Condições para escritoras, segundo Virginia Woolf

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A escritora cria uma situação hipotética: e se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente talentosa? Essa irmã provavelmente não conseguiria chances iguais e seu talento seria sufocado. Por mais que se diga que a genialidade não escolhe sexo ou classe, o grupo social privilegiado obtém mais condições de manifestá-la.

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Virginia Woolf foi convidada, em 1928, para palestrar em duas universidades exclusivas para mulheres na Inglaterra sobre o tema “As Mulheres e a Ficção”. Posteriormente, seus artigos foram publicados em livro. O estilo acadêmico se mistura ao estilo ficcional da escritora em um discurso muito bem pensado e desenvolvido, feminista, sem radicalismos. Virginia começa com uma premissa: uma mulher, para conseguir ser escritora, precisa ter um teto todo seu (título da palestra) e 500 libras por ano, ou seja, um espaço para trabalhar à vontade e a situação financeira estável. Então, ela tenta exemplificar o seu argumento através de uma narrativa que descreve sua rotina e sua linha raciocínio em relação ao tema imposto.

Procurando dar um tom de generalização e afastamento, ela escolhe uma personagem para essa narrativa (apesar do uso da 1ª pessoa): Mary Seton ou Carmichael, mulher comum, culta, que possui as duas condições já expostas para escrever, porém não observa o mesmo ao seu redor. Mary passeia pelo campus de uma universidade refletindo sobre o tema “As Mulheres e a Ficção”. No refeitório, durante o almoço, nota a presença de um gato sem rabo, figura grotesca e rara. Fica no ar a reflexão sobre o que exatamente poderia simbolizar aquele gato sem rabo na universidade. A mulher? A mulher escritora? A mulher universitária? A mulher que não possui um teto todo seu e 500 libras por ano?

um teto todo seuÀ noite, Mary visita uma amiga numa universidade feminina. Durante o jantar, ela percebe o contraste entre a refeição farta do outro campus e a sopa simples daquele. Por que a verba para a universidade feminina é tão inferior? Por que as fundadoras não lutaram por mais recursos? Porque estavam ocupadas cuidando de suas casas, de seus filhos e deixando os assuntos financeiros para os maridos.

Mary resolve consultar o acervo do museu e da biblioteca e constata que há muito mais livros de homens falando sobre as mulheres do que de mulheres falando sobre homens, além da imensamente maior quantidade de escritores do que de escritoras. Os escritores e pensadores, aliás, apresentam as mais variadas opiniões sobre o sexo oposto; alguns o desprezam, outros o temem, outros o idealizam. Mary reflete sobre o patriarcado e a submissão feminina. Ela julga que os homens não querem que as mulheres descubram seu valor, por medo de que elas os superem. É o orgulho e a necessidade de autoafirmação que faz dos homens dominadores e controladores de suas companheiras, por tanto tempo e de maneira tão intensa. Ela não os culpa, apenas tenta compreender seus motivos. Entretanto, observa que muitas mulheres escritoras os responsabilizam por sua condição social desprivilegiada e isso afeta negativamente sua literatura. Analisando um conto de Charlotte Brontë, ela marca como a narrativa é interrompida para um desabafo revoltado contra a posição feminina na sociedade, o que prejudica o andamento da história. Jane Austen, ao contrário, conseguiu construir uma boa literatura, sem o peso da amargura feminista.

Virginia ou Mary é adepta da teoria de Coleridge de que a mente do escritor deve ser andrógina, para que a criação artística seja livre. No entanto, é difícil fugir das imposições do gênero. Se já é difícil profissionalizar-se como escritor, pois não há uma demanda social direta, para a mulher, é ainda mais difícil, devido às menores oportunidades, em termos de viagens, experiências culturais e sociais. Ela cria uma situação hipotética: e se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente talentosa? Essa irmã poderia tentar o mesmo caminho do dramaturgo, mas muito provavelmente não conseguiria chances iguais e seu talento seria sufocado. Por mais que se diga que a genialidade não escolhe sexo ou classe, o grupo social privilegiado obtém mais condições de manifestá-la.

A autora reflete ainda sobre o paradoxo entre a condição privilegiada da mulher na ficção, sendo as personagens femininas da literatura normalmente fortes, e na realidade, em que se demorou tanto para que as mulheres conseguissem conquistar seus direitos, gradativamente. Ela faz um panorama das mulheres escritoras a partir do século XVIII até o início do século XX, comentando estilos e inovações.

No final das contas, Woolf deixa mais porquês do que respostas, apesar de expor suas próprias conclusões, terminando o discurso com sua voz. Dentre suas considerações finais, está o cuidado em não se comparar talentos femininos e masculinos, já que, em seu ponto de vista, é perigoso medir aptidões: “Contanto que você escreva o que tiver vontade de escrever, isso é tudo o que importa; e se isso importará por eras ou por horas, ninguém pode afirmar”. Woolf ressalta as diferenças entre os gêneros e como eles se complementam mutuamente (daí a ideia da mente andrógina do escritor, aberta para a arte, sem adotar partidos).

O curioso é perceber a pertinência da fala de Virginia até os dias de hoje. Muitas situações se mantêm atuais. O machismo tornou-se mais velado, não deixou de existir. Mesmo que as mulheres tenham obtido sua autonomia, a pressão social sobre elas é ainda maior: precisam ser boas mães, boas esposas, boas donas de casa e profissionais exemplares, além de felizes e lindas, é claro. Como arranjar tempo para escrever, ainda que haja talento?

O discurso da escritora gera, portanto, reflexões para a literatura, a história e a filosofia, pois o assunto dificilmente será esgotado. Esta edição conta ainda com um posfácio da escritora e crítica literária contemporânea Noemi Jaffe (que deixa ainda mais perguntas no ar, como: as mulheres do século XXI ainda são gatos sem rabo? e o que seria a literatura feminina, afinal?) e alguns trechos selecionados do diário de Virginia Woolf, em que é possível entrever pensamentos da autora entre uma produção literária ou acadêmica e outra. Recomendado para todas as mulheres, escritoras ou leitores, e todos os homens que as admiram e respeitam.

 

Referência:

WOOLF, Virginia. Um Teto Todo Seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.