Resenha: O apanhador do campo de centeio – J.D. Salinger

O apanhador no campo de centeio é um clássico da literatura americana. O livro conta a história de Holden Caulfield, um garoto que embora seja de uma família rica e de pessoas inteligentes tem muitas dificuldades de aceitação, caso típico de depressão adolescente. Holden foi expulso de várias escolas, e agora com mais um Natal chegando vem mais uma expulsão, desta vez do Colégio Pencey.

Entre seus conflitos pessoais, o protagonista acaba expondo alguns pensamentos ótimos, como este:

Antigamente eu achava a Sally muito inteligente, mas só de burro que eu sou. Só porque ela entendia de teatro, e peças, e literatura e todo esse negócio. Quando as pessoas sabem um bocado sobre essas coisas, a gente leva um tempão para descobrir se são burras ou não. (Pg. 106).

Holden Caulfield é um grande exemplo de anti-herói, e seu comportamento depressivo tem sido muito questionado nos EUA, chegando-se a atribuir comportamentos negativos de alguns adolescentes ao fato de terem lido o livro. Eu me questiono sobre isso, o que falar da influência que um trecho como este poderia ter num adolescente:

Muita gente já tinha chegado de férias e acho que havia mais ou menos um milhão de pequenas por ali, sentada ou em pé esperando os namorados… Era realmente uma paisagem interessante. De certo modo, também era meio deprimente, porque a gente ficava pensando o que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões. Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho a umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue-pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos que nunca na vida abriram um livro. Sujeitos chatos pra burro. (Pg. 122).

Não vejo motivos para acusar um livro pelo fato dele incentivar uma busca pessoal por aquilo que muitas vezes os outros não entendem. Um professor do protagonista o compreendeu e explicou a situação do rapaz da seguinte maneira:

Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não pode lhes proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não poderia lhes proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes de começá-la de verdade. (Pg. 182).

Recomendo a leitura, gostei bastante.

Vilto Reis Autor

Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.

Comentários

    Daniel Nakamura

    (dezembro 5, 2015 - 1:26 pm)

    Muito bom! Não sabia que por volta de 2012 o Homoliteratus fazia resenhas…

    Em analogia a Peter Pan, ambos os personagens recusam abandonar a infância, mas diferem-se em um ponto: na Terra do Nunca, Peter está consciente de seu desejo por retardar o envelhecimento; no campo de centeio, Holden está inconsciente sobre seu desejo…

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