Uma entrevista com José Pinto

O autor português José Pinto fala sobre artes, literatura, tradução e psicologia, além de oferecer um conselho final sobre nossos tempos.

José Pinto: foto divulgação

José Pinto faz artes. Nascido em 1988, na cidade de Vila Real, região de Trás-os-Montes, interior nordeste de Portugal, é filho de mãe angolana, retornada da Guerra Colonial, e pai português.

Sua jornada nas letras teve início aos 17 anos, com prosas poéticas. Em 2015, compôs com seis poemas o livro HUMANUS (Corpos Editora). No ano seguinte, passou a traduzir galego e castelhano ao português e a fazer revisão na Revista dos Tr3sReinos (Galiza-Portugal), além de colaborar com a Revista Palavra Comum (Galiza-Portugal). Poemas, textos para teatro, traduções e sessões de teatro radiofônico foram publicados nas revistas e zines Zunái (Brasil), Palavra Comum, Enfermaria 6 (Portugal), DiVersos (Portugal), PONTE (Angola-Brasil-Cabo Verde-Portugal), Virada (EUA-Portugal) e TXON (Cabo Verde).

Quatro poemas autorais foram vertidos em melodramas pelo compositor, maestro e pianista Filipe Pinto e apresentados na Leipziger Städtische Bibliotheken, Leipzig (Alemanha) em 2015 e 2017. Enquanto dramaturgo, escreve textos para teatro desde 2017, cujas estreias aconteceram em Cabo Verde e Portugal. E este ano foi publicado o texto para teatro ‘TOCA: oito poemas de amor e uma canção angustiada’ (UMCOLETIVO, Portugal), o livro de poesia ‘Chá para o nevoeiro’ (Editora Urutau, Brasil-Galiza) e no passado dia 18 foi posto à venda o livro ‘Literatura e cultura em tempos de pandemia’ (Guerra e Paz Editores, Portugal), em que participou junto com 74 autoras e autores de países onde se fala também português.

Você pode falar sobre uma experiência transformadora nas artes?

JOSÉ PINTO: Integrei uma missão de voluntariado em Mindelo, Cabo Verde, que começou em 2016, durante a qual comecei a mobilizar amigos(as) e interessados(as) da comunidade para atividades em torno da poesia, o que veio a resultar no projeto ‘txon-poesia’. ‘Txon’ é ‘chão’ em crioulo. E nasceu da necessidade de uma programação com atividades poéticas – concurso nacional de poesia, Núcleo de Teatro Fórum, concertos, projeção, teatro, performance, spoken word, oficinas – expressa pela comunidade, por isso a curadoria assenta desde o primeiro dia numa dinâmica em que toda a gente pode participar e partilhar criações poéticas num ambiente onde ‘todos podem ensinar todos’ – lembrando o mestre Paulo Freire. Além disso, a partilha é intercultural – nessa medida é linguística, integrando as línguas maternas dos países onde se fala português – e transdisciplinar, acolhendo e apresentando poesia e poetas que trabalham a palavra poética em ligação às outras áreas artísticas.

Convido o leitor a conhecer melhor e a envolver-se neste projeto em www.txonpoesia.org e para conhecer o meu trabalho de forma detalhada pode espreitar www.josepinto.net.

Qual a sua definição de arte?

JOSÉ PINTO: Um corpo que respira é um corpo que finta a morte e se agarra obstinadamente à vida, embora de modo involuntário. Uma mãe ou pai solo que cria quatro filhos e passa o dia a trabalhar, desejoso(a) de voltar a casa pra brincar com eles, é arte. Um(a) jovem que insiste na procura de emprego e, após várias tentativas sem resposta, continua a sair de casa com um sorriso na cara, é arte. Manter a lucidez num país onde a estrutura psicológica dos governantes se parece com a de um recém-nascido que procura sem sucesso a mama da mãe, é arte.

Em algum grau, estou correta em pensar que os gêneros aos quais você mais se identifica são poesia e teatro?

JOSÉ PINTO: Dá-me prazer caminhar entre gêneros, não só poesia e teatro, como também prosa, sobretudo com bastante densidade poética. ‘Butoh ma’ significa em japonês ‘estar entre’: é a partir deste espaço de potencialidades por descobrir que habitualmente trabalho as palavras, originando tanto poemas como prosas poéticas e textos para teatro. Entendo que a vida tem diferentes ritmos, sobretudo emocionais e afetivos, que modulam em parte a forma que as construções criativas vão tomando e, enquanto nos textos para teatro assumo que há um corpo em tensão para se expressar, nos outros gêneros a liberdade vai desde explicar melhor o que penso e sinto através uma prosa até procurar uma revelação através de um poema.

Que desejos há por trás de seu consumir e divulgar arte?

JOSÉ PINTO: Consumir, consumo diária e quase forçosamente, sobretudo nestes últimos meses, dada a pandemia, nas redes sociais. Se, por um lado, me tem possibilitado conhecer pessoas com muita qualidade artística, por outro lado questiono-me cada vez mais por que é que esse consumo me sabe sempre a pouco, por exemplo com espetáculos de teatro, nos quais a potência vem justamente do que falta: o corpo presente. Já não tenho esta reação relativamente à literatura, porque as palavras, os textos e os versos são legíveis em qualquer formato, embora eu continue a preferir o cheiro do papel do livro!

Tenho por hábito partilhar arte, sobretudo relacionada com poesia, nas atividades do txon-poesia. De algum modo, não acho que tenho grande apetência e feitio para a ‘cultura da simpatia’. Por isso, desde o início deste projeto, apostamos em poetas e criativos cujo trabalho admiramos mesmo antes de conhecer pessoalmente, mesmo antes de estarem publicados, procurando pureza na experiência do que é belo para mim e para nós. A seguir, divulgamos e encontramos formas de podermos promover o trabalho, lembrando que no txon-poesia já participaram dezenas de poetas dos países onde se fala português, desde adolescentes a pessoas mais velhas, desde poéticas afrocentradas a poéticas políticas, com o denominador comum de apresentarem experiências que habitualmente surpreendem e tocam o público.

Ainda sabes dizer o porquê de escreveres?

JOSÉ PINTO: Eu trabalho atualmente como psicólogo para sobreviver, o que não quer dizer que não me sinta realizado, porque gosto do que faço e tenho ido à luta por isso mesmo. No entanto, é a escrita que me possibilita expressar sem concessões e com toda a liberdade

que lhe reservo. E sim, sinto necessidade e tanto maior é essa necessidade quão maior é a profundidade com que encaro o meu trabalho de escrita. E cá está uma das palavras que se lê, que se escuta e que se vê raramente neste tempo pós-pandemia: profundidade.

Estou convicto de que, com base em alguma estatística, as redes sociais não são a plataforma ideal para que as trocas genuinamente humanas e interculturais aconteçam, porque enquanto consumimos mensagens que quase nos incitam à luta por justiça, fazemo-lo a olhar para o computador ou smartphone, como uma espécie de antidepressivo, em que a ligação que existe é a do usuário com a tecnologia. Questiono justamente esta relação no livro ‘Chá para o nevoeiro’.

Hoje, como é seu processo criativo? Quais são suas inspirações?

JOSÉ PINTO: Viajar tem sido a maior fonte de inspiração para mim, tanto que menciono no ‘Chá para o nevoeiro’ várias cidades e locais específicos por onde tenho viajado e vivido nos últimos anos, pelo continente africano, asiático e europeu. Viajar desperta os sentidos e a sensibilidade para o que é diferente de mim e desse embate, aprendo e bebo muito das ruas. Acredito, aliás, que um dos grandes dilemas da atualidade é a dificuldade em lidarmos com o que é e quem é diferente de nós e das referências que construímos e nos incutiram na infância, adolescência e pela vida fora.

E penso que é do diálogo intercultural – diálogo enquanto movimento bilateral que parte da escuta e da empatia – que vamos poder resolver as abismais falhas de comunicação que nos afastam uns dos outros. Talvez um dia possamos festejar o Ramadão com os árabes e os árabes festejarem conosco o Natal. Afinal para que há religiões, senão para expressar a necessidade humana que temos de nos transcender e libertar da imperfeição? A diferença está na forma como manifestamos exteriormente essa vontade de nos sentirmos livres, que depende da cultura onde nascemos.

Voltando à tua pergunta, inspiro-me muitas vezes em coisas pequeninas, quase invisíveis, do dia a dia e da minha relação com essas coisas e sobretudo com pessoas. Integro memórias e sonhos meus junto com referências a outros(as) autores(as), cujo trabalho literário e artístico me faz sentir lido ou serve de espelho meu. Gosto bastante de encetar diálogo com outras vozes, através da escrita automática, do recorte e da montagem. Durante a construção escrita, guardo momentos para ler em voz baixa e em voz alta, porque é importante pra mim sentir que comunico alguma coisa para ouvintes e leitores(as). Realmente, não consigo dizer-te se comecei a escrever poemas antes de ler poemas e agora que penso melhor sobre esta questão, foi a leitura de outros(a) poetas que me levou à escrita autoral.

Desde há alguns meses pra cá, comecei a dedicar-me à experimentação musical e, juntamente com a produção, tenho dado liberdade à minha prática de mistura e djing, que já me fez tocar em bares e gravar alguns sets quando me estava a graduar na faculdade. Entretanto descobri a potência das palavras e deixei de misturar música até há pouco tempo, em que me desafiei a colocar ambas em diálogo e a não pensar nelas em separado.

Quanto à psicologia, qual a sua postura teórico-metodológica?

JOSÉ PINTO: Eu formei-me como psicólogo clínico e desde então mantenho Carl Rogers como autor essencial em qualquer prática, tal como considero que a empatia é uma capacidade fundamental – não apenas dentro do gabinete, mas na própria vida -, e continuo um estudo interessado pelo trabalho de Freud que, entretanto tenho repartido por teorias de discípulos da corrente freudiana mais atualizada, como Fanon, Adler e Yalom.

Trabalhei, colaborei em e coordenei vários projetos implementados com grupos de comunidades específicas, desde pessoas toxicodependentes, LGBTQ, comunidades africanas, comunidade sem abrigo, pessoas idosas e, mais recentemente, comunidade cigana, de modo que, no geral, a vertente clínica me tem ajudado a estabelecer relações individuais, sem me fazer perder de vista o fortalecimento dos grupos e das comunidades por onde tenho passado.

O que diria sobre a relação entre psicologia e a arte, se é que há alguma?

JOSÉ PINTO: Hoje vivemos a evidência de estarmos interconectados e, deste modo, não penso que devamos separar a psicologia da arte como de todas as disciplinas científicas, sob pena de reduzirmos a amplitude da nossa análise perante os ataques de Israel a Palestina, a violação dos direitos humanos na Colômbia, a negligência genocida do governo bolsonarista, a desigualdade na distribuição de vacinas da Covid-19 entre os europeus e os africanos e a Europa afogada em burocracia ante a migração diária de milhares de pessoas que procuram uma vida digna para as suas famílias, ao mesmo tempo que os europeus entram facilmente em grande parte dos países de todo o mundo e é justo?

A criatividade é um denominador comum à arte de viver e à definição de arte, enquanto habilidade que possibilita a criação de um objeto artístico. Mas penso que a ligação entre psicologia e arte vai mais longe: há uma dimensão propriamente terapêutica da criação e da fruição artística, além da estética e da técnica. A ética é uma dimensão que voltamos agora a questionar, talvez esquecida desde há uns anos pra cá, agora tornou-se elemento central das discussões e da reflexão pública, não só no que toca ao universo digital, mas também ao grau de relação que um objeto artístico tem com a vida das pessoas e das comunidades e de que modo está ligado à ecologia de um território.

Em muitas das intervenções que menciono acima, usei não apenas técnicas  da psicologia, como também práticas artísticas e o balanço que faço agora é que quando procuras escutar ativamente outras estórias, outras versões e outras maneiras de ver o mundo, ficas mais propenso a empatizar e, como tal, mais apto a saber como podes ajudar a fortalecer talentos e capacidades, competências e motivações individuais e grupais. E se integrares na planificação, por exemplo, dinâmicas e jogos teatrais – lembro aqueles jogos para atores e não-atores propostos pelo Teatro do Oprimido do Boal, que uso incansavelmente –, estás a potenciar as práticas psicológicas e elas irão potenciar o modo como abordas e colocas os jogos ao grupo. No fundo, as práticas psicológicas facilitam e, no meu caso, fazem toda a diferença na escolha do processo que adoto no meu trabalho.

Vamos falar um pouco sobre línguas…? Quais você estuda?

JOSÉ PINTO: Estudei inglês e castelhano mais a fundo, mas como trabalhei na França, aprendi francês, embora tenha necessitado dele para contextos mais conversacionais. Quando vivi em Cabo Verde aprendi a falar e a escrever crioulo. O crioulo é uma língua oral na essência, que foi criada para resistir às manobras coloniais e aos intuitos ocidentais da imposição da escrita. Além disso, em cada uma das dez ilhas do arquipélago fala-se uma variante distinta de todas as outras ilhas, mas têm havido esforços para se criar uma estrutura básica para a escrita do crioulo. O que mais me fascina aprender na escrita do crioulo é precisamente a plasticidade linguística, sem que haja um quadro de regras gramaticais fixas que toda a gente deve seguir. Como dizem alguns amigos meus cabo-verdianos, cada um fala o seu próprio crioulo e há entendimento aí. E pergunto, cada um de nós, mesmo sendo europeus, não tem o seu próprio modo de linguajar, que desenvolve ou não desenvolve a partir das bases que aprendeu?

Gostas de fazer traduções?

JOSÉ PINTO: Gosto de traduzir, sim. Tenho algumas traduções publicadas, embora ainda nenhuma em livro. Tenho traduzido do inglês, do castelhano e do galego ao português e do português ao crioulo e vice-versa. O exercício de traduzir uma voz poética que não é a minha faz-me crescer, em primeiro lugar, em empatia e creio que, se não te sentires lido pelas palavras do(a) poeta que irás traduzir, isso refletir-se-á na tradução que fazes. Ao longo dos meus processos de tradução e de escrita, procuro sobre os efeitos cognitivo-emocionais de quem lê – uma vez que o livro se destina factualmente a leitores(as) e à leitura – e, inevitavelmente, confio que o que entrego ao processo de escrita se espelha na experiência de leitura. E, no que toca à tradução, o desafio duplica, porque são duas vozes que dançam num só poema, no qual não creio que se consiga diluir a minha voz e jamais a voz do(a) poeta que traduzi.

O que está incluído em “língua portuguesa”?

JOSÉ PINTO: Ter vivido em Cabo Verde pôs-me em contato com fatos históricos que fazem da língua portuguesa uma língua que foi imposta por um grupo de pessoas autodesignadas de elite que, recorrendo à violência, ao silenciamento e à distorção do próprio povo e da cultura dos povos africanos e americanos, subjugou, em prol da ilusão colonialista e de império. Como qualquer noção de império o é, delirante, infantil e insegura. Não podemos apagar nem esquecer a história e a herança que carregamos hoje e é fundada na dor, mas na possibilidade do diálogo entre línguas, culturas e cosmogonias diferentes que se continuam forçosamente a entender em português e a traduzir-se em português, em qualquer um dos países onde a língua é falada e escrita.

Nada nem ninguém deve ser silenciado e o tempo é o da compreensão de que qualquer pessoa é um cosmos a ser escutado e respeitado, além dos estereótipos e preconceitos nos quais se funda e dissemina o ódio, a polarização e a desinformação. Não é por eu ser um homem branco que deverei ser tomado por capitalista, neocolonialista, sexista e heterossexual. Não é por se ser árabe que se é terrorista. Não é por se ser feminista que não se pode cozinhar em casa. Não é por se ser gay que se é afeminado. Os rótulos vivem na mente de quem os perpetua e a pandemia iluminou o que de mais humano há, para o qual não há ainda nome nem sei dizer se haverá, porque o Eros, o instinto de sobrevivência, a capacidade de lutar por se sentir livre, no que há de singular em cada um e em cada uma, pela vida e pelo que e por quem amamos não tem rótulo: é invisível. E é tempo para que se expresse o que é invisível.

O que dizes sobre a expressão “África lusófona”?

JOSÉ PINTO: África é um continente vastíssimo e constituído por 54 países, cada um deles com uma cultura e sociedade única e línguas diversas. Por isso, prefiro responder do ponto de vista de um português que viajou à Guiné-Bissau em 2013 e, mais tarde, viveu em Cabo Verde durante quatro anos, onde conheci, dialoguei, trabalhei e fiz amizades, juntei-me com uma cabo-verdiana e tenho um filho com dupla nacionalidade cabo-verdiana e portuguesa. Escutei muitas estórias e costumo dizer que apenas soube concretamente o que foi o colonialismo português quando vivi com cabo-verdianos.

Neste sentido, continuam a existir práticas, talvez menos explícitas, que mantêm posições de sobreposição do que é ocidental ao que é cultural, isto é, ao que é feito pelos cabo-verdianos, tendo em atenção que entendo cultura como tudo o que é produzido pelas pessoas de um território específico. A língua portuguesa é sujeita ainda a esse tipo de práticas opressivas, habitualmente exclusiva de um círculo muito restrito de pessoas falantes nesses países africanos onde se fala português, por motivos históricos e motivos até importantes como a internacionalização. Mas essa designada lusofonia nega diariamente o diálogo com poetas e artistas que se expressam nas suas línguas maternas.

Onde estão os(as) autores(as) africanos(as) nos festivais de poesia, de literatura e de arte, sobretudo quem se expressa na sua língua materna? É muito fácil para quem fala português dizer que o poeta X tem de se esforçar e traduzir para português, se quiser ser reconhecido. E se for em inglês: sucesso garantido. Se se expressar na língua com que nasceu e cresceu, as hipóteses são remotas, mesmo que o seu trabalho tenha muita qualidade. Acho, contudo, que a integração das línguas maternas é um movimento que vai acontecendo e despontando mais e mais e estou convicto que esta é a tendência natural, ou seja, de descolonização da cultura e da língua. A Revista TXON celebra essa diversidade e o diálogo intercultural, abrindo à participação de poetas e artistas que se expressam nas suas línguas maternas e o nosso objetivo é apostar ainda mais nas traduções para crioulo. Convido o leitor e a leitora a conhecer a revista em https://txonpoesia.org/revista-txon/numero-000/

Tu moraste em Portugal e Cabo Verde… podes contar lembranças literárias que viveu em cada país?

JOSÉ PINTO: Em Cabo Verde, ocorre-me logo o momento após a abertura oficial da segunda edição do txon-poesia, Festival Internacional de Poesia e Poética em Mindelo, 2019, em que o poeta Jorge Carlos Fonseca, também Presidente da República de Cabo Verde, foi surpreendido pelo coro que participou na oficina Coral de Poetas, facilitada pela poeta e performer galega Silvia Penas. Ora, esse coro, que havia reescrito o ‘UIVO’ do Allen Ginsberg para a realidade cabo-verdiana, abriu o festival nesse ano e no momento em que estava a entoar os textos, um dos versos expressa claramente ‘Cabo Verde, és uma merda’, ao que a corista discorreu de seguida uma série de razões que justificaram aquele embate, tendo a anuência de várias pessoas do público. Jorge Carlos Fonseca teve uma surpreendente atitude democrática, tendo permanecido sereno e tendo aplaudido a performance no final.

Porque é isso, não é? Todos temos o direito à voz e a usar a palavra poética para expressar também o que não gostamos e queremos ver melhorado na comunidade e no país onde vivemos. A literatura é um direito humano. Quanto à memória literária em Portugal, recordo-me do momento em que li o meu primeiro poema para ouvintes relativamente desconhecidos. Foi na Livraria Traga-Mundos, que recomendo, se o leitor e a leitora calhar de ir a Vila Real. Tentei esconder-me o melhor que pude, mas o livreiro – que é hoje um grande parceiro e amigo – foi buscar-me à plateia e disse bem alto que eu tinha poemas para ler. Não tive hipótese e acabou por correr tudo muito bem ou, pelo menos, bastante melhor do que o que eu tinha imaginado.

Desejas, um dia, conhecer o Brasil?

JOSÉ PINTO: Muitíssimo! É o que tenho dito sem parar aos amigos e amigas com quem me tenho correspondido no Brasil. Que sim, que quero muito conhecer o país e tirar o tempo necessário para visitar poetas e artistas amigos(as). E ninguém melhor, a meu ver, do que poetas para mostrar a cultura real e do dia a dia dos(as) brasileiros(as), de quem cria com as mãos e escreve com o coração apontado para o infinito. Se já com a distância de um oceano, as trocas têm sido muito ricas, apesar do envio demorado de livros, eles chegam e é isso que é o mais importante. Que cheguem e que cheguemos. Havemos de chegar, sim.

Enfim, vamos a trocas rápidas?

Um livro:

‘Exemplos’ de João Vário.

Um(a) autor(a):

Jorge de Sena.

Um poema:

‘Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya’ de Jorge de Sena.

Uma frase:

‘Não, aqui não há mais beleza do que em qualquer outro lugar (…) – no entanto há muita beleza aqui, como há muita beleza em toda a parte’ de Rainer M. Rilke.

Um sonho literário:

Dedicar-me à escrita a 100%.

Um recado para os brasileiros neste momento difícil:

A altura do monstro é a altura do sentido de humanidade, isto é, de projetos e dinâmicas de fortalecimento coletivo e comunitário que forem possíveis criar, reforçar e mobilizar, em favor do direito de todos(as) à dignidade, à expressão da vontade dessa dignidade e ao diálogo empático com a diferença. Na rua, desde a rua e com a rua, porque a rua não mente.

O que quero transmitir aos brasileiros, com os lapsos de juízo de quem não conhece ainda o país com os seus pés descalços (que é como eu realmente gosto de estar), é que a cidade ensina sim e aprende mais ainda. E o que ela aprende é o que cada um e cada uma leva consigo quando sai da porta de casa pra rua todas as manhãs. Cada um leva consigo palavras, enquanto significantes de experiências de vida. E palavras constroem, destroem e reconstroem o mundo no qual vamos viver amanhã. Parece-me que o tempo é o de habitar e agir poeticamente sobre a cidade, tendo sempre em mente que quanto menos pessoas assistirem a um ato de beleza que se faça a alguém, mais potente o efeito dele se torna. E, isto sim, ameaça qualquer colonialista.

Créditos Homo Literatus

O texto acima é de autoria de Paula Akkari, colaboradora fixa do Homo Literatus. A revisão é de Fernando Araújo. A edição é de Nicole Ayres (editora assistente do Homo Literatus).

Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Revisão por
Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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