedinhos. Foi quando eu a vi. Como os outros, lá vinha ela, alheia ao redor, só que concentrada, mergulhada em um… livro!

Não podia acreditar. Me belisquei e tudo. Era ela: a moça literatus – destoando da multidão. Com a mão direita, segurava o livro um pouco abaixo da linha dos olhos; com a esquerda, virava as páginas. Na minha perplexidade, não consegui tomar nota do título. Talvez fosse um romance, um livro de contos, poesia, ensaio ou biografia. Ela caminhava com precisão, desviando dos demais transeuntes. Eu parei. Ela vinha na minha direção. Iria topar comigo. Porém, em cima do lance, ela tomou novo rumo. Quando passou por mim, torci o pescoço para vê-la passar: de um anacronismo incrível!