Ressurreição, o primeiro romance de Machado de Assis, “aquele ruinzinho”

2
2886

[1]

“Aquele ruinzinho”, foi a forma que X., grande amigo meu e leitor voraz, definiu o primeiro romance de Machado de Assis. Armado, apenas de faca e garfo em mãos, pois almoçávamos juntos, não tive resposta, pois ainda não havia lido tal romance. Corri atrás do prejuízo e li Ressurreição.

Publicado em 1872, este livro é considerado pela crítica pertencente à fase romântica de Machado de Assis, na qual há uma mulher idealizada e perfeita, em que o herói do romance encontra experiência máxima de vida. Esta fase “menor” da obra de Machado, segundo alguns críticos, inclui ainda os romances A mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia (todos publicados entre 1872 e 1878). A fase posterior, dos romances “realistas”, se é que é possível enquadrar a obra machadiana em qualquer definição (mas os críticos insistem), começa em 1881 com um dos maiores romances da literatura brasileira (para mim, o maior): Memórias Póstumas de Brás Cuba.

Mas voltemos ao livro de Machado que meu amigo X. chamou de “aquele ruinzinho”, pois este texto é uma resposta ( a que não pude dar a X., pois ainda não tinha lido o livro. Agora posso).

[2]

“Este foi o meu primeiro romance, escrito aí vão muitos anos”.

É desta forma que começa a edição que li de Ressurreição (um ebook  da Autch Editora, contendo todos os romances do autor). A nota é de 1905, quando se republicava este primeiro livro de Machado. A frase parece uma justificativa, algo como: “me desculpem, foi meu primeiro, não me julguem por ele”. A seguir, o autor diz que não lhe faz nenhuma mudança de composição ou estilo, apenas lhe faz correções ortográficas. E termina se justificando novamente: “… pertence à primeira fase da minha vida literária”.

Já no prefácio da primeira edição do livro, Machado, quase vinte anos antes, afirmou que não sabia o que se devia pensar de tal livro. Afirmou que a obra:

“Vai despretensiosamente às mãos da crítica e do público, que o tratarão com a justiça que merecer. A crítica desconfia sempre da modéstia dos prólogos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer assim realçar as graças naturais”.

O prefácio, em sim, é um verdadeiro ensaio sobre o que esperar destas partes dos livros, uma aula machadiana. Por fim, o autor explica seu método de trabalho, rapidamente, e tira de sobre si a responsabilidade sobre a qualidade da obra:

“Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela. É o que lhe peço com o coração nas mãos”.

[3]

X. preste atenção em como começa este romance de Machado que você chamou de “aquele ruinzinho”.

“Naquele dia, — já lá vão dez anos! — o Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janela e cumprimentou o sol. O dia estava esplêndido; uma fresca bafagem do mar vinha quebrar um pouco os ardores do estio; algumas raras nuvenzinhas brancas, finas e transparentes se destacavam no azul do céu. Chilreavam na chácara vizinha à casa do doutor algumas aves afeitas à vida semi-urbana, semi-silvestre que lhes pode oferecer uma chácara nas Laranjeiras. Parecia que toda a natureza colaborava na inauguração do ano. Aqueles para quem a idade já desfez o viço dos primeiros tempos, não se terão esquecido do fervor com que esse dia é saudado na meninice e na adolescência. Tudo nos parece melhor e mais belo, — fruto da nossa ilusão, — e alegres com vermos o ano que desponta, não reparamos que ele é também um passo para a morte”.

X. você é um idiota (posso chamá-lo assim, pois é meu amigo). Ainda não acredito que você chamou de “aquele ruinzinho” um romance que comece desta forma. Não importa que pertença à primeira fase do autor. Só por este começo, já se percebe o gênio.

Veja bem, observe o contraste que há entre o princípio do parágrafo, com o Dr. Félix abrindo a janela num lindo dia de sol, e o final, “… um passo para a morte”. É o verdadeiro prenúncio duma tragédia. É evidente, X., que ao ler tão rápido, como você costuma fazer, não tenha notado a beleza destes detalhes, por isso lhe recomendo que releia o parágrafo de abertura.

[4]

Vou refrescar esta tua memória ridícula, X., a respeito da história.

Dr. Félix é um médico de meia-idade que vive dos rendimentos duma herança. É um solteirão. Seus relacionamentos não duram mais do que seis meses, são semestrais. Entra em cena então a figura de Lívia, uma viúva e irmã de seu amigo, Viana. Há também a presença de um rival, não tão importante, chamado Dr. Batista; além de Raquel, uma menina que se apaixona pelo protagonista; e Meneses, amigo que também vai gostar de Lívia.

X., você sabe que por mais duro que seja um homem, e esta é a intenção do Machado ao descrever o Dr. Félix, um dia ele vai se apaixonar. Lívia pode não ser nenhuma Capitu, mas mesmo assim é uma mulher atraente – “Lívia representava ter vinte e quatro anos. Era extremamente formosa; mas o que lhe realçava a beleza era um sentimento de modesta consciência que ela tinha de suas graças, uma coisa semelhante à tranquilidade da força” – . E então este homem, firme, dono de si, apaixona-se. E logo ele se vê envolvido em ciúmes e outras intrigas. Uma hora suspeita de Lívia, noutra corre a seus pés para lhe pedir perdão.

Por fim, X., você sabe, o Machado consegue arrumar um desfecho surpreendente para o romance. Vem com uma bendita carta, que muda drasticamente a atitude de Félix, mas que o leitor não conhece o conteúdo. E aí, X., o cara mantém o suspense até o finalzinho do livro, quando revela o conteúdo da tal carta.

Admita, X., você foi muito infeliz na sua declaração. Com enredo e definição de personagens assim, não posso acreditar que chamou o livro de “aquele ruinzinho”.

[5]

Vou ser sincero com você, X., e o faço porque é meu amigo. Acho que você nem leu este romance.

Sabe o que penso dele, de Ressurreição?

É uma grande história, que não nega a inspiração shakespeariana, da qual o autor dá testemunho no prefácio. Para muita gente, ainda não preparada para desfiar o bordado de Dom Casmurro ou Memórias Póstumas de Brás Cuba, eu indicaria justamente Ressurreição. É rápido e fluido, de leitura em poucas horas. Uma obra com a assinatura machadiana.

Sabe o que mais? Acho sua afirmação de chamá-lo de “aquele ruinzinho” tão incoerente que, dadas as circunstâncias, afirmo a você o que Machado disse no final do livros obre seu personagem e a felicidade:

“Não a há de alcançar nunca, porque o seu coração, se ressurgiu por alguns dias, esqueceu na sepultura o sentimento da confiança e a memória das ilusões”.

Se você não gostou de Ressurreição, X. foi porque há muito perdeu sua “memória das ilusões”.