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Resenha: As Intermitências da Morte – José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu”; diz Saramago, expressando toda a sua capacidade de síntese, já na primeira frase de Intermitências da Morte.

Confesso que quando comecei a ler este livro não esperava tanto. Quem acha que José Saramago é ranzinza ou alguma coisa assim, não pode deixar de ler esta obra, pois a ironia deste mestre em narrativas aparece em grande estilo.

“É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”. (pg. 40).

O livro em si, trata-se da história de um pequeno país que de um dia para o outro ninguém mais morre. O que, a princípio, deveria ser ótimo; é apresentado com todas as complicações e contradições que só a humanidade poderia apresentar.

A destacar-se, o incrível narrador que está sempre presente na obra de Saramago; o qual, por exemplo, consegue aplicar as reflexões do próprio autor ao narrador; tornando-se, assim, difícil sabermos se um não é o outro. Por exemplo, neste trecho fica evidente o que afirmei acima:

“Logo a caligrafia, disse ele, é estranhamente irregular, parece que se reuniram ali todos os modos conhecidos, possíveis e aberrantes de traçar as letras do alfabeto latino, como se cada uma delas tivesse sido escrita por uma pessoa diferente, mas isso ainda se perdoaria, ainda poderia ser tomado como defeito menor à vista da sintaxe caótica, da ausência de pontos finais, do não uso de parêntesis absolutamente necessários, da eliminação obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos saltinhos e, pecado sem perdão, da intencional e quase diabólica abolição da letra maiúscula, que, imagine-se, chega a ser omitida na própria assinatura da carta e substituída pela minúscula correspondente”. (pg. 111).

Para finalizar, posso dizer que indico o livro para qualquer um. É simplesmente fantástico. Deixo uma das citações que mais gostei do livro:

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes demos, não têm outra justificativa para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca”. (pg. 36)

É editor e idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do programa de televisão LiteratusTV, do podcast 30:MIN e das séries de vídeos QuestionBook e A Arte de Contar Histórias Por Escrito. Tem um conto publicado na Revista Flaubert #06 e #11. Finalizou um romance que pretende publicar em 2015.

5 comments

  1. tai disse:

    Bom, eu posso dizer que esse livro sempre foi minha indicação. Acho ele um livro bastante sarcástico, que brinca bastante com questões relevantes e tem uma leveza no seu âmago. Para mim, intermitências é a polêmica misturada com irreverência.

    O melhor da obra é quando a morte, em um momento de total melancolia, vai até um noticiário de tv e conta porque entrou em greve e o quanto está cansada por não obter reconhecimento pelo seu trabalho.

    Um livro pra quem gosta de literatura.

    • Vilto Reis disse:

      Sabe uma curiosidade deste livro que não botei na resenha? Não sei se você percebeu, mas em momento algum ele dá nome aos personagens do livro… tem que ser bom pra fazer isso! Só Saramago mesmo.

      Obrigado pelo comentário.

  2. Andrew disse:

    Este é um grande livro subestimado do Saramago. Pra mim, ele figura fácil no mesmo nível do Cegueira/Lucidez!

  3. Vinícius R. Pires disse:

    Além do sarcasmo e humor que Saramago lança nas páginas desse livro, acho incrível a profunda reflexão à cerca da condição humana. O livro passa por uma total metamorfose em seu enredo, iniciando-se em um tom verdadeiro cômico e terminando em algo surpreendente, romântico e suave. Sem sombra de dúvidas, Saramago mostra nessas páginas porquê é um Prêmio Nobel.

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