Ressurreição, o primeiro romance de Machado de Assis, “aquele ruinzinho”

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“Aquele ruinzinho”, foi a forma que X., grande amigo meu e leitor voraz, definiu o primeiro romance de Machado de Assis. Armado, apenas de faca e garfo em mãos, pois almoçávamos juntos, não tive resposta, pois ainda não havia lido tal romance. Corri atrás do prejuízo e li Ressurreição.

Publicado em 1872, este livro é considerado pela crítica pertencente à fase romântica de Machado de Assis, na qual há uma mulher idealizada e perfeita, em que o herói do romance encontra experiência máxima de vida. Esta fase “menor” da obra de Machado, segundo alguns críticos, inclui ainda os romances A mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia (todos publicados entre 1872 e 1878). A fase posterior, dos romances “realistas”, se é que é possível enquadrar a obra machadiana em qualquer definição (mas os críticos insistem), começa em 1881 com um dos maiores romances da literatura brasileira (para mim, o maior): Memórias Póstumas de Brás Cuba.

Mas voltemos ao livro de Machado que meu amigo X. chamou de “aquele ruinzinho”, pois este texto é uma resposta ( a que não pude dar a X., pois ainda não tinha lido o livro. Agora posso).



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“Este foi o meu primeiro romance, escrito aí vão muitos anos”.

É desta forma que começa a edição que li de Ressurreição (um ebook  da Autch Editora, contendo todos os romances do autor). A nota é de 1905, quando se republicava este primeiro livro de Machado. A frase parece uma justificativa, algo como: “me desculpem, foi meu primeiro, não me julguem por ele”. A seguir, o autor diz que não lhe faz nenhuma mudança de composição ou estilo, apenas lhe faz correções ortográficas. E termina se justificando novamente: “… pertence à primeira fase da minha vida literária”.

Já no prefácio da primeira edição do livro, Machado, quase vinte anos antes, afirmou que não sabia o que se devia pensar de tal livro. Afirmou que a obra:

“Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer. A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais”.

O prefácio, em sim, é um verdadeiro ensaio sobre o que esperar destas partes dos livros, uma aula machadiana. Por fim, o autor explica seu método de trabalho, rapidamente, e tira de sobre si a responsabilidade sobre a qualidade da obra:

“Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela. É o que lhe peço com o coração nas mãos”.

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X. preste atenção em como começa este romance de Machado que você chamou de “aquele ruinzinho”.

“Naquele dia, — já lá vão dez anos! — o Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol. O dia estava esplêndido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do céu. Chilreavam na chácara vizinha à casa do doutor algumas aves afeitas à vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma chácara nas Laranjeiras. Parecia que toda a natureza colaborava na inauguração do ano. Aqueles para quem a idade já desfez o viço dos primeiros tempos, não se terão esquecido do fervor com que esse dia é saudado na meninice e na adolescência. Tudo nos parece melhor e mais belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte”.

X. você é um idiota (posso chamá-lo assim, pois é meu amigo). Ainda não acredito que você chamou de “aquele ruinzinho” um romance que comece desta forma. Não importa que pertença à primeira fase do autor. Só por este começo, já se percebe o gênio.

Veja bem, observe o contraste que há entre o princípio do parágrafo, com o Dr. Félix abrindo a janela num lindo dia de sol, e o final, “… um passo para a morte”. É o verdadeiro prenúncio duma tragédia. É evidente, X., que ao ler tão rápido, como você costuma fazer, não tenha notado a beleza destes detalhes, por isso lhe recomendo que releia o parágrafo de abertura.

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Vou refrescar esta tua memória ridícula, X., a respeito da história.

Dr. Félix é um médico de meia-idade que vive dos rendimentos duma herança. É um solteirão. Seus relacionamentos não duram mais do que seis meses, são semestrais. Entra em cena então a figura de Lívia, uma viúva e irmã de seu amigo, Viana. Há também a presença de um rival, não tão importante, chamado Dr. Batista; além de Raquel, uma menina que se apaixona pelo protagonista; e Meneses, amigo que também vai gostar de Lívia.

X., você sabe que por mais duro que seja um homem, e esta é a intenção do Machado ao descrever o Dr. Félix, um dia ele vai se apaixonar. Lívia pode não ser nenhuma Capitu, mas mesmo assim é uma mulher atraente – “Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranquilidade da força” – . E então este homem, firme, dono de si, apaixona-se. E logo ele se vê envolvido em ciúmes e outras intrigas. Uma hora suspeita de Lívia, noutra corre a seus pés para lhe pedir perdão.

Por fim, X., você sabe, o Machado consegue arrumar um desfecho surpreendente para o romance. Vem com uma bendita carta, que muda drasticamente a atitude de Félix, mas que o leitor não conhece o conteúdo. E aí, X., o cara mantém o suspense até o finalzinho do livro, quando revela o conteúdo da tal carta.

Admita, X., você foi muito infeliz na sua declaração. Com enredo e definição de personagens assim, não posso acreditar que chamou o livro de “aquele ruinzinho”.

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Vou ser sincero com você, X., e o faço porque é meu amigo. Acho que você nem leu este romance.

Sabe o que penso dele, de Ressurreição?

É uma grande história, que não nega a inspiração shakespeariana, da qual o autor dá testemunho no prefácio. Para muita gente, ainda não preparada para desfiar o bordado de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cuba, eu indicaria justamente Ressurreição. É rápido e fluido, de leitura em poucas horas. Uma obra com a assinatura machadiana.

Sabe o que mais? Acho sua afirmação de chamá-lo de “aquele ruinzinho” tão incoerente que, dadas as circunstâncias, afirmo a você o que Machado disse no final do livros obre seu personagem e a felicidade:

“Não a há de alcançar nunca, porque o seu coração, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confiança e a memória das ilusões”.

Se você não gostou de Ressurreição, X. foi porque há muito perdeu sua “memória das ilusões”.



Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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