O Ano da Morte de Ricardo Reis – José Saramago

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“Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada”.

Após ler o livro que certamente modificou de forma extrema a visão que tenha da escrita – Como funciona a ficção, de James Wood –, não pude deixar de querer ler O Ano da Morte de Ricardo Reis. No capítulo sobre o personagem, Wood deita uma série de elogios a Saramago, no que se refere à forma como é apresentado ao leitor o personagem Ricardo Reis. Este livro então que não figurava em frente a outros que eu queria ler do autor português, simplesmente se tornou uma necessidade.

O Ano da Morte de Ricardo Reis conta a história deste famoso heterônomo de Fernando Pessoa. Há quem diga que toda ficção começa de um estranhamento, e poucos conseguem fazer o que Saramago faz. Fernando Pessoa morreu em 1936, mas nem todos os seus heterônomos morreram na mesma data. Alberto Caeiro já havia falecido há vinte anos, já Ricardo Reis e Álvaro de Campos continuaram vivos. Ao saber da morte de Pessoa, o personagem principal do romance, Ricardo Reis, volta de seu exílio de dezesseis anos no Brasil. Não sabe ao certo por que volta. Apenas vem, hospeda-se no Hotel Bragança e começa a travar novas relações. O gerente, o carregador de malas, a arrumadeira, os hóspedes, a guarda local, entre outros; no entanto, a mais interessante relação deste Ricardo Reis sem um propósito definido é com o fantasma de Fernando Pessoa. Pouco depois de Reis ter ido ao túmulo de Pessoa, é visitado pela aparição do amigo, o qual lhe conta que apenas poderão conversar por nove meses, pois depois disso não poderá mais sair do cemitério. A partir daí, Saramago vai especulando pouco a pouco, como alguém que arranca da pedra uma escultura, as consequências e desdobramentos das escolhas de Reis; sempre expondo sua narrativa irônica e envolvente.

“Um homem deve ler de tudo, um pouco ou o que se puder, não se lhe exija mais do que tanto, vista a curteza das vidas e a prolixidade do mundo”.

Ricardo Reis, Fernando Pessoa, quem é quem?

Desde a primeira página, eu queria saber se Fernando Pessoa e Ricardo Reis não eram os mesmos, ficando a alma do primeiro presa a este mundo por não ter morrido o segundo. Esta era a minha teoria. Entretanto, penso que não era este o propósito de Saramago, mas sim fazer pensar o que é a realidade? Estamos mesmo vivos? Somos um ou somos vários? Ou seremos parte de um. No momento em que Reis pergunta ao outro poeta o que as pessoas veem quando caminham os dois juntos, Pessoa lhe responde:

“… Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja, e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu”.

Concluindo, não é uma obra rápida de se ler, José Saramago impõe o seu ritmo ao leitor, mas talvez aí que esteja o deleite da história. Em cada palavra, em cada frase, tudo vai crescendo, ou minguando, porém sempre envolvendo quem lê o livro.

Entre as várias citações que copiei, não poderia me despedir sem deixar para vocês pelo menos estas três:

“As coisas da fisiologia são complicadas, deixemo-las para quem as conheça, muito mais se ainda for preciso percorrer as veredas do sentimento que existem dentro dos sacos lacrimais, averiguar, por exemplo, que diferenças químicas haverá entre uma lágrima de tristeza e uma lágrima de alegria, decerto aquela é mais salgada, por isso nos ardem os olhos tanto”.

“Não se pergunte portanto ao poeta o que pensou ou sentiu, precisamente para não ter der o dizer é que ele faz versos”.

Todos nós sofremos duma doença, uma doença básica, digamos assim, esta que é inseparável do que somos e que, duma certa maneira, faz aquilo que somos, se não seria mais exacto dizer que cada um de nós é a sua doença, por causa dela somos tão pouco, também por causa dela conseguimos ser tanto…”.