5 Extraordinários Poemas de Mário Quintana

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Pergunta difícil de responder. Contudo, é certo que Mário Quintana figura neste Olimpo, através de suas poesias que, num primeiro momento, parecem simples, mas escondem uma profundidade assombrosa.

Leia também o pequeno ensaio: A sonhadora poesia mortal do imortal Mário Quintana

O homem simples, que gostava de dormir e de noite ficar comendo barras de chocolate com café preto, segundo Sérgio Faraco¹, deu uma lição de humildade numa situação difícil. Despejado do Hotel Majestic, no centro de Porto Alegre, por falta de pagamento – o jornal Correio do Povo, onde trabalhava, havia fechado –, recebeu de Falcão, jogador da seleção e comentarista esportivo, um dos quartos do Hotel Royal, de sua propriedade. Certo dia, uma amiga o visitou e achou seu quarto pequeno. Quintana respondeu: “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”.

Simples e profundo, Quintana. Melhor que as minhas palavras é conferir estes cinco extraordinários poemas do mestre:

1 – O Auto-Retrato
No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

2 – Os Parceiros
Sonhar é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste…
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê?Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro…eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…
Como também disfarce é a minha vida!

3 – Os Retratos
Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizam de todo
Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim…
Sem fim e sem sentido…
Dessas que a gente inventava
enganar a solidão dos caminhos sem lua.

4 – Eu Escrevi um Poema Triste
Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!
Mais

5 – Poeminha do contra
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

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¹ Quem é Mario Quintana, texto escrito por Sérgio Faraco no livro Sapato Furado, de Quintana.