O Santo Graal da literatura brasileira

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Dalton-Trevisan

 Eu tenho uma teoria!

 Lá vem você…

 Rubão e  o Vampiro de Curitiba são a mesma persona!

 Como?

 É isso mesmo que você que ouviu. O Santo Graal da literatura brasileira.

 Endoidou de vez?!

 Rubem Fonseca e Dalton Trevisan são um só, cara. Um só.

 O que você tem colocado nesses livros que anda lendo?

 Presta atenção, bicho:  os dois estão com 90 anos. O Rubem completou no mês passado, no dia 11. O Dalton faz hoje, 14 de junho.

 Mas isso já é o suficiente para jogar no lixo a sua teoria.

 Era comum que os antigos fossem registrados muito tempo depois da data de nascimento, em alguns casos anos mais tarde.  Com meus avós foi assim. Tem gente que nasceu num dia, mas na certidão consta outro.

 Okay. E daí? Isso não prova nada.  Quantas pessoas têm a mesma idade e não são a mesma pessoa. Eu e você somos um exemplo.

 Já segui os dois.  Os dois usam óculos escuros, boné e andam devagar, do mesmo jeito.

 Velho anda tudo igual, devagarzinho. Medo de cair.

– To falando sério, cara.

– Eu também.

– Você tem que se abrir, bicho.

– Eles têm 90 anos, caralho. Eles são mais velhos do que nós dois juntos mais o garçom ali e aquela mocinha bonita ali na mesa ao lado.

– E daí?

– E por isso que eles andam parecido.

 Como eu ia falando, o Rubem eu segui em Ipanema, próximo à praça Antero de Quintal. Ele mora por perto. O Dalton, quando fui em Curitiba…

 Você está ficando louco.  Isso lá é coisa que se faça… Nem paparazzi você é pra sair ao encalço dos outros.

 Com o Dalton fiquei quase um dia à espera numa livraria que dizem que ele frequenta. Quando desisti de encontrá-lo lá topei com ele na rua, próximo ao Passeio Público.  Falei com ele e tudo.

 O quê?

 Perguntei se ele era o Dalton Trevisan!

 Hum… E ele?

  Disse que não era.

 Também, pudera… Isso aqui é Brasil. Um louco te para na rua e pergunta se você é você mesmo boa coisa que não pode ser. Eu faria o mesmo, vai que é cobrança ou o marido de uma mulher que o cara tenha comido.

 O Rubem sempre diz que tudo está nos livros.

 Salingers brasileiros.

– Salingers brasileiro é uma ova. Quem é J.D. Salinger perto do Rubão e do Vampiro de Curitiba?

– Também não é assim.

 Se liga no lanche: eles começaram a escrever quase ao mesmo tempo.  O Dalton, em 1959, com as Novelas Nada Exemplares. O Rubem em 1963 lançou Os Prisioneiros.

 O Araripe Júnior era contemporâneo do Machado de Assis e nem por isso se transformou no Bruxo do Cosme Velho, porra. E o Graciliano e o Guimarães Rosa?

 Você não percebe as nuances. Tem que saber ler as entrelinhas. Os contos deles falam sobre as disfunções dos espaços urbanos.

 O Rubem escreveu também romances. O Dalton, não.

 Sim, mas porque ele escolheu o Rio de Janeiro pra viver, aqui ficou mais solar e por isso arrisca umas narrativas maiores. Dá entrevista até no exterior.  Já quando baixa o Dalton é mais sombrio, conciso. Pô, sabe como é Curitiba, né?

 Eles nem se parecem. Nem por gêmeos passariam. O Rubem  tem aquela careca de cojaque e o Dalton tem cabelo.

– Peruca. Faz parte do disfarce, tudo disfarce…. Nunca foram vistos juntos. Já pensou o porquê?

 Dois bichos do mato.

 Tudo está na obra. No Romance Negro, o Rubem conta a história de um escritor iniciante que comete o crime perfeito ao tomar o lugar de outro escritor famoso, uma vez que este nunca aparecia em público. O Vampiro sempre tem dupla natureza, alguém que parece ser um humano como os outros, mas não é.

 Pai do céu, mas quanta imaginação? Parece crítico que enxerga coisa que o autor nunca imaginou.

 E os contos do Dalton, repetitivos, duplos, quase o mesmo, uma profusão de Joãos e Marias. Pra quê, pra quê?!!!

 Toc, porra!

 Pra evidenciar que ele é duplo. É uma pista.

 Quem acredita nisso, acredita em tudo… Sua teoria é completamente furada.

 O óbvio escapa às pessoas. É coisa maior do que ressonância límbica, cara. Pode levar fé. Você me dará razão quando eles ganharem o Nobel de Literatura em outubro e aí revelarem o segredo.

 Só o Saramago ganhou escrevendo em Língua Portuguesa. Se eles ainda escrevessem em inglês, os suecos olhariam pra gente. Disso você pode ter certeza.

 Fiz uma aposta na Bolsa. Vou ficar rico com isso. Vou te levar  ao  Bloomsday  ano que vem. Vamos tomar um porre daqueles.

 Se um deles ganha o Nobel, nem aparece.

 É possível… Pior que é provável. Mas, assim mesmo, eu ganho a grana. Monto uma editora e publico só a nata.

 É melhor irmos embora, você já está ficando pra lá de alto. Pede a conta aí.

-Vou pedir.

 Ah… E outra coisa…

 O quê?

 Não fica falando isso por aí não que te botam num hospício. Vai por mim, vai por mim…