Tropical sol da liberdade: o período ditatorial na visão de uma mulher

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Por meio de uma personagem feminina, a obra Tropical sol da liberdade  retrata o período da ditadura no Brasil, bem como a repressão e violência

Ana Maria Machado @Bruno Veiga
Ana Maria Machado, autora de “Tropical sol da liberdade”

Introdução 

Ana Maria Machado, escritora mais do que conhecida no Brasil e até mesmo fora dele, não escreveu apenas para crianças. Embora muitos de nós a conhecemos por meio de livros como Menina bonita do laço de fita e Bisa Bia, bisa Bel, a escritora também escreveu (e ainda escreve) livros para adultos, e um destes é Tropical sol da liberdade, lançado em 1988, que aqui será abordado.

Nesta obra,  temos uma voz feminina da personagem Lena, uma jornalista, que narra acontecimentos do período ditatorial, numa tentativa de recompor sua vida após o exílio. A narrativa permeia, portanto, o período da ditadura militar no Brasil, que ocorreu entre 1964 a 1985, época em que muitos foram mortos, torturados, exilados e subjugados. Sem contar os fatos ocorridos nos porões das delegacias e quartéis.

A autora do romance passou por esse período na vida real e, posteriormente, tratou de trabalha-lo em uma obra literária. Por isso, Ana Maria Machado está em Lena, a visão da escritora é a de quem esteve no cerne do conflito, de quem foi participante e lutou pela liberdade de expressão. O livro começou a ser escrito em 1982 e publicado em 1988 (período dos “anos de chumbo” da ditadura militar).

 

Contexto histórico de Tropical sol da liberdade

O romance nos parece uma espécie de documento. Em cada capítulo podemos observar a preocupação do registro histórico do momento, sob o olhar de uma mulher comum que participou ativamente das passeatas e das manifestações. Mulher que também esperou em casa pelos familiares que estavam na linha de frente dos protestos contra o opressivo regime militar. Narra-se, na obra, sobre o comportamento daqueles que eram da classe média, a atuação das entidades estudantis que foram importantíssimas na época, dos mais pobres e dos jornalistas.

O contexto histórico em que o romance foi inserido faz urgente a voz e o engajamento de Ana Maria Machado. E não era para ser diferente, uma vez que, como salienta Sartre, a tarefa do escritor é fazer com que “ninguém possa ignorar o mundo e se considerar inocente diante dele”. E por isso que podemos dizer que Tropical sol da liberdade é uma obra engajada por acolher as vítimas da dor, por se fazer contestação e por denunciar fatos desumanos e, também, por guardar a memória dos vencidos.

História e ficção se entrelaçam neste romance. Embora não se trate de um relato jornalístico, reconhecemos na obra os fatos reais do período ditatorial. Os fatos, como já mencionado, são narrados pela ótica feminina, o que dá um grande diferencial ao romance, já que poucas mulheres tinham voz a respeito desse assunto e poucas, em relação a toda população do país, eram politizadas. É por meio de Lena que a sociedade é questionada. Tratam-se de questionamentos, inclusive, que não só dialogam com o tempo passado, mas com o nosso presente.

A obra não tem o objetivo de retratar grandes heróis, líderes ou mártires, pois esta fala de pessoas comuns daquele período, que sofreram durante um regime opressor e autoritário, mas que não se calaram e reivindicaram direitos.

DITADURA
Fotografias do período da ditadura militar no Brasil

 

Mas quem é Lena, afinal?

Maria Helena, ou simplesmente Lena, é uma jornalista que, após um longo período de exílio em função da ditadura militar no Brasil, volta para recuperar sua vida anterior e reencontrar a família. A personagem se autoexilou por não aguentar o autoritarismo e a repressão do período ditatorial e, também, para evitar uma eventual prisão, pois nada mais era que a irmã de Marcelo, um dos principais líderes políticos do Movimento Estudantil brasileiro, além de um dos responsáveis pelo sequestro do embaixador americano.

Instalada numa casa de praia em companhia da mãe, a jornalista recorda cenas de sua juventude e repassa os motivos que a fizeram deixar o país. Mãe e filha rememoram os momentos mais agudos da repressão e, ao mesmo tempo, tentam colocar certos pingos nos “is” no que diz respeito ao convívio e delicada convivência das duas. Lena, inicialmente, tinha a ideia de escrever uma peça sobre a repressão, no entanto não consegue devido a seu estado agravante de saúde.

É importante mostrar que, embora fizesse parte da imprensa, Lena não concordava com a negação das reais informações. Sente-se doída pela repressão, o autoritarismo e a censura que tomaram conta, inclusive, dos jornais. Achava injusto negar a verdadeira informação ao público:

“Doía nela mesma cada vez que percebia a impressa negando informação ao público, seja lá por que motivo – violência externa, incompetência ou insensibilidade profissional, interesses particulares. Tinha sido muito difícil conviver durante tantos anos com as notas de proibição da censura policial que vinha, quase todo dia, cortar a palavra e o sentido da própria razão de ser jornalista. Lena lembrava desses anos, com um aperto no peito. O telefone tocava e lá vinha uma voz anônima vagamente identificada como agente Fulano ou Beltrano, sem qualquer possibilidade de que se apurasse quem era, ditava que “de ordem superior, fica terminantemente proibido aos veículos de comunicação social qualquer noticiário, referência, entrevista ou comentário sobre o assunto x”.”. (MACHADO, 1988, p. 150)

A personagem tinha total consciência da censura direcionada ao jornal e às mídias em geral; guardava cópia de notas de censura e bilhetinhos de Barros, o seu chefe:

“Guardava cópias de todas as notas de censura recebidas durante o tempo em que trabalhou no jornal. E também cópia de vários dos inúmeros bilhetinhos que o Barros manda para a redação, diariamente, a partir da leitura atenta do jornal do dia. Uma série de críticas, broncas, observações e proibições que traçavam o perfil dessa censura informal com grande clareza, principalmente quando se recorda que esses bilhetinhos representavam só a ponta visível do iceberg, já que a grande maioria dos vetos vinha mesmo na véspera, antes que o texto fosse aprovado, em emocionais rompantes de viva voz, jamais registrados para a história.” (MACHADO, 1988, p. 151-152)

Certa vez, Lena em conversa com seu amigo Jorge, que acaba de chegar da França – estava fazendo pós-graduação –, recomenda como é melhor agir no período de repressão e autoritarismo, o que demonstra como era viver durante aquele tempo:

“— Jorge, os tempos estão muito diferentes… Para o próprio bem e a segurança de cada um de nós, é melhor não ouvir conversas, não ver pessoas, não saber quem estava onde. Assim, o risco fica menor para todo mundo. De uma forma ou de outra, está todo mundo tentando resistir, ajudar, fazer alguma coisa. Mas a repressão é muito dura, ninguém sabe nem o que pode fazer, por onde começar. Tem gente que vive escondida, com nome falso, não vai aos lugares que frequentava. E é bom a gente não se arriscar a saber nada desses clandestinos, isso só expõe as pessoas inutilmente… E tem gente como nós, que tem uma vida legal, um emprego certo, endereço conhecido, mas a gente está sempre navegando em águas cheias desses icebergs da clandestinidade. Tem que ter cuidado para não esbarrar e não afundar todo mundo.” (MACHADO, 1988, p. 249)

Durante o exílio em Paris, na condição de sujeito politizado, Lena não fechava os olhos para os acontecimentos no Brasil, pelo contrário, ela pensava que precisava abrir olhos e tudo ver para poder contar:

“E Lena, sentadinha na sala de seu apartamento em Paris, viu que o Brasil não estava vendo e se recusava a ver. Viu a moça descer do avião carregada por um companheiro, porque não podia mais andar. Viu a cicatrizes no corpo Honório, em close. Viu as pernas e os antebraços de Rodrigo, atrofiados, subitamente finos, de ficarem pendurados no pau-de-arara. Viu as gengivas de Gabriel em carne viva, uma chaga só, de tanto levar choque elétrico. As lágrimas queriam impedi-la de ver mais. Mas ela tinha que ver tudo, era o mínimo que podia fazer. Ver para contar.” (MACHADO, 1988, p. 272)

 

Breves considerações finais

Daniel Pereira
“Tropical sol da liberdade” (Editora Nova Fronteira, 1988)

Este pequeno ensaio foi feito não com o intuito de ser militante ou coisa semelhante, mas desvelar que o período da Ditadura Militar do país não está somente nos livros de História ou nos documentários. A literatura também tratou de falar dessas questões por meio da ficção, um grande exemplo é Quarup, de Antonio Callado. Até mesmo a literatura infantil tratou desse assunto, mas, é claro, de forma menos explícita.

É importante expor que nomes femininos também fizeram sua parte na literatura brasileira, como Ana Maria Machado fez e faz até hoje. Que personagens femininas fortes estão presentes em nossas obras literárias; personagens que não mais só sofrem pelo grande amor e ficam a espera de encontra-lo. Um grande exemplo é esta obra, em que uma mulher, altamente politizada, conta fatos vivenciados durante um período de repressão e opressão; e não só conta com um olhar de quem só observa, mas com um olhar de quem participou de tudo, viu o irmão sendo perseguido, sofreu inúmeros momentos com medo de que ele fosse torturado, teve seu trabalho, de certa forma, moldado pelo autoritarismo, e participou ativamente das manifestações. Lena narra de dentro da história.

 

Referência:

MACHADO, Ana Maria. Tropical sol da liberdade. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1988.