O teatro de neblinas de “Na escuridão amanhã”

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Capa de “Na escuridão, amanhã”

Em Na escuridão, amanhã, dois irmãos de uma família que deixou o campo pela cidade lembram como seu crescimento na pobreza e suas descobertas sexuais misturam-se às violências do pai, à submissão e crença da mãe, à morte precoce da irmã e à vida rural e estagnada de seus antepassados. Publicado pela Cosac Naify, tem 128 páginas e é o primeiro livro de Rogério Pereira, conhecido idealizador do jornal literário Rascunho.

A história começa quando ainda crianças, com a decisão do pai de sair da casa no interior para a periferia da grande “C.” (Rogério não nos diz os nomes dos personagens, e conhecemos apenas a cidade por sua inicial.) O pai toma todas as decisões, faz todos os planejamentos por conta própria: vai à frente para encontrar o novo lugar e um caminhão busca a família e a pouca mobília depois. Quando chegam lá, percebem: essa nova cidade, contudo, não vem para oferecer melhora para suas vidas; pois a miséria e a ignorância, que no campo os aproximam de uma vida simples, em C. tornam-se asilo.

Força por trás dessa mudança inicial, o pai rapidamente sobressai aos parágrafos, autoritária e abusiva. Com relação à sua mulher, trata-a com extremo desprezo. Nos olhos dos filhos, é ora fera selvagem, demônio, ora ser ausente, distante. Para melhor defini-lo, contrastando-o com o patriarca de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar (com que este livro de Rogério Pereira pede paralelos), o pai em Na escuridão, amanhã não é um deus de sermões, dono da sabedoria do Antigo Testamento. É um animal sem fala.

“A mãe rezava para vê-lo distante. Lembro das noites de angústia, dos grunhidos no quarto ao lado. Você, potro incansável, a ruminar no pasto ralo. Havia súplica na boca desdentada da mãe. Nada o detinha, não é mesmo? Nem mesmo os apelos daquela carne cansada. O sumo já se fora. Você sabia. Você sempre soube. Mas não desistia ― o balde mergulhava no poço seco em busca de uma água inexistente. Saciado, o animal jogava o corpo no colchão a espera do dia.”

O trecho acima vem de uma das cartas que o filho mais velho escreve para o pai. Na estrutura do romance, as cartas intercalam-se com os capítulos, esses numerados, narrados pelo mais novo. O livro é esfaqueado regularmente por essas correspondências. São cheias de ódio e de culpa: lemos na angústia crescente de seu autor, porém, que parece não haver resposta para elas; que não se sabe se atingem o destinatário ou se são ignoradas. Escreve, pois está longe, tendo sido carregado nos braços de uma guerra que não compreende, uma guerra difusa, cujo real desenho só clareia com o avanço da leitura.

“Estou aqui te escrevendo, fincando minhas unhas na tua ausência. Eu sou a tua vingança e o teu consolo. Posso morrer a qualquer momento nessa guerra que desconheço, mas vou te assombrar. Prometo.”

Já o irmão parece guiar-se por um revólver de documentos e fotografias antigas. Percorre-as contando sorrisos em seus parentes, surpreendendo-se cada vez que os encontra. Seu relato lança luz mais intensa sobre sua educação religiosa e sua puberdade, partes de seu crescimento que se misturam, graças ao interesse despertado pelas meninas de sua igreja. A essa personagem é permitido descobrir o amor: mas não a consumá-lo. Em Na escuridão, amanhã não existe amor no sexo: em C., o sexo transmite apenas barbárie e pecado.

A relação mais próxima do filho mais novo com a mãe faz com que essa personagem tenha voz em sua parcela da narrativa. Através dele nos chegam curtos e amargos diálogos, e assistimos o desespero chacoalhar seu corpo na morte de cada familiar. A mãe caracteriza-se pela debilidade: ausenta-se de força e parece aceitar as ofensas de seu marido sem luta. Seu papel é deixar-se afundar atada às correntes da fé. Em um dos capítulos é descrita como “uma fruta há muito esquecida”: É alguém que as páginas esvaziam, deixam sangrar.

“Será que nunca vamos conversar sobre nossa solidão? Teço as falas, mas elas não se solidificam, acaricio as bordas da xícara e admiro os cabelos escorridos na testa da mãe. Nos sulcos do rosto corre uma enxurrada incandescente, lenta, silenciosa e triste. Queria poder ler cada traço, cada história ali acumulada, sei tantas, mas não conheço as que mais me interessam: as histórias da mãe.”

A mãe busca refúgio para o sofrimento em sua religião. Crê na Bíblia Sagrada e a lê para seus filhos antes de dormir. Como o romance é contado por eles, o esforço da mãe em dar-lhes alguma instrução religiosa ouve-se claro em seu vocabulário: é lapidado na talha da oratória cristã, envergado por um imaginário de santos de pedra e infernos infinitos.

RogerioPereira
Rogério Pereira

“Em C. há regras em excesso. Faltam-lhe o improviso e o falseio. Tudo funciona em harmonia. É um organismo prestes a conquistar a eternidade. À minha volta os arames ― malditos arames que fazem desta cidade um vasto campo de penitentes. Os fornos cremam os que se rebelam. O silêncio é o nosso fim. As vozes não saem das rachaduras, estrangulam-se. Esta cidade não nos pertence. Seremos também uma invenção, uma criação corriqueira, marionetes num teatro de neblinas? Talvez apenas isto: uma tentativa que não deu certo. Somos o risco malfeito na prancheta do arquiteto. Não há conserto; nossas estruturas estão comprometidas. O som da cidade não nos invade; não o conhecemos. Não construímos C.; fomos construídos para ela.”

Rogério soterra seu livro com a presença da morte. As personagens, mesmo ainda vivas, perambulam fantasmas perdidos na escuridão. A trama prossegue como um deslizamento de terra: o tempo, as doenças e a loucura arrastando a todos, um por um. O evento central do romance é a morte da irmã. Tal acontecimento é lamentado desde as primeiras páginas, e todas as memórias parecem voltar a ela.

“Quando nossa irmã morreu, dez anos depois do avô, a morte novamente entrou em casa por todos os lados, escancarou as janelas, varreu os ciscos para os cantos e, silenciosa ― como quase sempre o faz ― encarou-me.”

E ela é o grande eixo da história. Os detalhes e segredos por trás de sua breve vida amarram o enredo e as motivações dos membros da família. Só quando todas as verdades tornam-se inevitáveis descobre-se quão profundo o autor lançou-se a uma observação da perversão humana.

Na escuridão, amanhã, de Rogério Pereira, nos mostra um êxodo em que em nenhuma das pontas poderia estar a felicidade; em que, de um lado, o campo é um universo que só preenchemos pois é minúsculo; e que, do outro, a cidade nunca nos recebe, e em sua escala, nos oprime, fragmenta, e, ao fim, aniquila. Seja para melhor entender os sentimentos que o regem, seja para sufocar-se em sua poesia espetacular, Na escuridão, amanhã merece ser lido, e lido mais de uma vez.

Na escuridão, amanhã
Rogério Pereira
Editora Cosac Naify
2013
128 páginas